Maestrick – Resenha de “Espresso Della Vita: Solare” (2018)

 

Maestrick Espresso Della Vita Solare
Maestrick – “Espresso Della Vita: Solare” (2018, Marquee/Avalon) NOTA:9,5

Eu confesso que “Espresso Della Vita: Solare” foi o disco mais complicado de resenhar em 2018.

Foram diversas audições minuciosas, anotações, reflexões, e ainda não sei se captei todas as camadas sobrepostas de texturas, timbragens e sentimentos, deste segundo full lenght da banda Maestrick.

Me lembro que quando resenhei o disco anterior, “Unpuzzle”, de 2011, registrei que este seria um álbum lembrado como “uma das obras-primas do Heavy Metal Nacional”, e guardei para mim o pensamento de que seria muito difícil superar o bom gosto multifacetado daquela viagem musical guiada pela sensibilidade, sem abrir mão do peso do Heavy Metal, bem como da versatilidade.

Chamo isso de providência divina, afinal, teria “queimado minha língua” com esta afirmação se a tivesse registrado naquela resenha, pois “Espresso Della Vita: Solare”, sucessor de Unpuzzle (entre ambos ainda existe o EP  “The Trick Side of Some Songs” [2016]), soa quase como um tratado musical filosófico desenvolvido à partir da ruptura com os limites que o hard rock/heavy metal possam impor, construindo e desconstruindo as possibilidades exploratórias que a liberdade musical concede.

E se não supera “Unpuzzle”, “Espresso Della Vita: Solare” também não deve em nada para seu antecessor.

O conceito do realismo fantástico está remodelado, mais artístico e maduro, algo perceptível já no trabalho gráfico do álbum, desenvolvido pela artista Juh Leidl, com destaque à belíssima capa com remissões conceituais ao cinema de Tim Burton e Guillermo Del Toro, ou ao livro “As Terras Devastadas”, terceira parte do épico “A Torre Negra”.

Especificamente, o conceito de “Espresso Della Vita: Solare” versa sobre as experiências humanas ao longo da vida por uma alegoria centrada numa viagem de trem sem destino, ao longo das primeiras doze horas do dia, sendo um disco vívido e elegante, emoldurado por um sentimento musical latino permeando as composições.

Dividido em três momentos, tanto da viagem quanto da vida, o Maestrick cria um conjunto de faixas onde sons se fazem imagens e a viagem toma forma por uma sofisticação orgânica e fluida que nos dá sentimentos absolutos, dialogando com nosso espírito.

E é justamente por aí que vemos como a influência das trilhas sonoras do cinema e dos musicais são importantes para aflorar sentimentos e dramaticidades.

“Origami” já mostra como esse apelo cinematográfico  está inserido nos aspectos progressivos e sinfônicos da música do Maestrick, que chegam mais proeminentes em “I a.m. Living” (uma descendente direta do Yes), “Rooster Rage” (com um sabor de classic rock diluído na fórmula progressiva que ainda é pincelada pela viola caipira muito bem encaixada numa espécie de power rock/metal), e “Daily View” (com aquele tempero burlesco inspirado pelo Queen, mas à moda Maestrick)

Essa primeira parte de “Espresso Della Vita: Solare”, compreendida nas primeiras quatro músicas, traz movimentos relativos à infância, sendo as músicas mais “felizes” e iluminadas do repertório, se desenvolvendo enquanto conversam com nossas próprias experiências.

E até nisso o Maestrick foi eficiente, pois a infância carrega fantasmas para os estágios da vida humana, os mesmos que assombram os arranjos que constroem o restante do trabalho que segue numa decrescente iluminação até o desfecho, ainda fazendo um paralelo com “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, indo do Paraíso ao Inferno, passando pelo Purgatório, em letras que se dividem entre o português, o inglês e o espanhol.

Na sequência, “Water Birds”  tem uma herança forte das bandas setentistas brasileiras, em seus movimentos e harmonias vocais  bucólicos muito bem amarrados às timbragens metálicas e backing vocals oníricos.

Musicalmente, essa faixa, junto com a direta e oitentista “Keep Trying”, “The Seed” (épica e inspiradíssima), e “Far West” (que seria um ótimo resumo do álbum), mudam a abordagem do progressivo, para algo menos verborrágico, e mais reflexivo, mas sem perder o fio condutor que governa claramente “Espresso Della Vita: Solare”, como o trilho do trem que dita o caminho por paisagens diferentes.

“Across the River” (balada belíssima) traz até algo de soul em algumas linhas vocais nas passagens finais, inaugurando a última parte do álbum que já mostra algumas sombras da noite que veremos em “Lunare”.

Como na excelente “Penitência”, com seu tons mais graves nos riffs e um clima misterioso advindo das ligações com o folclore brasileiro bem emoldurado pela percussão, pandeiro, triângulo e vocais de segundo plano.

Ao menos para mim, a mensagem que ficou deste conceito é para aproveitarmos o percurso, a viagem, e nos preocuparmos menos com o destino final – e, mais uma vez, justamente aí, existe um paralelo com o épico “A Torre Negra”, de Stephen King.

Musicalmente, as orquestrações, os corais, a amplitude instrumental que esbarra com mais força nas referências de música regional (junto ao dobro, ukele e viola, temos um berrante) enquanto executa sua colagem de subgêneros de rock metal são o diferencial da personalidade do Maestrick dentro do mercado progressivo atual.

Sim, é progressivo e sinfônico (“Hijos de la Tierra” está aqui no desfecho para nos lembrar disso, com sua aula de texturas e timbragens), mas sem soar pomposo ou exageradamente requintado (ouça “Trainsition” e entenda como se faz um prog metal moderno e genuíno), num todo extremamente coeso, sendo difícil encontrar destaques num disco tão homogêneo. Seria cometer o mesmo erro de quem destaca o sorriso da Mona Lisa do conjunto na obra.

Não há como negar que o Maestrick criou um universo próprio dentro do metal nacional, com assinatura marcada pelo surrealismo das letras e pela destreza técnica que soa sempre bela e nunca exibicionista.

Uma identidade muito bem trabalhada em estúdio pela produção de Adair Daufembach (Project46, John Wayne, Hangar), que também é o encarregado de gravar todas as guitarras do álbum (se destacando nas linhas de “Penitência”).

Ou seja, “Espresso Della Vita: Solare” é um álbum rico, grandioso, não só em conceito e musicalidade, mas também em produção. Muitos convidados dão uma dinâmica plural ao trabalho, funcionando como as múltiplas e diferentes vozes que passam por nossas vidas.

“Espresso Della Vita: Solare” não é só uma nova opção para quem gosta de música sofisticada, mas para quem aprecia nomes que elevam a música à sua forma mais artística, intersectando-a com as outras artes.

Já estou ansioso para a prometida segunda parte de “Espresso Della Vita”, que terá o subtítulo “Lunare”, mas até lá espero ter assimilado o máximo possível desta belíssima primeira parte.

 

TRACKLIST

01. Origami
02. I a.m. Living
03. Rooster Race
04. Daily View
05. Water Birds
06. Keep Trying
07. The Seed
08. Far West
09. Across the River
10. Penitência
11. Hijos de la Tierra
12. Trainsition

FORMAÇÃO

Fabio Caldeira (vocal/piano)

Heitor Matos (bateria)

Renato Montanha (baixo)

Neemias Teixeira (teclados).

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