FILME: “A Forma da Água” (The Shape of Water – E.U.A./2017)

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Por Ricardo Leite Costa

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“A Forma da Água” (The Shape of Water – E.U.A/2017, Fox, dir. Guillermo Del Toro) Nota: 7,5

A história de amor entre uma faxineira muda e uma criatura anfíbia humanoide parecia uma aposta arriscada, a fuga total do convencional, e de fato era mesmo, porém, a academia abraçou a ideia e concedeu à “A Forma da Água “ (The Shape of Water – E.U.A./2017) o Oscar de melhor filme.

Dirigido por Guillermo Del Toro (um mestre do cinema fantástico), o longa inova numa história, que se não é necessariamente uma novidade (contos de romance já foram retratados no cinema um sem número de vezes), certamente trata-se da primeira relação interespécies da história da sétima arte (“King Kong” não conta, pois era algo platônico apenas).

Elisa (Sally Hawkins) é uma humilde faxineira muda que trabalha em uma estação militar onde, num belo dia, chega para ser estudada uma criatura aquática misteriosa (Doug Jones, um especialista em encarnar monstros em geral).

A princípio, o primeiro contato gera estranheza, pois não é todo dia que encontramos semelhante aberração da natureza, mas aos poucos o sentimento de complacência, afinal, o ser aquático (uma mistura de monstro da lagoa negra e Abe Sapien de “Hellboy”) é explorado e torturado em prol da ciência, se converte em amor puro e verdadeiro, uma atração que transcende a barreira entre espécies, e muda a rotina simples e pacata da moça para sempre.

Confira o primeiro trailer do filme… 

Elisa, ao perceber o natural desfecho da pobre criatura, resolve tirá-la daquela situação, gerando fúria e perseguição por parte de seu superior, o vilanesco agente Richard Strickland (Michael Shannon, um sujeito que nasceu pra ser vilão).

A narrativa é ambientada durante a Guerra Fria, período sombrio da história, e a tensão entre os gigantes capitalista e socialista é refletida, ainda que não explicitamente, durante seu desenrolar.

O tom sombrio, gótico até, é emoldurado por cores frias, uma fotografia escura, onde a prevalência de tons verdes favorece propositalmente o clima de cinema de horror/fantástico (ou algo próximo de um conto de fadas bizarro), onde Del Toro se sente realmente à vontade.

“A Forma da Água”, tecnicamente falando, é impecável. Uma história bem construída, que rende momentos de apreensão e de ternura (a cena dos protagonistas abraçados em baixo d’água, tendo a imensidão azul do oceano ao seu redor é tocante), além de uma grande revelação (a criatura possui um dom bastante peculiar, que será decisivo na conclusão da trama).

Confira o segundo trailer do filme… 

Os efeitos visuais são primorosos e a caracterização do homem-peixe é não menos que perfeita (minha filha mais nova até questionou se ele seria real). A movimentação e os trejeitos de Doug Jones dão ainda mais veracidade ao animal e, ainda que balbuciando apenas alguns sons, o mesmo traz em sua expressão facial e corpórea mais significado que muitos diálogos prolixos.

Sally Hawkins convence como deficiente e foge do estereótipo da mocinha linda e indefesa, trazendo ao seu personagem uma beleza interna, de caráter quase cândido, mas, quem merecia ser indicado de fato ao Oscar de melhor ator é Michael Shannon. Sabe aquele vilão que você tem vontade de estrangular de tão irritante. Pois bem, Strickland é um personagem muito bem composto, com um propósito bem definido e, o mais importante, sem ser caricato ou histriônico. Um antagonista de respeito.

“A Forma da Água” também rendeu a Del Toro o Oscar de melhor direção, afinal, o cineasta mexicano tem talento incomum em reproduzir universos fantásticos e situações insólitas, e creio que isso fora decisivo no crivo final da comissão julgadora.

Na minha opinião – já contrariando a academia -, não é o melhor filme do mundo, mas é um espetáculo visual portentoso e, justamente por isso, merece a credibilidade que vem alcançando. Confira!

Obs.: ouvi alguns comentários acusando o filme de “romantizar a zoofilia”. Argumento estapafúrdio e desnecessário, afinal, a criatura é fruto da imaginação de seu realizador, portanto, é uma obra de ficção. O politicamente correto está atingindo um nível perigoso!

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