VOCÊ DEVIA OUVIR ISTO: Trouble, “The Skull” (1985)

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Dia Indicado para ouvir: Sábado;

Hora do dia indicada para ouvir: oito da noite;

Definição em poucas palavras: Participação de Cristo, guitarra, progressivo, true metal, sombrio e épico;

Estilo do Artista: Doom/Heavy Metal;

Trouble - The Skull (1985)
Trouble: The Skull (1985, Metal Blade – 2018, Hellion Records [relançamento])

Comentário Geral: Em seu primeiro álbum, “Psalm 9” (1984), o Trouble apresentou um heavy/doom metal puro e simples, mesclando a nobreza inglesa do heavy metal com a sonoridade underground norte-americana da época, de nomes como Pentagram, Saint Vitus, e Cirith Ungol, principalmente na produção crua, suja, honesta e orgânica usada para imprimir aquele que era um dos primeiros capítulos do doom metal, gênero que se desdobraria em mutações das mais interessantes.  

Indiscutivelmente, o Trouble traz, ao menos em seus quatro primeiros álbuns de estúdio, um compêndio musical integral para se entender o Doom Metal clássico, distante do senso épico do Candlemass, e resvalando pontualmente no tecnicismo do Thrash Metal.

E todo este caráter influenciador que começou em “Psalm 9”, teve continuidade em “The Skull” (1985), que evidencia ainda mais a identidade da banda, ao invés de mascarar uma mudança de rumos.

É inevitável uma comparação entre os dois primeiros discos, e neste sentido “The Skull” não só leva vantagem pela melhor produção, como pela clara evolução dos integrantes como compositores. A energia dos vocais é a mesma, mas as linhas estão mais criativas, e a voz melhor definida, isso é um fato.

As letras melhor trabalhadas e com profundidade filosófico-religiosa, iam na contra-mão do que era pregado no heavy metal da época. Para entender melhor isso, façamos um exercício de contextualização histórica para este álbum.

Em meados dos anos oitenta o thrash metal vivia o ápice de seus pioneiros e o  hard rock via sua popularidade explodir. O mundo do rock/metal se via numa dicotomia entre “feios, sujos e ‘satanistas'” e a galera do “sexo, drogas, carros rápidos e rock n’ roll”. 

Imagine como “The Skull” caiu na cena! Inclusive havia no disco uma citação ao livro bíblico de Efésios, que dizia

“Toda a amargura, e ira, e cólera, e gritaria, e blasfêmia e toda a malícia sejam tiradas dentre vós,
Antes sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo.”

Isso aliado ao seu metal arrastado, contrastava com a competição de velocidade que o gênero experimentava naqueles dias, a organicidade da produção (novamente dividida entre a própria banda e Bill Metoyer) contrapunha aos baluartes ingleses que começavam a experimentar texturas sintetizadas (como o Iron Maiden em “Somewhere in Time” [1986] e o Judas Priest em “Turbo” [1986]), e as letras não eram nem anti-religiosas e muito menos frívolas.

Claro que foram estereotipados  como uma banda cristã, mas suas composições eram tão fortes que muitos ignoravam a temática e se rendiam ao doom metal fortemente inspirado no Black Sabbath, e bem temperado por movimentos setentistas do hard rock. 

Neste sentido musical, como a abertura em fade in revela, a banda segue quase numa abordagem continuada de “Psalm 9”. Ou seja, o doom metal clássico, com leves toques psicodélicos. Todavia, as mudanças estruturais pontuais são nítidas.

O todo de “The Skull” pode até soar menos cativante que seu predecessor, muito por causa da elasticidade de algumas composições, ou pelo viés mais depressivo e obscuro que retirou parte do poder acachapante do heavy metal de “Psalm 9”, porém não dá pra negar que estão mais criativos e livres nestas sete composições.

Existem referencias de blues aqui (“The Truth Is, What Is”),  progressivas acolá (“The Wish”), muito  pela elasticidade e variação dos andamentos, e uma dose leve e pontual de rock alternativo (principalmente nos vocais de “Pray for the Dead”, com tempero ácido e sombrio do gothic rock), bem como passagens acústicas bem alocadas.

Os riffs estão precisos, construídos sobre os dez mandamentos do metal inglês (leia-se Judas Priest e Black Sabbath), bebendo muito na fonte da NWOBHM (ouça “Gideon”). Além disso, os movimentos estão amplificados em seus aspectos sorumbáticos com poder de hipnotizar, como bem vemos em “Wickedness of Man” e “The Wish”, verdadeiras aulas de doom metal tradicional.

Estruturalmente, este disco ajudou a extrapolar os ensinamentos sabáticos na gênese do doom metal, inclusive antecipando alguns movimentos do rock/metal noventista.

“Fear No Evil”,  e “The Truth Is, What Is”, por exemplo, seriam modelos repetidos à exaustão pelas bandas que perpetuariam o chamado stoner rock/metal, enquanto “The Skull” teria sua melancolia sorumbática copiada por diversas bandas de rock alternativo na década seguinte (ouça-a e me responda se não dá pra imaginar o Alice In Chains fazendo um cover mais enxuto e chapado desta música?).

“The Skull” é um segundo capítulo não só melhor acabado que o primeiro, mas também mais cerebral e inteligente na evolução do Trouble,  expandindo e experimentando dentro de seu conceito sonoro, sem o senso épico do Candlemass ou a escuridão do St. Vitus. Recheado de referências, mas dono da própria alma!

Um disco obrigatório para entender um momento de criação dentro do heavy metal, e VOCÊ DEVIA OUVIR ISTO!

Ano de Lançamento: 1985.

Formação: Eric Wagner (vocais) , Rick Wartell (guitarra), Bruce Franklin (guitarra), Sean McAllister (baixo), Jeff Olson (bateria)

Top 3: “The Skull”, “The Wish”, e “Pray for the Dead”.

Disco Pai: Black Sabbath: “Sabbath Bloody Sabbath” (1975)

Disco Irmão: Pentagram: “Day of Reckoning” (1987)

Disco Filho: Place of Skull: “With Vision” (2003)

Curiosidades: De acordo com Rick Wartell, Eric Wagner passava por um dos períodos mais depressivos de sua vida quando compôs as letras de “The Skull”.

Pra quem gosta de: Citações bíblicas, metal clássico, pioneirismo, melodias arrastadas, pão e vinho.

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