CLÁSSICO DA LITERATURA: “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury


 

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“Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum.”
Beatty, chefe dos bombeiros em Fahrenheit 451.

 

Gosto de imaginar que todo autor antes se dedicar à escrita de uma obra é acometido de um momento onde uma frase, uma imagem fora da realidade, ou uma lenda são o gatilho para que tudo se desenrole em sua privilegiada e criativa mente. Para mim, a ideia central de toda obra começa com duas palavras: “…e se…”.

No caso de Fahrenheit 451, imagino o autor Ray Bradbury, nos primeiros anos da década de 50, sendo agraciado com uma ideia simples.

Após ler a seguinte frase de Freud: “que progresso estamos fazendo. Na Idade Média queimariam a mim, hoje em dia, se contentam em queimar meus livros”. Imagino a iluminação que acomete o rosto daquele que se vê diante de uma momento típico de criatividade, por entre seus lábios surge a frase “e se, em um futuro não tão distante, a leitura fosse proibida e os livros, encarados como o mal da uma sociedade fossem queimados…”.

Na minha mente, é assim Ray Bradbury começa a forjar sua obra mais icônica. Pode parecer ingenuidade, mas Stephen King, um dos discípulos de Bradbury, em um de seus inúmeros prefácios, assumiria que a maioria de suas histórias nascem de um questionamento mental similar, geralmente envolvendo absurdos impraticáveis.

A verdade é que queimar livros está longe de ser uma ideia original. A história nos mostra que desde a antiguidade, livros e fogueiras vivem se encontrando em momentos tensos.

O Império Romano não pestanejou em enviar às chamas ardentes os livros de Cremucio Cordo e a Igreja não deu descanso às obras que considerava heréticas, bem como alguns de seus possuidores e os Nazistas deram sua contribuição para a carbonização do conhecimento impresso.

O impacto causado pela queima de livros como parte de uma obra literária é enorme. Intimamente é como se o conhecimento ali presente fosse incinerado junto com as páginas e seu teor fosse eternamente perdido.

Para um leitor apaixonado pelas páginas agrupadas e gravadas por símbolos enegrecidos, este cenário é atemorizante e o sentimento que tal situação causa no leitor foi muito bem personificado pelo personagem  Guilherme de Baskerville, protagonista da obra O Nome da Rosa (pode conferir um texto sobre a obra aqui), em sua incredulidade e tristeza diante da maior biblioteca de sua época consumida pelas chamas.

Entretanto, a queima de livros em uma sociedade do futuro é apenas o pano de fundo para que Ray Bradbury desfile seu discurso crítico e inteligente acerca dos caminhos que a humanidade pode seguir, no visionário Fahrenheit 451.

Algumas previsões deste livro são impressionantes e fica evidente que tais elementos foram desenvolvidos pelo traçado da personalidade de nosso sociedade.

A deturpação máxima dessa futura sociedade, alheia de total o senso crítico, se dá ao trazer os bombeiros como agentes piromaníacos literários.

Ou seja, aqueles que antes salvavam vidas, agora estão ateando fogo nos registros do conhecimento humano.

A obsolência futura de sua classe na sociedade distópica de Fahrenheit 451 os transformou de protetores a destruidores. Claro que os seres desta sociedade desenhada por Ray Bradbury, controlada por doses maciças de programas televisivos interativos e drogas, não possuem condições de estabelecer tal paralelo crítico.

Nas próximas seções do texto, queremos desenvolver uma discussão sem tecnicismo literário, apenas comentando nunces interessantes desta obra seminal da ficção científica.

O Autor

Ray Bradbury - Fahrenheit 451
Ray Bradbury: Um dos alicerces da ficção científica da segunda metade do século XX.

Ray Bradbury publicou Fahrenheit 451 em 1953, tendo se tornado sua maior obra, mesmo já havendo publicado outros volumes destacáveis. Sua estréia se deu nos últimos anos da década de 1930, com o conto Hollerbochen’s Dilema, quando completava seus estudos na Los Angeles High School, na cidade em que se fixou desde 1934.

As mudanças de cidade eram rotina em sua vida, decorrentes da profissão de seu pai. Ao contrário da maioria dos escritores destacáveis, mesmo na literatura popular,  ele não frequentou uma universidade, dando continuidade a seus estudo como autodidata e com muita prática.

O fruto de seu esforço veio em 1941, com Pendulum, uma parceira com Henry Hasse, sendo seu primeiro conto que lhe rendeu dinheiro, publicado na antologia Super Science Stories

Os ingredientes que mais tarde fariam de Ray Bradbury um dos maiores nomes da ficção já eram perceptíveis em suas primeiras obras, em especial, a mistura de terror e suspense com ficção científica está latente em The Lake, de 1942.  

Seguiram contos em diversas antologias do mercado literário americano, com destaque para Dark Carnival, de 1947. Futuramente, seria agraciado com o Oscar em 1956, pelo roteiro de Moby Dick e laureado com um sem número de prêmios literários, mas sua consolidação como um grande nome da literatura de ficção científica só veio em 1950, com a obra Crônicas Marcianas.

Nesta obra, o autor nos apresenta um planeta Marte (contribuindo para com o fetiche que a ficção cientifica dos anos 50 teria com o Planeta Vermelho) colonizado por seres humanos, em um futuro entre 1999 e 2026 (como veremos, Ray Bradbury não considerava que avanços desta magnitude iriam demorar mais do que poucas décadas).

Daí para escrever seu nome da história da cultura pop do século XX foi questão de tempo. Uma Sombra Passou Por Aqui e Fahrenheit 451 foram adaptados para o cinema, ele escreveu diversos roteiros clássicos para a televisão e influenciou grande parte dos escritores de literatura fantástica das gerações seguintes.

Bradbury nasceu em agosto de 1920, nos E.U.A. e faleceu em junho de 2002, na cidade de Los Angeles.

Sinopse

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Ray Bradbury: “Fahrenheit 451” (Editora Globo)

Para exterminá-los, basta chamar os bombeiros – profissionais que outrora se dedicavam à extinção de incêndios, mas que agora são os responsáveis pela manutenção da ordem, queimando publicações e impedindo que o conhecimento se dissemine como praga.

Este é o cenário em que vive Guy Montag, bombeiro que atravessa séria crise ideológica. Sua esposa passa o dia entretida com seus “parentes televisivos”, enquanto ele trabalha arduamente para comprar-lhe a tão sonhada quarta parede de TV.

Sua vida vazia é transformada, porém, quando ele conhece a vizinha Clarisse, uma adolescente que reflete sobre o mundo à sua volta e que o instiga a fazer o mesmo.

O sumiço misterioso de Clarisse leva Montag a se rebelar contra a política estabelecida, e ele passa a esconder livros em sua própria casa.

Denunciado por sua ousadia, é obrigado a mudar de tática e buscar aliados na luta pela preservação do pensamento e da memória.  (Sinopse presente na 1ª edição da obra, em sua 6ª impressão, lançada pela editora Globo no ano de 2008).

 

 

O Sociedade Distópica de “Fahrenheit 451”: A ditadura do senso-comum.

Pode até nos parecer um tanto ficcional que uma sociedade possa ter o alicerce de seu controle garantido apenas com a extinção dos livros.

Mas já tivemos exemplos históricos desta ação, sendo o mais notório deles perpetrado na Alemanha nazista em princípios da década de 1930. Montanhas de livros de autores que apresentavam críticas aos padrões nazistas eram “limpados” da literatura em fogueiras em praças públicas.

O movimento inflamado pelo diretório dos estudantes tinha defensores fortes como o poeta Hanns Johst, que defendia a purificação da literatura alemã, maculada por elementos alheios à cultura germânica.

A frase atribuída a Freud na introdução desta postagem foi proferida nestes dias, pois suas obras eram algumas a sentir o fogo purificador nazista.

Por esta face do prisma, a base da sociedade criada por Bradbury em Fahrenheit 451 não estaria tão distante de uma possível realidade.

Este mundo futurista estaria alocado por volta da década de 1990, num pós-guerra atômico, que saboreava o progresso industrial e bélico, além da organização urbana.

Este desenho proveniente da mente do autor, que viveu numa época onde o temor de conflitos nucleares era latente, nos faz questionar se era esta sua visão de um futuro pós-guerra-fria?

Nunca é demais observar que as páginas de Fahrenheit 451 foram escritas no auge da guerra-fria.

O tom urbano impera em todos os momentos e fica evidente a sociedade sintética que vive naqueles dias.

Fahrenheit 451 é dotado de um clima urbano frio onde, apesar do intelecto tecnológico avançado de cada cidadão (como fica evidente na explanação do Chefe Beatty), a sociedade é superficial, vivendo uma paz e felicidade fora da realidade.

Todo desenvolvimento da história é pintado em cores frias, alheio a sentimentos causados pelas vicissitudes  cotidianas e sem calor humano.

Uma sociedade robotizada e de relações interpessoais deterioradas que foi construída pela excessiva exposição à televisão interativa, apresentando personagens que tomam o lugar dos familiares nas casas.

A esposa de Montag é o maior exemplo do comportamento de um cidadão exposto de modo impiedoso a lavagem cerebral imposta por este controle.

A nossa realidade nos mostra que o controle efetivo de um povo é mais simples quando este povo não possui instrução adequada. Bradbury nos mostra uma outra faceta desta máxima, ao explicitar que uma sociedade que crê ter conhecimento, apesar de não tê-lo, é ainda mais fácil de ser dominada.

Esta análise inicial do caráter da sociedade de Bradbury nos leva a caracterizá-la como uma distopia.

Temos descrições fora da realidade histórica e tensões sociais amainadas por controle social (aqui exercido pelo abuso de narcóticos e exposição maciça à TV que ocupam paredes inteiras das casas) que juntas formam a base de uma possível “utopia negativa”.

Outro detalhe importante a ser mencionado é a aparente falta de ligação com assuntos místicos e metafísicos.

A sociedade de Fahrenheit 451 parece ter se livrado dos alicerces dogmáticos que sustentavam as sociedades anteriores e a nossa realidade, bem como o abandono da discussão de ideias (fato esse, bem explicitado no diálogo entre Montag e a Clarisse), colocando os cidadãos imersos em um arcabouço de razão pura.

Esta imersão lhes tira a vontade pessoal, mas de modo camuflado, transformando-os em seres mesquinhos que acreditam ser livres, quando, na verdade, são controlados de modo velado.

Estes elementos transformam o cotidiano dos personagem asfixiante e extremamente sintético, onde medicamentos são corriqueiros e de uso constante, utilizados para manter toda a superficialidade do mundo protocolar, que administra a ociosidade dos habitantes com atividades programadas.

Basicamente, a sociedade criada em Fahrenheit 451 é construída por uma ditadura silenciosa, que se vale do senso-comum e da indústria cultural para exercer seu poder e impulsionar a sociedade de consumo, nos apresentado como resultado final, uma cultura do espetáculo, onde ser diferente e ter interesses alheios aos gerais é um crime.

A genialidade do autor se faz presente no fato de trazer heróis de nossa sociedade real como agentes executores e controladores desta ditadura, que não é personificada na figura de um ditador, mas de um sistema ditatorial criado pelo senso comum.

A imposição do senso-comum é, em essência, o grande “vilão da história”.

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Na cena do filme de 1966, onde Montag “lê” seu jornal sem textos, totalmente composto por figuras

 

Bombeiros como Agentes do “Status Quo”

Apesar de todo o clima claustrofóbico que uma ditadura envolve, esta condição autoritária e que cerceia o pensamento e atitudes dos personagens não possui uma personificação de ditador, como já mencionado antes.

A ditadura do senso comum é executada pela grande maioria da sociedade futurista explorada na obra e a lógica principal oculta neste senso comum – oculta até mesmo aos que estão engajados nesta condição – é a de que os problemas normais da vida inexistem se os ignoramos.

Este fato fica claro nas palavras do chefe dos bombeiros em um de seus diálogos com Montag, após o bombeiro dar os primeiros sinais de estar se distanciando dos padrões estabelecidos. No mundo visto por Bradbury e nos apresentado nas páginas deste livro, as construções já não mais se incendeiam, tornando os bombeiros obsoletos.

Para manter a contestação do povo inerte é necessário destruir todos os elementos que os levem a pensar de modo crítico.

Neste contexto, os livros são os alvos principais e os bombeiros possuem um novo trabalho: atear fogo nas páginas encadernadas.

Eles agora serão agentes executores do imperialismo da superficialidade, onde conversas demoradas e troca de idéias são desencorajadas, assim como manter uma biblioteca em casa é sinônimo de crime.

Os controladores deste “totalitarismo” são personificados na figura do Chefe Beatty, que encarna um inquisidor perspicaz e conhecedor do conteúdo de cada obra literária, palavra por palavra, um imperdoável incinerador de obras literárias.

Sem rodeios ou floreios Beatty se tornará o antagonista de Montag, representando a voz do governo, que desfila de modo auspicioso o novo propósito de sua classe e recita de modo frio e mordaz trechos de vários autores numa das melhores cenas do livro.

A conversa entre Beatty e Montag é um dos pontos altos da obra, com o chefe dos bombeiros se valendo de toda a sua retórica e conhecimento de certas obras clássicas, para mostrar como cada uma delas se contradiz e só causa desconforto em quem as tenta entender ou harmonizar-se com elas.

Este é apenas um dos dois embates que as duas figuras irão debelar sendo que, no segundo, Beatty irá levar Montag ao limite da razão, culminando em uma situação extrema.

Capitaneados por Beatty, os bombeiros se tornaram agentes da limpeza dos questionamentos pessoais que perturbam cada cidadão e que se tornariam maléficos para a convivência em sociedade, em uma temperatura de 451 graus Fahrenheit, a exata medida de calor atingida pelo papel para que comece a queimar. Em resumo, os bombeiros são executores da impassividade da maioria, agentes do “status quo”.

 

Olhar Geral sobre “Fahrenheit 451”

Nas páginas escritas por Bradbury podemos contemplar o desfile de ideias de um gênio que consegue criar uma narrativa simples, mas recheada de detalhes instigantes e desconcertantes.

De imediato, podemos perceber a desconstrução do estoicismo atribuído aos bombeiros de nossa sociedade real, verdadeiros heróis, mas que na sociedade futurista de Bradbury são administradores da camuflada ditadura da letargia que é imposta como se fosse da vontade de cada cidadão.

Todo o desenvolvimento da narrativa de “Fahrenheit 451” se concentra em Guy Montag, mostrado sempre em primeiro plano e como suas experiências cotidianas o levarão à contestação do modo de vida que ele defende, afinal, Montag é um dos bombeiros, agentes mantenedores da artificial serenidade social.

Com o foco deslocado para Montag, podemos ressaltar dois eventos que são cruciais para o desenrolar da trama:

  1. Clarisse McClean, uma adolescente que muda a vida de nosso personagem principal de imediato, partindo de um simples diálogo, que leva Montag a pensar fora de sua zona de conforto. Ela ainda lhe mostrará como coisas pequenas são prazerosas e se perderam nesta sociedade pós-guerra. Simplicidades como conversas com amigos e as mais simples contestações do ser humano serão o pontapé inicial da virada existencial de Montag.
  2. A senhora Blake será de suma importância no já perturbado bombeiro. A resistência desta senhora em abandonar seus livros, mesmo após do fogo ateado em sua biblioteca irá reverberar na cabeça de Montag, fazendo-o indagar por qual razão ela morreria por algumas obras literárias. O que teria de tão especial nos livros que faria a senhora Blake morrer queimada junto deles? Neste momento, Montag já havia surrupiado algumas obras e começava a se render ao poder dos livros.

Por mais controverso que possa parecer, Bradbury concebera esta obra no porão da biblioteca da Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

Nos intervalos de sua jornada criativa ele caminhava por entre as prateleiras saboreando o espaço que seria proibido na sua versão futurista de mundo que viria a nascer desta obra em que trabalhava, denominada The Fireman e que foi publicada em 1951.

Fahrenheit 451 nasceu após este conto ser expandido e durante muito tempo foi visto apenas como um marco da ficção científica, mas o cerne da obra vai muito além destes rótulos.

De modo insinuante o autor discute a exploração das massas e sutilmente mostra como esta condição interfere no declínio do pensamento humano, levando consigo para o limbo toda a sociedade.

Na seção anterior, mostramos os bombeiros como agentes executores de uma ditadura do senso comum, levemente permeada por um clima de medo.

Pois bem, este autoritarismo velado pode ser interpretado como oriundo da cultura de massa que nos leva ao retrocesso do conhecimento sendo transmito através de uma corrente subterrânea e de modo verbal.

Basta um olhar a nossa volta para perceber que não estamos tão distantes assim de “Fahrenheit 451”.

Antes de tomar contato com esta corrente de conhecimento, Montag experimenta uma transição que serve de alegoria a qualquer ser humano que já experimentou a mudança da inércia de pensamento ao sabor dos questionamentos que nos levam a sair da bolha instaurada pelo senso comum.

Apesar de ser uma obra ficcional, a sociedade de Fahrenheit 451 não foge de certas semelhanças constrangedoras com a nossa realidade.

Clarisse, a primeira perturbação na calmaria inerte de Montag imprime no bombeiro a necessidade de questionamento.

Apesar do aparente descaso, a semente da indagação já estava plantada no espírito de Guy Montag e seu desenvolvimento seria apenas questão de tempo.

Ao ser indagado pela adolescente de dezessete anos se era feliz, não tinha conhecimento da reviravolta que aconteceria em sua vida e em sua forma de pensar.

O desenvolvimento do enredo de “Fahrenheit 451” irá se ramificar a partir deste evento e novos elementos irão contribuir para que a história se desenrole para um único e imprevisível desfecho que fora desvelado na segunda parte da obra, mas que pelo turbilhão de emoções de Montag que somos expostos, não tomamos conhecimento deste detalhe.

Aliás, o autor explora como poucos as emoções de seu protagonista, uma exclusividade deste personagem, pois nenhum outro na obra possui descrições emocionais tão bem descritas quanto Guy Montag.

O ponto de vista de outros personagens é apresentado, mas sem instilar questionamentos, deixando claro que o único a sair da passividade foi Montag, que erra ao tentar mostrar a sua esposa Mildred suas novas formas de pensamento.

Mildred já está completamente dominada pelos agentes da cultura de massa e acaba se tornando outro antagonista de Guy, que estará se opondo a Clarisse e a Faber, um peculiar e resistente personagem.

Ao confrontar a esposa, fica claro a inexistência de relações interpessoais entre os dois, fato este evidente na vida virtual que Mildred tenta manter em sua exposição maciça aos telões de TV interativa.

Para ela, as pessoas que aparecem em seus programas favorito são mais reais que seu marido, entretanto ela se torna o contra-exemplo do propósito de felicidade que embasa a queima de livros de “Fahrenheit 451”.

Mildred, mesmo não sendo alvejada por questionamentos concretos e abstratos, sofre com tentativas de suicídio frustadas e das quais não se recordará graças aos avanços medicinais da época, pois não há solidão maior do que quando percebemos que somos um poço vazio,quando estamos distantes até de nós mesmos.

Por fim, o mais interessante na forma como Bradbury desenvolve sua narrativa em “Fahrenheit 451” é perceber que a principal crítica, apesar da impressão imediata, não ataca a censura, mas sim a cultura de massa, ou a a cultura do senso-comum.

O ataque crítico do autor esta diretamente voltado à forma como a publicidade impressa na cultura de massa nos faz desejosos de modo alarmante das pseudo-necessidades, mesmo que estas não sejam nossas vontades plenas.

Tipicamente este estado social é uma sequela de uma sociedade industrialmente desenvolvida, cujos cidadãos alienados são levados ao consumo pela “cultura” vigente.

Os diversos elementos salpicados nas páginas do livro nos mostram que esta exposição desenfreada a entretenimento sem conteúdo não provoca a desejada liberdade e alegria, mas sim alienação. até mesmo de si próprio, provocando no indivíduo tendências destrutivas.

 

“Fahrenheit 451” na Sétima Arte 

A adaptação para o cinema de “Fahrenheit 451” foi feita pelo cineasta francês François Truffaut, um dos pilares da Nouvelle Vague e um dos maiores nomes do cinema no século XX.

Colecionador inveterado de livros, ele gastava inúmeras horas enfurnado em livrarias alimentando sua paixão pela intelectualidade e sua mão pode ser sentida permeando todo o filme, dando cores mais psicológicas ao mundo de Ray Bradbury.

Mesmo não sendo um grande admirador da ficção científica, a obra de Bradbury ia além da simples exploração científica futurista e pode ser listada como um conto filosófico, olhar este que fisgou o cineasta francês.

Aqui, o mundo futurista serve de ambiente propício para certeiras explorações psicológicas de cada personagem, principalmente de Montag.

O investimento nos questionamentos de Montag e notório, bem como certas alterações de enredo, fazendo sutilmente diferentes os desfechos de filme e livro.

O leitor que tomar contato com a obra de Truffaut notará, após encerrada a exibição, que o cineasta diminuiu a velocidade das duas primeiras partes do livro e acelerou a terceira, e última parte, a qual possui menos implicações psicológicas e mais consequências ativas dos questionamentos de Montag.

É importante mencionar que em nenhum momento esta abordagem cinematográfica retira a essência da versão literária de “Fahrenheit 451”, sendo possível estabelecer as mesmas interpretações em ambas as expressões artísticas.

Certas modificações foram feitas como parte da interpretação de Truffaut e a mudança no final de “Fahrenheit 451”, creio eu, se dá pela simples necessidade de encaixe aos moldes do cinema da época.

Uma das preocupações era o possível alto custo de produção para a adaptação, além da preferência de Bradbury para que Crônicas Marcianas fosse parar nas telonas. Era fato que o autor da livro não estava nem um pouco empolgado com a adaptação de Fahrenheit 451.

Após longas conversas entre Truffaut e Bradbury, os direitos do livro foram comprados por quarenta mil dólares, quantia considerável em 1962.

A partir daí, o projeto começou a andar em passos lentos.

O roteiro escrito em francês foi traduzido para o inglês, após a proposta de dois jovens produtores americanos que alegavam a necessidade da indústria cinematográfica por um exemplo de um filme realmente brilhante com custos moderados.

O título inicial da película seria Phoenix e o projeto consumiu quatro anos, dos quais o cineasta se envolveu em outro projetos consideráveis.

O fato de não falar inglês e as filmagens de Fahrenheit 451 serem, em sua maioria, alocadas na Grã-Bretanha foram um problema, mas não tão grande quanto o trabalho com Oskar Werner, que deu vida a Montag.

O ator, certo dia, já no meio das gravações, apareceu no set de filmagem com um novo corte de cabelo que Truffaut precisou mascarar para não prejudicar a continuidade do filme.

No fim das contas, esta pode não ser a melhor obra de François Truffaut, mas é um divisor de águas em sua carreira, pois foi a primeira investida do cineasta num filme a cores e totalmente falado em inglês.

Fahrenheit 451: trailer da adaptação de François Truffaut.

Discotecagem Literária:

Esta obra harmoniza com os seguintes álbuns
1) Kraftwerk: Autobahn; (degustação)
2) Kraftwerk: The Man-Machine; (degustação)
3) Pink Floyd: The Final Cut; (degustação)
4)  Brian Eno: Another Green World; (degustação)
5) Egberto Gismonti: Trem Caipira;  (degustação)

 

Bibliografia

1) Ray Bradbury: Fahrenheit 451.
2) Robbie Anne Reid: Ray Bradbury – A Critical Companion
3) Antoine de Baeque e Serge Toubiana: François Truffaut

 

Postagem Escrita ao Som de:

1) Astor Piazzolla: Os Grande Sucessos de Astor Piazzolla

2) Vivaldi: 5 Gênios da Música

3) Miles Davis: Kind Of Blue

4) Vários: Atlantic Blues Chicago

5) Texas: Texas 25

6) Opeth: Pale Communion

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