O DIABO NA MÚSICA OCIDENTAL | Do Barroco ao Black Metal

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Após a história de Goethe, intitulada “Fausto”, uma tragédia onde o protagonista desiludido faz um pacto com o demônio Mefistófeles em troca de favores terrenos, começaram a surgir histórias de artistas que deviam suas habilidades a acordos demoníacos.

Sim, meu caro leitor, a história não é novidade nenhuma, afinal “Fausto”, possivelmente baseado na vida do mago Johann Georg Faust (c.1480-c.1540)foi publicado em edição definitiva em 1808.

O primeiro “fausto da música” pode ter sido anterior ao personagem de Goethe. Estou falando de Giuseppe Tartini (1692 – 1770).

Segundo “O Livro de Ouro da História da Música”, de Otto Maria Carpeaux, Giuseppe Tartini foi o principal desenvolvedor da virtuose no violino, e dono de um manual de ornamentação musical que revela a transição do estilo barroco para o estilo “galante”.

Suas sonatas “passavam por cumes inigualáveis de dificuldades virtuosísticas”. E uma delas chama a nossa atenção, a “Sonata op. 1, nº2,”, chamada de “Trille de Diable”, que detém uma lenda pitoresca.

O primeiro a contar a lenda foi o astrônomo Jérôme Lalande, em sua obra “Voyage d’un français en Italie” (1769).

Numa época em que refletia sobre as dificuldades inéditas no violino, Tartini teria recebido a visita do Diabo num sonho que tocava um tema de extrema dificuldade e teria dito: “isso nem sequer você sabe tocar!” 

O tema seria a cadeia de trilhos que completa o terceiro movimento da “Sonata op. 1, nº2,” “Sonata do Diabo” ou “Devil’s Dream Sonata”.

Tartini sem dúvidas foi o maior violinista do século XVIII, mas o mais famoso pela relação com o Diabo foi Niccolò Paganini (1782 — 1840),

Segundo conta a lenda, Paganini foi outro virtuose do violino que também teria vendido sua alma ao diabo em troca de sua técnica e habilidade no instrumento.

O maior dos violinistas, Paganini usava a auto-promoção muito antes desse conceito ser solidamente definido no marketing. Ele fazia acreditar que suas habilidades foram aprendidas durante anos na prisão, quando cumpria pena por ter matado sua amante.

O TRÍTONO

Trítono, o som do diabo, ou diabolus in musica, é um som dissonante onde uma combinação de notas soa carregada de tensão e sombras.

O termo som do diabo foi cunhado ainda a Idade Média, quando a Igreja chegou a proibir que esse intervalo musical fosse incluído em composições da época, pois considerava-o maligno e extremamente desarmônico.

A harmonia musical era ligada com a perfeição de Deus, e algo tão dissonante só podia ser cunhado pelo Diabo. A pena para os desobedientes era a fogueira.

Talvez isso seja apenas um mito, afinal alguns cantos gregorianos utilizados em atividades eclesiásticas usavam o trítono, e o termo diabolus in musica só se referia à dificuldade de execução desse intervalo musical. Lembre-se, o diabo mora nos detalhes.

Na verdade, o trítono é a mais complexa dissonância da música ocidental, que pode ser conferida até em sinfonias de Beethoven, mas faria sucesso mesmo no advento do heavy metal!

ROBERT JOHNSON: “Me and the Devil Blues”!

Anos antes do advento do heavy metal, no princípio de século XX, os templos do blues não eram as casas badaladas de Chicago, mas sim as chamadas jook joints, as quais um infante Robert Johnson frequentava às escondidas durante a noite.

Músicos que o conheciam dizem que sua técnica musical em dado momento era apenas a de um aprendiz promissor.

Entretanto, de modo súbito, esta condição mudou, com Robert demonstrando habilidades extremas, no espaço de tempo entre dois encontro com  Son House e Willie Brown, outros dois músicos clássicos do blues, desfilando uma forma de tocar blues inovadora para a época.

Não obstante, muitas de suas músicas citam explicitamente o demônio vide Hellhound On My Trail, Me an The Devil Blues e Preaching The Blues, sendo a hipótese de um pacto diabólico, quase um corolário do desenrolar dos fatos em uma comunidade supersticiosa como aquela em que viviam.

A lenda dizia que Robert Johnson teria sido instruído a se dirigir até a encruzilhada formada pelas rodovias 61 e 49, onde um negro iria ensinar-lhe técnicas invejáveis no violão.

Robert, segundo a história, estaria dedilhando de modo inábil as suas desafinadas seis cordas, quando um enorme negro foi em sua direção, ignorando sua presença, totalmente atento ao violão, tomado-o das suas mãos, afinado-o, executado um riff endiabrado, devolvido o instrumento a Robert e seguido seu caminho.

Este encontro dera ao bluesman a habilidade de executar o que desejasse e tocar o blues como nunca fora feito. Tudo isso em troca de sua alma.

SATANISMO NA MÚSICA: “O DIABO É O PAI DO ROCK”!

Michael Moynihan, em seu livro “Lords of Chaos”, reflete muito bem sobre o caráter do rock n’ roll dentro de uma sociedade cristã. Segundo ele “o Rock n’ Roll há muito tempo tem sido um adversário para muitos dos pilares básicos do cristianismo.” 

Gosto de pensar que essa é uma verdade, apenas escrita de forma mais bonita do que “o Diabo é o pai do Rock!”, como bradava Raul Seixas!

O satanismo no rock  vem da herança do blues, e começa a tomar forma mais concreta quando gravações de Robert Johnson começam a influenciar a geração sessentista após ser redescoberto pelo relançamento de um LP.

Saiba mais sobre Robert Johnson no texto que escrevemos para ele aqui.

Nesse momento histórico, a delinquência juvenil dos anos 1950 deu lugar ao experimentalismo e ao abuso de drogas, impulsionados pela contra-cultura.

Um redirecionamento que aflorou sentimentos mais sombrios dentro do rock, donde surgem os Rolling Stones, com suas máscaras em fotos promocionais, títulos de discos provocativos (como “Their Satanic Majesties Request”) e a clássica “Sympathy for the Devil”.

Como vimos nesse texto, em que exploramos as “relações satânicas” dos Rolling Stones, essa música, “Sympathy for the Devil”, foi simbólica para a inserção do ocultismo e da magia negra, afinal, o Festival de Altamont foi decisivo para enterrar o ideário hippie na música.

O que criou uma lacuna filosófica dentro do rock no fim dos anos 1960, abrindo espaço para que a filosofia thelemica de Aleister Crowley através dos filmes de Kenneth Anger, um discípulo de Crowley.

Tudo bem que Aleister Crowley está longe de ser um satanista, assim como a thelema não é satanismo, mas é fato que esta escola moderna do ocultismo foi um impulso para a inserção do satanismo propriamente dito no rock sessentista e setentista, e em suas vertentes futuras.

E conforme vimos neste outro texto, a influência de Aleister Crowley no rock setentista/oitentista se estende do Led Zeppelin ao Iron Maiden, passando por David Bowie e John Lennon.

Basta lembrar de como Jimmy Page ajudou a difundir o ocultismo no rock quando ele se transmutava em heavy metal.

Confira os cinco passos que levaram o rock em direção ao heavy metal aqui.

Alguns temas usados pelo Led Zeppelin antecipam a geração noventista do black metal em quase duas décadas.

“No Quarter” é um exemplo disso! De fato, musicalmente, era uma balada psicodélica, mas a letra apresenta a banda como um esquadrão da morte viking, misturando proto-satanismo com mitologia nórdica.

Todavia, a coisa começou a atingir um nível mais intenso dentro do primeiro escalão do heavy rock com o Black Sabbath. Muito pela influência do baixista Geezer Buttler, um confesso interessado em ocultismo.

Mesmo antes do quarteto inglês mergulhar de cabeça em temas satânicos, do outro lado do Atlântico existia o Coven.

Uma raridade perdida até décadas recentes, “Witchcraft Destroys Minds & Reaps Souls”, seu disco de estréia, saiu ainda em 1969, com altíssima concentração de ocultismo em sua fórmula.

O disco até vinha com um aviso sobre os riscos do manuseio do álbum para os não iniciados em magia negra, sendo que a banda liderada pela loira Jinx Dawson era fortemente influenciada pela magick de Aleister Crowley, sobre a qual você fica sabendo mais aqui.

Até existe uma coincidência interessante entre o Black Sabbath e o Coven. O nome do baixista da banda norte -americana é Oz Osborne.

Ainda existe uma lenda de que o Coven iria liderar uma espécie de Woodstock Satânico, e para não dizer que eles não foram relevantes o suficiente para tal, King Diamond se declarou influenciado pela banda.

Voltando ao Black Sabbath, seu grande impacto foi causado por, numa época onde a onda hippie e o discurso flower power eram aspergidos pelos convertidos aos dogmas emanados no Woodstock, eles primavam por uma temática sobrenatural, à começar pela capa de seu primeiro álbum que, além de inaugurar o heavy metal, trazia uma arte gráfica fúnebre e gótica, de uma mulher parada num cenário lúgubre completado por uma casa abandonada, em tons marrom e cinza.

Saiba tudo sobre a capa do primeiro álbum do Black Sabbath aqui.

O quarteto de Birhmingham, completado por Ozzy Osbourne, Tonny Iommi, Geezer Butler e Bill Ward, investia nos mesmos acordes menores do Blues, e improvisos jazzísticos,  mas com psicodelia ocultista, tempos mais lentos, quase rastejantes, e clima funesto, épico, obscuro, e teatral.

Falavam de aparições diabólicas, bruxas, feitiçaria, trajavam peças escuras, e pesadas, e vinham adornados por cruzes metálicas manufaturadas pelo pai de Ozzy.

Isso impulsionou outras bandas de rock  a abordarem aspectos negros da mitologia cristã ou pagã.

Junto ao Black Sabbath e ao Coven, tivemos o Black Widow, um sexteto de hard rock que lançou três bons álbuns com apelo ocultista, entre 1970 e 1972, que merecem ser redescobertos.

Seus shows supostamente encenavam partes de rituais satânicos e muito sobre sua biografia ainda permanence envolto em mistério.

Não podemos nos esquecer de “Black Mass Lucifer”, disco de 1971 de Mort Garson, músico, compositor, arranjador, e pioneiro da música eletrônica, lançado pela MCA Records, e que trazia uma sinfonia satânica eletrônica.

Atualmente, existe um revival deste chamado occult rock, buscando renovar aquele clima sombrio, mas envolvente. Talvez o nome mais proeminente neste segmento nos dias atuais seja a banda Ghost.

SATANISMO NA MÚSICA: O Metal Negro.

“O Rock n’ Roll há muito tempo tem sido um adversário para muitos dos pilares básicos do cristianismo, mas o heavy metal underground levou isto às últimas consequências”. Esta seria a frase completa de Michael Moynihan, presente em “Lords of Chaos”, e que foi usada na abertura da seção anterior.

Nos anos 1970, o occult rock se desenvolveu à margem do rock e do heavy metal, salvo por pontualidades de nomes como AC/DC, Kiss e Alice Cooper que usavam sua forma mais teatral, até na virada da década, quando vimos nascer nomes como Venom, Mercyful Fate e Bathory.

O Venom foi a banda que definitivamente mudou o jogo.

Se antes, as blasfêmias e aspectos satânicos eram insinuados, com o Venom a coisa escrachou de forma quase histriônica.

Com pseudônimos evocando seres mitológicos, eles elevaram o proto-satanismo do Black Sabbath a um alto patamar provocativo e blasfemo, usando a potência musical do Motorhead para criar uma sonoridade crua, agressiva e cavernosa para emoldurar seu satanismo gótico, que beirava a ingenuidade.

Para entender as diferentes formas de satanismo, acesse este post. 

O segundo disco do Venom, “Black Metal”, lançado em 1982, além de clássico, batizou o novo gênero que vinha sendo gestado desde o advento do heavy metal, mesmo que o satanismo de suas letras seja “fajuto” e longe de uma filosofia concreta.

Naquele mesmo ano, na Dinamarca, “Nuns Have No Fun” apresentava ao mundo o Mercyful Fate. Essa sim uma banda influenciada pela filosofia satânica de Anton LaVey, muito pela liderança de seu vocalista, King Diamond.

Seus dois clássicos primeiros álbuns traziam rituais mágicos, pesadelos, pactos e declarações de alianças satânicas.

Com isso, o Mercyful Fate trouxe para o jogo do heavy metal um protótipo de máscara satânica  que seria utilizada na segundo geração do black metal.

King Diamond possivelmente era o único dentre seus pares que investiam numa mensagem satânica que realmente buscava aspectos reais do satanismo e não somente usá-lo como oposição aos valores sociais e religiosos do ocidente.

Já o Bathory foi a espinha dorsal do que seria de fato conhecido como black metal. 

Seus três primeiros discos seguem o modelo do Venom, mas ainda mais crú, barulhento e ríspido, à começar pelas letras, que envolviam satanismo e magia negra, todavia, nos álbuns seguintes veríamos algo mais elaborado, mudando o conceito para uma temática pagã e viking.

Se a Europa tinha Venom, Mercyful Fate e Bathory, a América enfrentava uma forma ainda mais conservadora de “satanismo na música”.

Nos Estados Unidos, o conservadorismo chegava às raias dos romances de Nathaniel Hawthorne, mesmo nas últimas décadas do século XX. Os acusados de satanismo musical na América, eram nomes como Motley Crue (por causa do disco “Shout At the Devil”), Kiss, Misfits e seus filhos Samhain e Danzig.

O jornal  New York Post chegou a noticiar que as canções destas bandas eram uma “descarada admissão” de que os músicos estavam “mancomunados com Satanás”.

Enquanto isso, o Slayer forjava seus clássicos primeiro álbuns, assim como o Possessed, com o que havia de mais concreto no satanismo dentro do heavy metal naqueles dias, nos Estados Unidos, mesmo que hoje muito daquelas letras soem tão ingênuas quanto os poemas que você escrevia nos cadernos da escola na sua adolescência.

Cruzando novamente o Atlântico, nomes como Sodom, Kreator, Hellhammer e Celtic Frost, flertavam com temas satânicos, mas sem a fidelidade de seus predecessores europeus, tanto que logo mudaram seus rumos, usando temáticas mais abertas dentro do desenvolvimento do thrash metal, até como fez os nossos Sepultura, Sarcófago e e Vulcano.

Todas estas bandas usavam a estética ingênua do satanismo medieval, mas não há dúvidas que os europeus sempre foram mais radicais no quesito blasfêmia.

O próximo passo em agressividade e peso partindo do thrash metal seria o death metal, um gênero que chegou a ganhar o mainstream no final da década de 1980.

Isso não impediu que bandas importantes do estilo tivessem sua parcela satânica na temática. Nomes como Deicide e Morbid Angel eram os mais marcantes. Glen Benton, vocalista do Deicide, encarnava uma espécie de anticristo do heavy metal. 

Em dado momento, o thrash metal e o death metal eram parte do mainstream musical, independente do teor satânico ou não!

Em resposta a essa condição diametralmente oposta ao papel de oposição às normas e ao mundo pop, a Noruega ofereceu um dos movimentos mais ultrajantes da história da música, que tem impacto até os dias de hoje: o black metal norueguês.

Conhecida como segunda geração do black metal, essa cena recomeçou exatamente de onde pararam Venom e Bathory em suas verves mais satânicas, capitaneadas por bandas como Mayhem, Darkthrone, Bruzum e Immortal.

Mas essa cena merece um post só pra si, e você confere ele aqui. 

A partir de então, o black metal ríspido, violento e blasfemo se fundiu aos demais subgêneros do heavy metal, principalmente ao death metal, gerando ápices da blasfêmia, como o EP “Fuck Me Jesus” (capa histórica na edição da Osmose Productions), do Marduk.

Marduk Fuck Me Jesus
Marduk: “Fuck Me Jesus”

Um dos últimos exemplos de fidelidade ao satanismo no mundo musical veio de Jon Nödtveidt, da banda sueca Dissection, que era membro da Misanthropic Luciferian Order, ordem ocultista fundada em 1995, na Suécia, com conceitos complexos próximos ao luceferianismo, entremeados de neo-gnosticismo e niilismo, resultando numa visão tríptica de Satã.

POR FIM…

Claro que não queremos escrever um tratado sobre o satanismo na música ocidental, e sim dar um panorama geral do assunto.

Obviamente, não nos aprofundamos em nenhum dos exemplos e gêneros que absorveram a influência satânica, e quando achamos necessário um mergulho mais vertical em certos tópicos escrevemos novos posts que estão devidamente lincados no texto.

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