Marcelo R. Paiva e Clemente Nascimento – “Meninos em Fúria” | Resenha

 

“Meninos em Fúria” é um livro escrito por Marcelo Rubens Paiva em parceria com Clemente Nascimento lançado em 2016, pela Editora Alfaguara.

Marcelo Rubens Paiva Clemente Nascimento - Meninos em Fúria e o som que Mundou a Música Para Sempre Alfaguara Resenha Review

“Março, 1983. Diante de uma plateia atônita, Clemente e sua banda, os Inocentes, começam a tocar acordes rápidos. Ariel, o vocalista, cai do palco e segue cantando com o microfone desligado. Clemente, no baixo, toma os vocais. Caos e confusão, um show que se tornaria um marco do rock brasileiro.”

Com esta fraqueza de recordações e crueza de narrativa, este livro preenche uma lacuna no contexto politico-musical nacional, como um relato de campo de um sobrevivente de uma época transformadora, movida por uma juventude em ebulição, num texto de tom quase confessional, fruto das reflexões pessoais e passagens autobiográficas, deste livro escrito à “quatro mãos”.

Mãos que pertencem a Marcelo Rubens Paiva (que em 1982 havia acabado de sofrer o acidente que o colocara numa cadeira de rodas e o leva a escrever seu livro, Feliz ano velho, um dos símbolos da cultura pop oitentista brasileira) e a Clemente Tadeu Nascimento (quiçá, o mais importante nome do punk nacional), que se conheceram nos iniciais anos da década de 1980 e agora, em 2016, confeccionam em “Meninos em Fúria” um retrato muito bem detalhado da situação politico-social-cultural do nosso país à partir do descortinar dos anos 1980, mostrando alguns paralelos com a situação inflamada que vivemos hoje.

Clemente Tadeu Nascimento nasceu em maio de 1963. É vocalista e guitarrista das bandas Inocentes e Plebe Rude, apresentador do programa “Filhos da Pátria”, na rádio Kiss FM, e dos programas Estúdio Showlivre e Heavy Lero, na web. Recentemente, lançou seu primeiro disco solo, “Antes que Seja Tarde”, com A Fantástica Banda Sem Nome.

Marcelo Rubens Paiva nasceu em 1959. Publicou, entre outros, os romances Malu de bicicleta (2004) e A segunda vez que te conheci (2008). É escritor, dramaturgo e jornalista, além de colunista do jornal O Estado de S. Paulo. Mora em São Paulo, com a mulher e o filho.

Mesmo com este sabor de documento histórico, o que temos em mãos é um livro vibrante,  que se lê como um romance, contextualizando a importância do movimento punk e da sublevação da periferia em meio a abertura política brasileira, bem como limpa as brumas do que levou a juventude oitentista brasileira à fúria e ao desencanto cultural:

“…a acomodação da MPB era desesperadora. Tropicálica e Clube da Esquina foram os últimos movimentos que tocaram a alma e o cérebro… O Rock existia na sombra, não na luz. Apenas a revista Pop cobria.” 

Outro detalhe importante, principalmente para aqueles que não viveram a época, é a informação de como a Rede Globo se tornou esse veículo de imbecilização em larga escala nos anos 1980:

“A Globo virou rede, dominou a audiência, virou monopólio… a era dos programas de música, apresentados ao vivo em horário nobre, foi substituída pela era das novelas enquadradas no rigor da censura”.

Com todo o conhecimento de causa, vindo da periferia paulistana, Clemente mostra com passagens mais reflexivas e outros momentos empolgantes, como se envolveu com as guerras de gangues, os namoros shakespearianos com as meninas de regiões rivais, oferecendo, inclusive, um mapeamento das gangues na “distópica” São Paulo dos anos oitenta, que via surgir junto a este cenário um som novo e radical, que provava como o conhecimento e a cultura além da massa chega, de uma forma ou de outra, aos interessados.

Sistematizando os fatos reais com muita leveza e destreza, a dupla lança luz a um momento que há tempos merecia um registro desta natureza, com lucidez e certo distanciamento de ideologias tão inerentes ao assunto, deixando claro como o punk inflamou a juventude, enumerando locais, eventos e nomes, transformando a narrativa romântica em realidade à medida que as linhas são avançadas.

Pode adquirir este livro sem medo e colocá-lo na sua estante entre as suas edições de “Mate-me, Por Favor”, de Legs McNeil e Gillian McCain, e “Dias de Luta – O Rock e o Brasil dos Anos 80”, de Ricardo Alexandre, obviamente, depois de devidamente lido.

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