Handmaid’s Tale | A Geopolítica de Gilead


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“O conto da aia” (Título Original: The Handmaid’s tale | Autora: Magaret Eleanor Atwood | 1985)

“O Conto da Aia” é um dos tesouros modernos da ficção científica, escrito pela canadense Margaret Atwood.

A distopia lançada em 1985 ganhou nada menos que o Prêmio Arthur C. Clarke, em 1987, sendo também nomeado para o Prêmio Nebula, de 1986, o Prêmio Booker, de 1986 e o Prêmio Prometheus, de 1987.

Neste romance (que resenhamos aqui) Margaret Atwood desenvolve uma sociedade ultra-conservadora, baseada nos ensinamentos do Antigo Testamento e no puritanismo norte-americano dos séculos XVIII e XIX, alocada no mundo moderno.

Para mim, é um dos grandes livros que já li e existia muito ali para a ampliação daquele “universo”, o que esta sendo executada na ótima série “The Handmaid’s Tale”.

Todavia, nossa opinião quanto a livro e série já foi feita (aqui) e hoje quero tentar, por pistas tanto de livro quanto série, traçar o “panorama geopolítico” da sociedade de Gilead, o patriarcal e conservador país onde se passa a trama.

Assim como acontecera com “O Homem do Castelo Alto” (sobre o qual escrevemos nesse texto), de Philip K. Dick (autor que indicamos três livros essenciais nessa lista), a curiosidade sobre a geografia da versão distópica dos Estados Unidos despertou enquanto lia e assistia “O Conto da Aia”.

Sendo assim, através de um quebra-cabeças de informações tentei amainar essa curiosidade, costurando informações retiradas de livro e série, que organizados deram fruto ao que você lerá abaixo.

1. A República de Gilead

A Repúblida de Gilead, ou simplesmente Gilead, é um estado autoritarista e teocrático, implantado em parte dos Estados Unidos após um golpe orquestrado pelos Filhos de Jacó.

Grosso modo, Gilead seria uma versão judaico-cristã do Estado Islâmico, mas sem a ideia da jihad.

A Sociedade Pré-Gilead

A sociedade ocidental experimentava alguns problemas sérios de clima e fertilidade antes do estabelecimento da República de Gilead.

Na primeira temporada de “The Handmaid’s Tale” somos informados que no México apenas uma criança nasceu ao longo de seis anos numa cidade do tamanho de Boston.

Já no livro, a infertilidade é mencionada como um problema presente na maioria das sociedades caucasianas do norte, à época. Inclusive em ambos os formatos fica claro que o Comandante Waterford é estéril.

Na futura Gilead, as causas da infertilidade serão colocadas sobre a poluição, mais especificamente o cultivo inorgânico de alimentos e também a radioatividade.

Alegarão inclusive [no livro] que parte da infertilidade vinha do uso constante de métodos contraceptivos, e um castigo de Deus por tantos abortos.

Ainda temos justificativas para a infertilidade mundial como uma consequência da cepa-R de sífilis e da epidemia de AIDS, conforme o livro nos conta. Bebês natimortos e com deformidades genéticas tornaram-se comuns nessa época pré-Gilead.

No livro ainda somos informados de que a Romênia, já nos anos 1980, banira todas as formas de controle de natalidade, impondo testes de gravidez compulsórios às mulheres, e vinculando o aumento de salário e promoções à fertilidade.

Na sociedade norte-americana pré-Gilead ja eram usadas mães de aluguel para burlar problemas de fertilidade, assim como a inseminação artificial. Essa e uma informação do fim do livro e mostrada de forma clara na segunda temporada da série.

Também existem relatos de vários acidentes nucleares e panes nas usinas com sabotagens ocorrendo. Assim como vazamentos do estoque de armas químicas e biológicas, que juntos aos milhares de depósitos de lixo tóxico poluíram seriamente os locais em seu entorno.

Além disso, as políticas racistas estavam enraizadas no período pré-Gilead, e os temores de conflitos raciais forneceram o combustível emocional que permitiu o golpe dos Filhos de Jacó e a tomada de poder bem sucedida.

Os Filhos de Jacó

Nesse contexto, vários grupos isolados de radicais religiosos dentro do território norte-americano se uniram numa conspiração.

Numa referência às doze tribos do Velho Testamento, que seria a lei base de Gilead, se autodenominaram Os Filhos de Jacó.

O Estados Unidos antes da implantação da República de Gilead vivia um problema com o declínio na taxa de natalidade , e os Filhos de Jacó acreditavam que um rígido controle dos papéis de cada gênero poderiam resolver o problema

A Transformação dos EUA na República de Gilead

Gilead mapa - Gilead Map The Handmaid's Tale O Conto da Aia Bandeira de Gilead
A bandeira de Gilead

Através de um golpe de Estado os Filhos de Jacó tomaram o poder dos Estados Unidos.

A tática se baseou em ataques coordenados que assassinaram o presidente e os membros do Congresso, bem como os juízes da Suprema Corte e todo o staff da Casa Branca.

A autoria do ataque foi direcionada (na série) ao Estado Islâmico e, posteriormente, um estado de emergência foi instituído nos Estados Unidos.

Na sequência, Constituição foi suspensa, dados bancários congelados, censura total e todas as mulheres empregadas foram demitidas.

Manifestações, protestos e marchas em oposição aos rumos que o país tomava surgiram no processo de transição planejado pelos Filhos de Jacó, mas estes foram coibidos  com violência e brutalidade pelos “Guardiões da Fé”, que tinham permissão para atirar a sangue frio em qualquer opositor das novas diretrizes.

Insurgentes devidamente dominados, os Filhos de Jacó começaram a perseguir aqueles que não estivessem de acordo com sua fé.

Minorias, intelectuais, religiosos de denominações diferentes, ativistas políticos e “traidores de gênero” se tornavam párias, as mulheres eram brutalmente oprimidas, enquanto Gilead surgia sobre o que outrora eram os Estados Unidos.

Os Filhos de Jacó aboliram a divisão federativa  e se estabeleceram num único estado com governo centralizado.

Desta forma, a República de Gilead foi imposta como o Estado sucessor do país mais influente do mundo ocidental.

A Estrutura de Governo

O governo de Gilead foi centralizado num comitê no âmbito geral, e localmente por um conselho composto por comandantes locais.

A Guerra Civil

Não foram só os civis que se opuseram ao processo que transformou os EUA na República de Gilead.

Alguns soldados, junto aos civis que sobreviveram ao golpe impetrado pelos Filhos de Jacó, se reorganizaram no Alasca, no Havaí e em localidades pontuais, dando início a uma resistência, batizada d de Mayday,  que culminou numa segunda Guerra Civil no norte da América.

Na série “The Handmaid’s Tale”, a personagem principal, Offred, nos deixa saber que a Guerra Civil ainda se desenrola  enquanto a trama corre, nos dizendo que Chicago é palco de uma batalha.

As Colônias

Como locais de trabalhos forçados para os párias (principalmente as mulheres classificadas como “não-mulheres”, ou Jezebels) da sociedade de Gilead, as Colônias foram detalhadas na segunda temporada de “The Handmaid’s Tale”

Nelas os trabalhadores removiam a contaminação do solo. Nos mapas elas são localizadas no meio-oeste e no sudeste norte americano.

Estas áreas seriam aquelas contaminadas pela poluição industrial e pela radiação oriundas de acidentes e até de armas nucleares.

A Queda de Gilead

Ao que tudo indica, Gilead existiu apenas por algumas décadas.

No livro “O Conto da Aia”, o período de existência de Gilead é dividido em três partes principais até sua queda, todos estudados em universidades do governo democrático futuramente restaurado na América do Norte.

A queda de Gilead se deu após o período Médio,  quando os registros oficiais das reuniões dos Filhos de Jacó foram destruídos no que foi denominado Grande Expurgo, que desacreditou e liquidou um número considerável de arquitetos do regime.

2. O Mapa de Gilead

A segunda temporada de  “The Handmaid’s Tale” mostrou relances do que seria um mapa de Gilead.

Na verdade, teríamos dois mapas, o primeiro retratando o avanço das tropas da República na Guerra Civil e ou um segundo já com os 48 Estados quase tomados pelos Filhos de Jacó.

Segundo estes mapas, áreas a nordeste e meio leste eram dominadas pelos fundamentalistas de Gilead, enquanto outros territórios ainda estariam em disputa, sendo o Alasca e o Hawai os únicos territórios ainda pertencentes ao que sobrou dos Estados Unidos.

Mapas

Abaixo alguns mapas que apareceram na segunda temporada da série e pela internet.

Gilead mapa - Gilead Map The Handmaid's Tale O Conto da Aia

  1. Como esperado pelo clima frio visto na série, o Distrito principal de Gilead fica ao norte, se dividindo em partes do Maine, Vermont, New York, e Massachusetts;
  2. Todos os pontos pretos do mapa representam bases militares;
  3. As áreas verdes são as Colônias e as curvas em seu entorno indicam a intensidade de risco de contaminação;
  4. Os territórios em vermelho pontilhado são ocupados pelos Filhos de Jacó, mas ainda em conflito com rebeldes, sendo suas bordas mais escuras fronteiras de conflito. Perceba que elas também estão presentes no Distrito de Gilead.
Gilead mapa - Gilead Map The Handmaid's Tale O Conto da Aia
Mapa de Gilead: Perceba que neste mapa mais “limpo”, que aparece no final da segunda temporada, as divisões territoriais são mais explícitas.

Claro que os modelos para mapas de Gilead chegaram muito antes da série, variando em detalhes e criatividade. Abaixo apresento os principais.

Nesse primeiro mapa Gilead aparece apenas com os territórios do leste, exceto a Flórida que se junta a porção em vermelho-e-branca das terras em disputa pelos Filhos de Jacó e a resistência, conhecida como Mayday, que detém toda a porção oeste dos Estados Unidos em seu poder.

As Colônias neste mapa são as partes verdes mais claras e aqui os Estados Unidos se resumiram também ao Havaí e ao Alasca.

O próximo mapa nos dá um panorâma de como poderia ser contextualizada geograficamente a Republica de Gilead na América do Norte.

Gilead mapa - Gilead Map The Handmaid's Tale O Conto da Aia

No que tange à divisão dos Estados Unidos, este mapa só se diferencia do anterior por apresentar a República do Texas; No mais, ele mantém parte da Flórida como território rebelde e mostra que os países vizinhos não foram afetados em suas fronteiras.

3. A Sociedade de Gilead

Não existe liberdade do cidadão de Gilead, que estão privados de direitos civis e humanos e divididos dentro de uma estreita e bem definida hierarquia de classes.

A sociedade em Gilead é patriarcal, fundamentalista e construída sobre as leis religiosas do Velho Testamento. Neste contexto, só homens podem ser alfabetizados e galgar degraus sociais.

As mulheres são uma classe secundária; não podem ler e estudar (exceto as Tias), nem ter propriedades em seu nome, ou ter empregos.

Com este sistema social, Gilead conseguiu reduzir 78% da emissão de carbono na atmosfera e a radioatividade é controlada pelas mulheres obrigadas a trabalho escravo nas colônias.

Toda música secular foi banida pelo regime que também declarou adúlteros todos os segundos casamentos e ligações extra-conjugais, prendendo as mulheres e, com o fundamento de que eram moralmente inaptas, confiscaram seus filhos que foram adotados por casais sem filhos do alto escalão da sociedade de Gilead.

As Classes Sociais

Os homens são divididos em:

  • Comandantes da Fé: os governantes de Gilead;
  • Os Olhos: Força policial e espiã;
  • Guardiões: Seguranças, guarda-costas e motoristas dos comandantes;
  • Anjos: Soldados;
  • “Econopessoas”: trabalhadores homens quase escravos que usam o mesmo tom acinzentado das Marthas.

No caso das mulheres, a divisão é feita da seguinte maneira:

  • Esposas: mais alto grau social das mulheres, ainda assim
  • “Econoesposas”: esposas dos trabalhadores;
  • Tias: a única classe feminina que parece ter um poder social hierárquico sobra as mulheres, superior aos comandantes;
  • Marthas: São empregadas e governantas nas famílias de alta classe;
  • Jezebels: mulheres obrigadas a prostituição e ao entretenimento.

As Aias

A sociedade gileadeana estava submetida a grandes pressões de caráter demográfico e as Aias eram mulheres recrutadas para o caráter reprodutivo e o esquema de barriga de aluguel usado na sociedade pré-Gilead foi institucionalizado e justificado com passagens bíblicas.

São mulheres férteis que de alguma forma quebraram as leis de Gilead e foram obrigadas a se tornar Aias, responsáveis por gerar os filhos de Gilead como barrigas de aluguel para os Comandantes e suas esposas, num ritual monstruoso inspirado pela história de Abraão e sua serva Agar.

Num mundo onde a reprodução humana está ameaçada, o primeiro objetivo de Gilead é a reprodução. Por isso, as Aias formam a classe feminina “mais importante” de Gilead.

Inclusive, a primeira temporada de “The Handmaid’s Tale” nos mostra que as Aias estão a ponto de serem tratadas como comodities de Gilead, enquanto são negociadas com o governo mexicano.

O impacto desta condição social das mulheres de Gilead no mundo, conforme registrado no livro, motivou movimentos como “Salvem as Mulheres”, principalmente nas Ilhas Britânicas.

Por Fim

Claro que todas essas informações são retiradas de obras de ficção, mas não tão distantes assim da realidade.

Não é necessário voltar muito no tempo para ver um Golpe de Estado amparado por uma facção paramilitar (lembre-se do Zimbábue, em 2017),

Cabe também mencionar que Gilead é o nome de um local existente no mundo real. Uma terreno montanhoso mencionado na Bíblia em Gênesis 31:21-22, sendo o local onde Jacó se encontra com seu tio Labão pela última vez, muito importante dentro do Velho Testamento. É interessante lembrar que Stephen King também usou o nome em sua genial saga “A Torre Negra”.

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