ATUALIZANDO A DISCOTECA: Coldplay, A Head Full Of Dreams


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“Existia um sentimento de que não tínhamos nada a perder.” Chris Martin

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Coldplay: A Head Full of Dreams (2015)

 Esta declaração do líder do Coldplay explica muito do que ouvimos neste sétimo (e talvez último) álbum da banda britânica.

Depois de oxigenar o britpop com o ótimo álbum Parachutes (2000), eles caíram na auto-imitação sonora até a tentativa de reformulação com o derrapante Mylo Xyloto (2011), que dividiu os fãs da banda, mas abriu uma porta para aqueles que encaravam as composições do Coldplay como repetições insossas de si mesmo, ou simplesmente um mimetismo descarado do U2.

A verdade é que aquele álbum de 2011 foi um ponto de transição na música de Chris Martin & Cia, promovendo-os a cientistas de um laboratório musical do mainstream.

Creio que se não fossem os problemas matrimoniais de Martin, este A Head Full Of Dreams teria ganhado o mundo anteriormente, mas as desventuras cotidianas deram vida ao controverso Ghost Stories (2014), uma clara ruptura com a sonoridade que a banda explorou até aquele momento da carreira.

Um álbum sombrio, monocromático e confessional, funcionou como um exorcismo dos demônios e das emoções confusas que pudessem atrapalhar o processo de evolução criativa da banda.

Não posso dizer que sou um fã do Coldplay, muito pelo contrário, mas acompanhava com atenção o trabalho da banda, pois acreditava que uma mente musical que, para o bem ou para o mal, remodelou o pop rock e que compôs pérolas como “In My Place” e “Trouble“, vanguardistas em suas épocas, ainda encontraria um caminho musical relevante e não somente se relegaria a ser uma fábrica de sucessos efêmeros sintetizados em série.

Neste processo, A Head Full Of Dreams é o amanhecer ensolarado e colorido após a tormenta e uma continuação do álbum de 2011, mantendo uma evolução latente, em uma proposta mais alegre, afastando-se um pouco das melodias intimistas e chorosas, ou dos andamentos pouco inspirados, aos moldes “festa de formatura”  de X & Y (2005), ou Viva La Vida (2008).

Buscaram influências classudas e diversas dentro da música pop, injetando modernidade no mosaico musical explorado, alicerçado na fusão de nomes como Primal Scream (fase Screamadelica), Happy Mondays, New Order e The Cure.

Sem dúvidas, este é o trabalho mais versátil que o Coldplay já apresentou, carregado de melodias brilhantes e batidas dançantes, promovendo uma elegante festa pop, apesar dos pequenos resquícios de uma requentada receita enfadonha de alguns álbuns e da contínua mão podre para escolher alguns convidados especiais.

A faixa-título abre o álbum promovendo um caleidoscópio colorido de colagens de U2 e New Order, enquanto “Birds” transita pelas nunces musicais da cena de Manchester de mãos dadas com influências de The Cure.

Já “Hymn For The Weekend” traz Martin abusando nas linhas vocais  diferenciadas sobre um instrumental que flerta com o R&B, além de uma irrelevante participação de Beyoncé, que não agrega nada na canção.

O hit  do álbum, com direito a clipe interessantíssimo, é “Adventure of a Lifetime”, com uma linha de baixo grudenta e ritmo empolgante, se mostrando uma inteligente investida pop.

Esta inteligência pop ainda se faz presente em “Amazing Day” (que remete às baladas pop setentistas, apesar da modernidade impressa) e nas “vinhetas” “Color Spectrum” (com aromas “pinkfloydianos” injetado de cores) e “Kaleidoscope”.

Não podemos deixar de mencionar que “Up & Up”, mesmo sendo uma canção normal dentro da proposta, conta com a participação (essa sim, relevante) de Noel Gallagher e sua guitarra.

Dentre as participações especiais ainda temos Gwyneth Paltrow em “Everglow” (uma balada insossa, com vocal lamentoso, trazendo fantasmas choroso-depressivos do passado e com parcos detalhes interessantes nos arranjos), bem como os filhos de Martin com Paltrow em alguns backing vocals ao longo do álbum.

Além, é claro, da já citada e irrelevante para o álbum, Beyoncé, em duas faixas

Mas como nem tudo é perfeito,  além de “Everglow”, a dispensável “Fun” mostra que a banda ainda não se curou de certos cacoetes do passado e “Army of One”, apesar dos ótimos andamentos R&B em seu desfecho, traz a mesmice que o Coldplay remoeu por alguns anos.

Esta variação de facetas nas faixas mostra que Martin não mentiu quando disse que “queria casar todo o tipo de música que amamos, de Drake a Oasis”, mas, principalmente, mostra que eles estão dispostos a experimentar um pouco mais (visto que os quatro membros são creditados como compositores) e sair da sua zona de conforto.

Todavia, o líder do quarteto não descarta que este possa ser o derradeiro trabalho da banda, embora sua declaração possa  também ser interpretada como apenas o fim de um ciclo musical na história do Coldplay.

Por fim, se este realmente for o sopro final da discografia deles, A Head Full Of Dreams poderá ser ainda mais conclamado como um filho direto do clássico Avalon (1982), último ato da carreira da banda Roxy Music, cuja biografia apresentou uma das grandes mutações da música pop.

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