ATUALIZANDO A DISCOTECA: Zimun, “Sobre o Bom Senso e o Senso Comum” (2017)

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Zimun: “Sobre o Bom Senso e o Senso Comum” (2017, Lusitanian) NOTA:9,5

As expressões “senso comum” e “bom senso” são geralmente utilizadas para significar a sensatez ou a percepção da realidade que seja legítima, apoiada numa experiência coletiva e consensual. Mas existem discussões filosóficas sobre a sutil diferença entre seus significados, o que dá ainda mais profundidade ao conceito de “Sobre o Bom Senso e o Senso Comum”, segundo álbum do sexteto mineiro Zimun, que parece querer extrapolar o lugar comum do amálgama de hip hop e jazz, por melodias e texturas com forte apelo pop, imprimindo músicas por um mosaico de tonalidades diversas, onde seus elementos se sobrepõem com a fluidez de um caleidoscópio instrumental que abraça a acessibilidade musical.

Para dar corpo à proposta da banda montaram um time do mais alto gabarito nos bastidores. Para a produção chamaram Daniel Santiago (nome atrelado a artistas do porte de Milton Nascimento, Hamilton de Holanda e O Teatro Mágico), enquanto a mixagem ficou sob a responsabilidade do vencedor do Grammy  Latino de 2016 como Melhor Engenheiro de Som, Rodrigo Sanches (que já trabalhou com Gal Costa, Céu, Nação Zumbi), e a masterização foi feita no estúdio Sterling-Sounds, em Nova Iorque, por Randy Merrill, (Lady Gaga, Adele, Beck, Lorde e Grimes). A banda ainda foi acompanhada nas gravações do disco pelos músicos Juventino Dias (trompete), João Machala (trombone), Vinicíus Mendes (saxofone) e Robson Batata (percussão).

Ou seja, o resultado não poderia ser menos que prefeito no que tange ao suporte de estúdio, afinal temos um time de primeira grandeza convocado para ajudar a banda a costurar uma perspicaz, criativa, instigante e artística colcha de retalhos musical, que oscila entre o requinte e o “grudento”. E o próprio produtor define bem o que ouviremos neste “Sobre o Bom Senso e o Senso Comum”: “a banda flerta com as grandes referências da música pop mundial contemporânea mas sem perder a brasilidade.

“Sobre o Bom Senso e o Senso Comum” apresenta uma reinvenção da sonoridade dos mineiros do Zimun. Um álbum para mentes abertas, mostrando que criatividade musical nada mais é do que inteligência e liberdade instrumental numa mágica dança à dois!

De fato, o street jazz de outrora dá mais espaço aos flertes com a música pop contemporânea, dando forma ao álbum por arranjos vibrantes, energéticos, e inteligentes, doses homeopáticas de jazz, criando uma entropia dançante e altamente envolvente pela fricção e enlace de texturas congas, vibrafones e sopros, além da cozinha tradicional de guitarra, baixo e bateria, formando uma salada rítmica saborosa, que atinge seu auge no groove orgânico funk/jazz/pop de “Aprendiz”. Duvido que você resista ao poder desta canção!

E se “Na Memória” abre o trabalho sobrepondo com inteligência camadas de hip hop, pop e brasilidades (estrutura que reaparecerá na belíssima “Cidadão do Mundo”), em “A Máquina do Ontem”, na sequência, temos uma clara referência ao Daft Punk, com seu gigantismo pop de harmonias que invadem o cérebro também presente em “Sopapo” (com ritmos brasileiros truncados e reconstruídos pela estética eletrônica), e “Minha Vida É Essa” (um abrasileirado apelo jazz/funk para as novas audiências que se destaca no repertório).

Já “Trilha Sonora” traz mais detalhes instrumentais, mesmo que pareça um simples rap com forte sensibilidade para melodias, numa mistura de New Mastersounds, Thievery Corporation e Kris Bowers. Fórmula esta refeita na cadência reconfortante de “Sobre o Bom Senso” e seu chuviscado arranjo atonal sobre a batida sincopada que guiará até a faixa co-irmã “E Senso Comum”, instrumental texturizada e momento mais experimental do trabalho, junto ao jazz de “Songfordilla” e sua seção rítmica ácida.

Confira a faixa “A Máquina do Ontem”… 

Oriunda da capital mineira, o Zimun nasceu em 2009 alicerçado no street jazz, uma mistura intrincada e dançante de rap, jazz, rock, MPB e afrobeat, que rendeu um primeiro EP em 2012, intitulado “Surreal”, e o full lenght “Prafrente”, de 2014. Sua  formação atual é completada pelos MCs Matéria Prima e Castilho, Ravel Veiga (baixo), Gabriel Bruce (bateria), Edgard Dedig (guitarra) e Gabriel de Mattos (teclados). 

Por fim, mesmo com toda a interseção feita com o pop moderno, não espere por banalidades musicais, subterfúgio melódicos rasteiros, ou circunvoluções técnicas. A instrumentação é leve e límpida, ecoando arranjos pertinentes e precisos à proposta musical de alta classe melódica, com letras girando em torno de dilemas da condição humana e desafios cotidianos, explorando questões existenciais em suas entrelinhas.

Um álbum para mentes abertas, mostrando que criatividade musical nada mais é do que inteligência e liberdade musical numa mágica dança à dois!

Simplesmente genial!

Ouça na íntegra… 

Comentários

2 comentários Adicione o seu

  1. Helder disse:

    Cara, seu blog é muito bacana, um amigo meu me apresentou e estou completamente estonteado. Queria dar algumas recomendações mas acho que passaria vergonha perto do seu conhecimento musical kkkk

    1. Olá Helder, gostaria de saber quem indicou o site. E por favor, mande algumas recomendações, sempre tem algo novo e interessante que não conhecemos! 🙂

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