GRAPHIC NOVEL: “Wytches”, de Scott Snyder

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“Se você ler as quatro primeiras páginas de “Wytches”, não tem mais volta”

Joe Hill

 

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“Wytches” (2017, Darkside Books), por Scott Snyder (roteiro), Jock (arte), Matt Hollingsworth (cores), Clem Robins (letras), Érico Assis (tradutor) NOTA:9,0

Em seu “Dança Macabra” (1981), um ensaio sobre o fenômeno do gênero terror na cultura pop, Stephen King, nas páginas iniciais, pergunta: “O horror é arte?” Bom… Ouso dizer que a medir por esta graphic novel com roteiro de Scott Snyder e arte de Jock, a resposta é um indubitável e retumbante sim!

Scott Snyder não é um novato no gênero se você pensar na série “Vampiro Americano”, um clássico recente do selo Vertigo e sua primeira série autoral, como terror. Além disso, ele já escreveu para a Marvel e para a DC, onde trabalhou como roteirista para os quadrinhos de Batman, Monstro do Pântano, Superman e Homem de Ferro.

“Wytches” é uma graphic novel que retoma a veia terror de Snyder numa forma mais clássica, mesmo que esteja amparada por uma dinâmica moderna, e um clima extremamente pessoal e lúdico em certos momentos. Esta sensação é inevitável pela forma particular com que ele apresenta sua versão de um personagem largamente utilizado nas histórias infantis: a bruxa!

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Esqueça as bruxas clássicas dos contos de fadas. As bruxas de Snyder são mais cruéis, antigas, perversas e diabólicas, são algo sinistro e poderoso que vive nas florestas…

Mas esqueça as bruxas clássicas dos contos de fadas (mesmo que pra mim “Jõao e Maria” seja uma das mais assustadoras histórias de horror vestida de conto de fada), com suas casas de doces e maçãs envenenadas, ou as escolas para bruxas e feiticeiros. Até mesmo as que se reuniam para rituais pagãos em florestas em plena walpurgisnacht.

Na verdade esqueça tudo o que você já ouviu falar sobre bruxas, pois nada se encaixa na versão de Snyder, que parece generalizar os clichês do tema como se suas bruxas fossem as originais, e o folclore apenas inspirado nelas.

Estas seriam as bruxas de verdade, que existem e estão por aí, mais cruéis, antigas, perversas e diabólicas, algo sinistro que vive nas florestas. Como bem define um importante personagem: “Elas não são gente. Não é mulher com pele verde, nem que adora o diabo. Nada disso.”

Na trama, “a família Rook se muda para Litchfield, uma remota cidadezinha de New Hampshire, tentando escapar de uma experiência horrível ao recomeçar do zero. Mas algo sinistro vive nas florestas ao redor da cidade. Algo que os observa, esperando apenas por uma oportunidade. Algo muito antigo… e voraz”.

E a capa desta graphic novel já chama a atenção pelo contexto moderno e clima de cartaz de cinema, não deixando margem para dúvidas sobre o gênero que se enquadra. Concordo que a sinopse apresentada no parágrafo anterior, e até mesmo na contra-capa da HQ, trazem alguns elementos que soam clichês ao terror: 1) uma família traumatizada que se muda para uma cidade remota; 2) uma floresta escura que esconde um mal secular; e 3) bruxas.

Se você der uma boa olhada na primeira página de “Wytches”, com seus traços agressivos e cores instigantes em quatro quadros acachapantes, será fisgado como que por um feitiço…

Não que isso seja exclusividade de “Wytches”,  afinal, o terror é um gênero muito explorado, para o bem e para o mal (sem trocadilhos), sendo difícil, senão impossível, renovar os elementos básicos do gênero. Por isso, a diferença entre uma trama mediana e uma que se destaque está na forma com que amarra suas pontas e no desfecho! Se o desfecho te tirar o fôlego, então temos uma ótima história de terror. E este é exatamente o caso nesta história.

Voltando à sinopse, mesmo que ela te tire um pouco do entusiamo causado pela capa, acredite no Mestre do Terror, Stephen King, quando ele a qualifica como “um triunfo”“fabulosa”.

E se você der uma boa olhada na primeira página, com seus traços agressivos e cores instigantes em quatro quadros acachapantes, será fisgado como que por um feitiço, entoado por Joe Hill (escritor e filho de Stephen King) na contracapa utilizando as marcantes quatro primeiras páginas numa previsão infalível que abre nosso texto.

E aqui entra o poder do grupo formado por Snyder, o artista Jock (que também trabalhou em Batman, Star Wars — Os Últimos Jedi e no filme ganhador do Oscar Ex_Machina: Instinto Artificial), e pelas cores de Hollingsworth. Após o impacto inicial das quatro páginas, diminuem a agressividade dos traços e mudam a paleta de cores, usando variações técnicas de traço, cor e sombra para manipular o clima e as sensações do leitor, funcionando como a trilha sonora de um filme.

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Numa arte que embeleza e amedronta, simultaneamente, pai e filha vão descobrir que recomeçar pode ser bem mais difícil do que aparenta…

Imprimem tensão, agressividade, humor e leveza de modo fluido enquanto as tonalidades variam em temperatura e os traços em vibrações. Além disso, a perene mancha vitral amplia o tom lúdico e fantástico da narrativa, e os movimentos são muito bem dinamizados pela divisão das páginas, enquanto a linha temporal se desenrola entremeada por flashbacks que geram mudanças bruscas na trama, numa montanha-russa de terror psicológico.

Esta dinâmica artística, amedrontando e embelezando ao mesmo tempo, dá fôlego a um roteiro que não enrola ou fornece ação em doses homeopáticas, se situando no ponto médio entre a pressão psicológica de enfrentar o mal secular de Lovecraft e a explicites brutal de Clive Barker, texturizado por diálogos simples e transições incisivas, criando oscilações de tensão que evoluem para um momento climático ao fim de cada capítulo.

Olhando friamente, “Wytches” extrai o conteúdo latente das obras tradicionais do terror, por uma arte de impacto, usando-as como ponto de partida para dar novo fôlego ao gênero ao pincelar certas modernidades, forjando um apelo arrepiante às novas gerações, com forte consciência de onde se quer chegar.

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Olhando friamente, “Wytches” extrai o conteúdo latente das obras tradicionais do terror, por uma arte que imprimem tensão, agressividade, humor e leveza de modo fluido enquanto as tonalidades variam em temperatura e os traços em vibrações.

E a Darkside Books trouxe o capricho e o esmero de seus livros para o mundo dos quadrinhos, numa edição luxuosíssima, em capa dura, e papel de alta qualidade, além dos cinco textos que acompanham as edições originais e exemplos das técnicas de arte usadas na concepção de “Wytches”.

As bruxas de Snyder, também se escondem em florestas, e comem criancinhas, mas cuidado, pois ele extrapola a mitologia das bruxas em algo muito mais profundo e amedrontador, e ver uma é coisa rara; sobreviver a elas é mais raro ainda.

A obra já foi vendida para uma adaptação cinematográfica e aos meus olhos se mostra aberta a novos capítulo, com potencial para fazer com a mitologia das bruxas o mesmo que a espetacular saga “30 Dias de Noite”, fez pelo resgate sanguinário do mito vampírico!

E aí, quem você juraria?

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“Jura é jura”. A última das primeiras quatro páginas…

Comentários

2 comentários Adicione o seu

  1. Mayckel Vasconcellos disse:

    Esse merece uma conferida. Ótima resenha.

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