THELEMA: A Filosofia Ocultista do Novo Aeon


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Sem dúvidas, Aleister Crowley (a quem dedicamos este longo texto)foi um dos responsáveis por modernizar o ocultismo e o sua maior contribuição advém do nascimento d’ “O Livro da Lei”, obra que anunciava o Novo Aeon, e instituiria a base de todo conhecimento oculto que o tornou famoso, a “Lei da Thelema”, sendo de suas páginas de onde nascem axiomas como

1) “Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei”;

2) “Amor é a Lei, amor sob Vontade”; e

3) Todo homem e toda mulher é uma estrela”.

Estes ficariam conhecidos como as três leis da Thelema, diretamente ligados aos três graus que se referem: o eremita, o amante, e o homem da Terra. Para Crowley, a Lei da Thelema seria a única forma de preservar liberdade individual e assegurar o futuro da raça humana.

Aleister Crowley thelema
Aleister Crowley, sua esposa Rose Kelly e a filha do casal

 

O CONTATO COM OS DEUSES

A Lei da Thelema é instituída por Aleister Crowley em seu Livro da Lei (sobre o qual falamos do conteúdo neste texto), que foi escrito seguindo um processo de canalização.

Em março de 1904, durante sua lua de mel no Cairo, Crowley se dedicou ao Ritual do Não-Nascido junto a sua esposa, Rose Kelly, pela segunda vez (a primeira havia sido realizada em novembro de 1903), com o intuito de fazê-la enxergar os elementais (ou seres imortais sem alma) do fogo.

Durante o processo, Rose, que estava grávida da primeira filha do casal, começou a dizer coisas estranhas e sem sentido, sobre a criança e Osíris, além de afirmar se sentir inspirada.

Para uma mulher sem o conhecimento da cultura e mitologia egípcia, suas frases eram bem embasadas e o ser que falava por ela identificou-se como se Hórus, filho de Osíris. Alegação que Crowley teria confirmado e posteriormente realizado o ritual de invocação de Hórus.

Nesse momento tinha início sua jornada como anunciador da Nova Era, ou seja, Aleister Crowley teria a ligação direta com os deuses ativada. Oficialmente, aqui ele rompia sua relação com o mestre da Golden Dawn, Samuel Mathers.

Sua esposa seira então seu canal com Hórus, identificando-se como a forma de Ra-Hoor-Khuit, pintada em um epitáfio de madeira da 26ª dinastia, catalogada sobre o nº 666. A tradução do hieroglifo presente no epitáfio inspiraria parte do “Livro da Lei”.

O nome da entidade que falava através de Rose era Aiwass, que lhe ditaria “O Livro da Lei” em dias, um capítulo por dia, num processo de canalização direto, sem o intermédio de Rose.

A impressão que Crowley teria de Aiwass iria variar ao longo do tempo, mas no “O Livro da Lei” ele é descrito como o “ministro de Hoor-Paar-Kraat”, um deus dos antigos egípcios, uma forma do deus Horus representado como uma criança inocente.

 

“LIBER AL”, A BÍBLIA THELEMICA

O Livro da Lei Crowley Liber Al vel Legis
Aleister Crowley: “O Livro da Lei”

Dividido em três capítulos, cada um transmitindo a mensagem de dos deuses da trindade sagrada da Thelema (Nuit, Hadil e Ra-Hoor-Khuit), “O Livro da Lei” é um manuscrito de apenas 21 páginas em sua forma original, recheado de códigos cabalísticos, referências bíblicas e mitológicas, além de uma gramática caótica, ditado pela entidade Aiwass num processo de canalização.

Na deidade tripartida thelemica, Nuit é o refúgio da humanidade, Hadit a luz, e Ra-Hoor-Khuit a potência, força e vigor de nossas armas.

Hadit é uma deidade que não existe na mitologia egípcia, sendo um dos deuses, junto a Babalon (a Prostituta Sagrada, a Mulher Escarlate, e a Mãe das Abominações), típicos da Thelema. Hadit tem a forma de um sol alado; a forma solar de Hórus.

Sobre esse fato de não existir na mitologia egípcia, o próprio Hadit se manifesta em sua mensagem: “Na esfera Eu sou em toda a parte o centro, tal qual Ela (Nuit), a circunferência, em parte alguma é encontrada. No entanto ela será conhecida & Eu nunca”. É ele quem declara a Nova Era, o Novo Aeon e reforça o desprezo ao fraco: “Essa é a Lei do forte!”

Este é outro claro ponto de bifurcação com o cristianismo, assim como quando proclama que “compaixão é o vício dos reis”.  Todavia, nestas páginas, grosso modo, podemos resumir a mensagem principal como “Não existe lei além do faze o que tu queres. Amor é a Lei, Amor sob Vontade”.

Faz parte do dogma thelemico que o “Livro da Lei” não pode ser discutido e que seja queimado depois de lido.

Este livro é apenas o início da vasta obra que Crowley deixou, onde tentava desenvolver e entrar em contato com a energia interior, e usa produtivamente para modificar por completo sua vida. Aleister Crowley procurou essa energia durante muito tempo através de ritos sexuais.

Foram escritos treze livros sagrados, recebidos de forma parcialmente inconsciente por Crowley, num processo descrito por ele como “inspiração perfeita”.

Com a Nova Era teríamos um período regido por Hórus, onde as leis sociais seriam rompidas para que todos vivessem em plenitude. Se de fato for verdade, “O Livro da Lei” é o primeiro comunicado de Crowley como profeta do Novo Aeon, uma Nova Era, como tantas descritas nas mais diversas culturas, como a Era do Fogo, a Era Pagã, a Era Cristã (baseada em Osíris e Jesus).

Com a chegada da Nova Era, as leis sociais seriam rompidas para que todo vivessem em plenitude. “O Livro da Lei” profere um simples código de conduta pelas três leis da Thelema para a Era de Aquário, Nova Era, Neopaganismo, ou a era de Hórus para os thelemitas, de profundas e drásticas mudanças no inconsciente coletivo da humanidade.

Aiwass thelema aleister Crowley
Aiwass. Essa seria a misteriosa figura que ditou o “Liber Al” a Crowley. Já foi associado a um alienígena de SÍRIUS e a um ser de AGARTHA, a cidade no centro oco da Terra.

 

A FILOSOFIA THELEMICA

Em contraponto às expiações cristãs, a Thelema traz uma filosofia quase hedonista o que a faz ser tão comumente associada com uma forma de satanismo.

Todavia, a ideia central e que a pessoa por estar cumprindo a função para a qual foi designada, acaba promovendo o equilíbrio em seu ambiente (pense no livro “O Alquimista”, de Paulo Coelho, como uma parábola desta ideia).

Aliado a isso, a Thelema ainda se mostra indiferente àqueles que perdem sua alegria essencial e entregam ao sofrimento, tendo também uma forte contextualização sensual e sexual.

De acordo com a moral thelemica, o sexo pode ser praticado em todo lugar, à vista de qualquer um, assim como o ato de comer ou dormir. Obviamente, este foi um fator influenciador nas comunidades alternativas dos anos 1960.

Mas ao contrário do que parece, não se trata de puro anarquismo ou satanismo. Existem interpretações a serem feitas. O “sacrifício de crianças” de seus textos, por exemplo, aludem à oferta de esperta num ritual.

O texto do “Libel AL” diz mais sobre a vontade interior ligada à Verdadeira Vontade, como o Tao e o Dharma, do que ao anarquismo inconsequente do satanismo. É preciso, por um trabalho árduo, descobrir sua própria e verdadeira vontade e segui-la, e não estamos falando de caprichos.

A falta de compaixão e a violência do livro deve ser contextualizada e entendida à luz filosófica, assim como fazemos com qualquer texto sagrado (o que o “O Livro da Lei” é para os thelemitas.). Depende de fé, ressonância e empatia. O Antigo Testamento também possui passagens chocantes e contraditórias, e até os ensinamentos de Jesus carecem de interpretação.

A associação ao satanismo não é estranha, mas no meio ocultista, esse termo define basicamente o sistema criado por Anton LaVey, que escreveu sua Bíblia Satânica inspirado em textos de Crowley. (mais sobre LaVey e a Bíblia Satânica, neste texto)

Todavia, mesmo que de modo geral a Thelema e o Satanismo preguem a liberdade e o culto ao ser humano, ambos se diferem na forma: o satanista, grosso modo, adora a figura ocidental do Diabo, enquanto os thelemitas pregam que “não há deus senão o homem”. 

Os livros sagrados da Thelema e o Livro da Lei formara o cânone da Astrum Argentum, ou Estrela de Prata, a primeira ordem iniciática a estudar a Lei da Thelema. Comumente referenciada como  A.·. A.·., a ordem se assemelhava mais a uma rede do que a um templo. Após a morte de Aleister Crowley a ordem se fragmentou e muito de sua filosofia se dispersou. Para conferir mais detalhes sobre a Ordem da Estrela de Prata, acesse este texto

Dentre os livros essenciais para o entendimento da Thelema, o próprio Crowley  diria que “The Vision and The Voice” era o mais importante livro após “Liber AL”. Ali ele e seu pupilo, Victor Neuberg,  visitam o trabalho de John Dee e Edward Kelly, numa abordagem complexa e reestruturada da magia enoquiana. (mais sobre John Dee e seu trabalho neste texto)

Outro livro importante para a ordem thelemica é  “Aba, Livro 4”, publicado em 1913, e o primeiro trabalho de Crowley em que ele utiliza o vocábulo magick.

 

O QUE É MAGICK?

magick é a arte  e a ciência da mudança em conformidade com a Vontade.

“k” foi adicionado por Aleister Crowley à palavra magic não só para diferenciar o que ele estava fazendo dos truques empregados por feiticeiros, mas também por ligações com o ocultismo.

As seis letras da palavra magick apresentam um equilíbrio em relação à palavra magic , equilibrando o hexagrama e o pentagrama. (confira nosso texto especial sobre o simbolismo do pentagrama neste texto)

 

A O.T.O. E A ABADIA DA THELEMA

Crowley conseguiu inserir os ensinamentos thelemicos na O.T.O., ou Ordo Templi Orientis, da qual foi iniciado pelo fundador Theodor Reuss já com o nono grau após publicar “O Livro das Mentiras”, em 1912.

Na O.T.O., Crowley comandou o ramo para países do Reino Unido no princípio, onde pode remodelar os ritos da ordem pela ótica thelemica, reformulando o tratamento tântrico, mas não sem causar alarde e problemas entre os iniciados.

Todavia, em 1923, após a morte de Reuss, Crowley assumiria o controle mundial da O.T.O.

Antes disso, em 1920, ele fundaria, em Cefalú, na Sicília, a Abadia da Thelema, uma espécie de centro de estudo da Thelema, frequentada por nomes fortes como o matemático e escritor norte-americano Cecil Frederick Russell – fundador da Ordem Iniciática Gnostic Body Of God – e a atriz Jane Wolfe.

O propósito de Aleister Crowley e Leah Hirsig, sua Mulher Escarlate à época, era fundar uma comunidade alternativa inspirada pela sátira de Rabelais, “Gargantua and Pantagruel”, onde descrevia-se um monastério utópico onde os monges viviam de acordo com suas próprias vontades, e total liberdade. Esta anti-Abadia foi batizada de Abadia da Thelema, ou seja Abadia da Vontade.

Crowley não só se inspirou como também manteve o nome dado por Rabelais ao mosteiro alternativo que queria criar, estendendo-o a um “Collegium ad Spiritum Sanctum” (O Colégio do Espírito Santo), afinal seria ali onde também implementaria uma escola mágica afinada aos ensinamentos da Ordem da Estrela de Prata, ou simplesmente A.’.A.’.,.

À partir dali, Aleister Crowley pretendia criar um centro mundial do anúncio do Novo Aeon, uma meca das artes mágicas, todavia, ele só colecionou boatos de orgias sexuais, sacrifícios de crianças e de animais, e abuso de drogas.

Pouco tempo depois de sua fundação, em 1922, a Abadia da Thelema receberia aquele que Crowley considerava seu mais promissor discípulo, Frederick Charles Loveday, vulgo Raoul Loveday.

Mas à tira-colo Loveday trazia sua esposa, Betty Mae, que teria atirado em Crowley numa turbulenta noite na Abadia, enquanto seu marido sofria de um infecção que lhe seria fatal.

Betty Mae iria denegrir Crowley durante muito tempo após a morte de seu marido, em 14 de fevereiro de 1923, por infecção intestinal aguda.

Claro que os periódicos ingleses não deixariam seu alvo favorito passar incólume a este escândalo. O sensacionalista e velho perseguidor da Besta, o periódico The Bull, acusava-o, além de drogado e de executar práticas obscuras como os outros semanários faziam,  de canibalismo e assassinato, sem contar os tradicional rótulo de “adorador do Diabo”.

Para adicionar ainda mais problemas em sua vida naquele momento, recebeu uma carta em Cefalú que o expulsava da Itália, o que o fez se dirigir à Tunísia, ainda em 1923, onde terminaria de ditar suas memórias à sua Mulher Escarlate.

 

O NÚMERO 93

“Faze o que tu queres há de ser o Todo da Lei”.

“Amor é a Lei, Amor Sob Vontade”.

Estas são as duas leis principais da filosofia da Thelema, regidas pela Vontade e pelo Amor. Usando a Isopsefia, uma técnica grega que aplica valor numérico a cada letra, thelema (vontade) e agape (amor) somam 93.

O número acabou se tornando quase que uma saudação entre os adeptos da Thelema, também abrindo e fechando suas correspondências, consequência de uma diretriz  de Aleister Crowley para que cumprimentassem uns aos outros com a Lei da Thelema. Ainda é possível encontrar a derivação “93 93/93”, que significa “Amor é a Lei, Amor Sob Vontade”.

 

EM SUMA

Aleister Crowley desenvolveu com a Thelema sua ideia de que a magia é “a ciência de provocar mudança de acordo com a sua vontade”.

O sistema desenvolvido por Crowley consitia em conjurar a energia da fonte superior da qual acreditava, dando grande valor à magia cerimonial, que segundo seus ensinamentos era um estudo sério do oculto e não entretenimento teatral.

Mesmo que deturpado em algumas de suas ações, não há como negar que Crowley e a sua Thelema são dois dos pilares do ocultismo moderno, sendo que sua mensagem muitas vezes ia de encontro às suas ações.

Até por isso, com o intuito de tirar o rótulo de satanismo daquilo que Crowley pregava em sua filosofia thelemica, uso uma frase retirada do livro “O Caibalion”, a luz do hermetismo na modernidade, e que faz coro com as palavras de Paulo em Tito 1:15: “Para aquele que é puro, todas as coisas são puras. Para os vis, todas as coisas são vis e baixas”. 

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