THE HANDMAID'S TALE: Livro e Série.

Assinar blog por e-mail

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Por Laira Arvelos

Magaret Atwood - O COnto da Aia
Margaret Atwood: “O conto da aia” (1985 – Título Original: The Handmaid’s tale)

“Melhor nunca significa melhor para todo mundo, (…). Sempre significa pior, para alguns.“

Estou aqui há alguns dias tentando escrever sobre esta obra, e parece que as palavras não saem, o que existe é um imenso vazio, uma aflição e reflexão que vem me acompanhando ao compara-la a algumas notícias, uma vontade de que muitos possam ler o que li, ver o que vi, para que de alguma forma esta mensagem nunca morra: “escrever é deixar uma marca, é impor ao papel em branco um sinal permanente, é capturar um instante em forma de palavra.” Ainda estou sob o impacto desta história.

“O Conto da Aia” é uma obra prima da literatura de ficção científica, romance distópico (prefiro a definição conto de terror) de 1985 da autora canadense Margaret Atwood. A obra ganhou o Prêmio Arthur C. Clarke, em 1987, e também foi nomeado para o Prêmio Nebula, de 1986, o Prêmio Booker, de 1986 e o Prêmio Prometheus, de 1987.

Margaret Elanor Atwood, é uma escritora canadense: romancista, poetisa, ensaísta e contista que nasceu na cidade de Ottawa, em 1939. Graduou-se em Artes na Universidade de Toronto e foi professora de Literatura Inglesa em várias universidades canadenses. Foi laureada com inúmeros prêmios, entre eles o Príncipe de Astúrias, de 2008, pelo conjunto de sua obra. Sua obra é conhecida por mesclar uma fina veia irônica com uma aguçada perspicácia para questões contemporâneas.

A história narra a vida na “República de Gilead”, após sofrer uma revolução teocrática, o país passa a ser regido por cristãos radicais que fazem da interpretação do Velho Testamento bíblico a nova ordem.

Nesta organização as mulheres ocupam a posição mais baixa da sociedade, já não possuem nomes, direitos, já não podem se expressar ou ser alfabetizadas. São divididas em classes com funções bem definidas: as Tias, senhoras que educam as mulheres para a servidão e submissão, as Marthas, responsáveis pelos serviços domésticos; as Esposas, administradoras do lar; e as as Aias, com função de reproduzir; estas últimas que nos contaram toda a história.

Na “República de Gilead”, as mulheres ocupam a posição mais baixa da sociedade, já não possuem nomes, direitos, já não podem se expressar ou ser alfabetizadas. São divididas em classes com funções bem definidas. Às Aias cabe a função de reproduzir…

Narrada em primeira pessoa, Offred (em inglês “do Fred”) é uma Aia que nos ambienta na rotina da casa de seu comandante, a sua função é dar filhos a ele. Nos mostra também como era sua história com sua filha e marido através de alguns flashbacks, seus relatos vão construindo o enredo que é detalhadamente escrito pela autora. O relato de Offred nos mostra superficialmente, que alguma radiação trouxe a infertilidade, sendo esse o motivo para mulheres com capacidade de gerar a vida, serem recrutadas para o posto de aias.

O brilhantismo de Margaret em retratar com minúcia os cenários, as vestimentas e situações com um pano de fundo com fundamentação histórica, é o que mais amedronta, porque mostra uma história contrassensa, mas absurdamente tangível: a gravidez forçada, o modo de vestir, o regime totalitário, a culpabilização da mulher pelo estupro, as perseguições políticas e assassinatos de opositores de governos, isso são coisas que ouvimos diariamente. A barbárie retratada, (quase sempre relacionada as mulheres) estampa os noticiários; acontece nas vielas das cidades, perto de nós e em outros países.

Quando nos mostra um governo radical, Atwood nos leva a sentir o sofrimento da dominação e o sacrifício da liberdade e quão frágil são nossas posições diante de algo maior do que estamos acostumados, até onde vai nossa obsessão em deixar algo para além da morte?

O que incomoda profundamente é a sensação de que a vida tornou-se estática, uma insuportável realidade onde o radicalismo imposto é aceito, a angústia aparece quando Offred fala de suas memórias, e tenta fortalecer-se e manter a sanidade sonhando como tudo poderia ser diferente, mas não é: “eu gostaria que esta história fosse diferente. Gostaria que fosse mais civilizada. ”

O estilo de escrita de Margaret é primoroso, uma escrita extremamente detalhista que pode agradar a quem assim como eu se apaixona fácil por quem consegue descrever mínimos detalhes de um ambiente ou objeto fazendo o tão palpável como se estivesse à sua frente, no desenrolar da história, ora ou outra sentimos um pequeno feixe de luz, de esperança que na sequência é ofuscado por outro fato que destrói toda perspectiva de mudança.

A última frase do livro poderia ser um suspiro em meio ao caos desta história sufocante, porém o epílogo do livro vem como uma avalanche para esmorecer toda sua fé, sutilmente toda dor e sofrimento acometido as aias são questionados. Um epílogo cruel.

Em 2017 o livro foi adaptado na série “The Handmaid’s Tale”… 

O livro foi adaptado para um filme feito em 1990, em português “A decadência de uma espécie”, baseado no roteiro de Harold Pinter, com direção de Volker Schlöndorff, para uma ópera, escrita por Poul Ruders que estreou em 2000 na Dinamarca. Em 2003 a mesma ópera foi apresentada pela English National Opera, em Londres, e entre 2004 e 2005 ficou em cartaz no Canadá, pela Canadian Opera Company. (1990). E para série em 2017.

A belíssima série The Handmaid’s Tale (2017) é uma obra de televisão estadunidense criada por Bruce Miller. Encomendada pelo serviço de streaming Hulu. Com consultoria de Margaret Atwood na produção, recebeu aclamação da crítica e venceu os prêmios de Programa do Ano e Série Dramática no Television Critics Association e vários Prêmios Emmy do Primetime, incluindo melhor atriz e melhor Série Dramática, em 2017.

A série consegue demonstrar bem esse novo ambiente de governo como é escrito, e consegue transformar todos as subjetividades e devaneios da narradora em ações, o que nos deixa de certa forma mais confortáveis pela sensação de desenrolar da história e ação da personagem, no livro toda a dor e monotonia da vida de Offred acompanha o desdobrar dos acontecimentos o que reforça a vida sufocante da personagem.

A série mantém muito da obra original, mas adapta também, Serena Joy a mulher do comandante é vista de uma forma mais bonita e humana por exemplo, Ofreed consegue se impor mais, é como se o que parte do que ela queria ser no livro se tornasse realidade na série.

No livro ficamos com a impressão de não haver saídas, mas também de não haver tentativas, as sutilidades e o brilhantismo da atuação de Elisabeth Moss (Ofrred) nos mostram uma mulher mais firme, o que não muda a história, e sim nos das perspectivas diferentes das personagens.

A principal diferença entre as obras está no fato de que muito do que é subentendido e subjetivo se materializar na obra da TV, o que nos faz rapidamente identificar com as personagens, ser tomadas de asco pelas cenas e ficar inerte diante deste quadro estarrecedor. Quanta tristeza. Quanta agonia.

O seriado tem grandes pontos positivos a seu favor, uma estética impecável, onde as memórias da personagem são belas, com muitas cores e luz, a presença frequente do tom verde apagado que reforça a questão da perspectiva de tristeza, o contraste da cor vermelha no verde e no branco, as cenas que mostram os ais juntas são fantásticas e mais ainda quando o foco é fechado e podemos ter a sensação de como elas veem o mundo ao redor, porque nem para ver por todos os ângulos há liberdade.

A atuação de Elizabeth Moss a sua entrega a personagem, a usa capacidade de nos mostrar que aquilo está acontecendo a uma pessoa comum, eu ou você poderíamos estar ali, suas expressões, sua força, Alexis Bladel (Oflgen) que mostra que não são necessárias palavras para se emocionar, Madeline Brewer (Janine) que me fez ficar com raiva, com pena, me fez chorar e até mesmo Ann Dowd (Tia Lydia) e Yvonne Strahovski (Serena joy) que nos confundem o tempo todo sofre os sentimentos que temos por elas.

A série já tem data para estrear a segunda temporada. Confira o trailer…

A trilha sonora atual é algo que nos surpreende, em um mundo onde as mídias foram apagadas, quando ela aparece nos mostra “Ei isto está acontecendo agora”! Os elementos da série vão te transportando ora para a sensação de passado, ora presente, ora futuro, o que só aumenta nossa perplexidade e estranheza. As expectativas são grandes para a segunda temporada que tem teaser e estreia marcada para abril de 2018.

Assim como o livro a série não poupa o espectador das cenas fortes e nauseantes, é aquele tipo de coisa que você assiste não sabe se chora, se grita, se vomita, se corre, se quebra algo; Ânsia. Desconforto.

Acredito não ser necessário descrever algumas cenas da história, que me trouxeram perplexidade, para não estragar a experiência de quem for ler ou assistir, porém, dentre as diversas agonias sentidas, (e são muitas), o fato das Aias serem privadas de ler e escrever, é um fato martirizante em si, que carrega um grande sentido, como ouvi certa vez “ler devia ser proibido. Pois torna as pessoas perigosamente humanas e lúcidas”, e assim como disse Clarice; ‘a lucidez é perigosa’.

June (Não Offred) divide conosco seus pensamentos, ela é uma sobrevivente, é ela quem nos ajuda a acreditar em um futuro, na família, nas possibilidades, é ela que nos faz pensar em amor…

Em um mundo onde vamos perdendo nossos direitos diariamente, onde pessoas ‘bem-intencionadas’ estão no poder, em um mundo onde leis são feitas em relação as mulheres ‘para o próprio bem’ sem que elas sejam consultadas, onde a religião serve como desculpa, em tempos de extremismo, esta é uma história obrigatória, para ser assimilada em toda sua essência, pra ser refletida nos tirando desta zona confortável, para que esta ficção não se torne mais e mais uma terrível realidade.

“Gostaria de ser ignorante. Então eu não saberia o quanto era ignorante.”

“O que você não souber, não lhe trará sofrimento.“

Sofro.

Comentários

Deixe uma resposta