Terremoto de Lisboa, 1755: A Tragédia Que Abalou a Fé dos Europeus!

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Diz a tradição ocidental que após o dilúvio Deus teria dito a Noé que  “não será mais destruída toda carne pelas águas do dilúvio e que não haverá mais dilúvio para destruir a terra”! Tanto que quando lançou sua ira sobre Sodoma e Gomorra usou o fogo.

Uma tradição fortemente impressa no onisciente coletivo do povo português, de fortes raízes católicas, e  que deve ter falado alto nos sobreviventes do grande Terremoto de Lisboa, em 1755.

Certamente, o trágico evento deve tê-los feito questionar qual pecado cometeram para ver sua cidade e seu povo ser devorado por fogo e água, quase que simultaneamente.

A catástrofe natural que atingiu a capital portuguesa foi uma das mais impactantes da história, mostrando o quanto somos pequenos e impotentes frente ao poder da natureza.

Catástrofes como a de Lisboa ocorrem pois o planeta também é um ser vivo, e suas mutações provocam movimentos e choques de placas tectônicas. Daí surgem terremotos, tsunamis e vulcões.

Muito além disso, as maiores catástrofes da história mudaram o curso da sociedade humana, provocando mortes, inspirando revoluções, abalando crenças e derrubando governos.

O que também ocorreu naquele fatídico 1º de novembro de 1755, dia de Todos os Santos. A capital de Portugal, Lisboa, literalmente estava iluminada pelas chamas das velas acesas nas casas e igrejas em honra a todos os santos e mártires. Um país católico que celebrava mais uma data religiosa.

Terremoto de Lisboa
“Alegoria ao Terramoto de 1755”, por João Glama Strobërle.

À época, Lisboa tinha cerca de duzentos e setenta e cinco mil habitantes que sentiram o chão movimentar sob seus pés com violência às 09h30 da manhã. O Terremoto de Lisboa se iniciava tão intenso que relatos contam de fissuras se abrindo no chão e prédios caindo.

O terremoto atingiu não só a capital portuguesa. Norte da África, França, Espanha e Inglaterra também sentiram os três tremores violentos que arrasaram Lisboa.

Segundo os geólogos, o material do solo presente em bacias sedimentares como aquela onde está localizada Lisboa faz com que a turbulência ali seja mais intensa. Estima-se que o Terremoto de Lisboa atingiu 8,7 graus da escala Richter e durou cerca de dez minutos.

Os escombros, que acumulavam madeira e materiais de fácil combustão, rapidamente se tornaram um incêndio quase generalizado em decorrência das velas acesas.

O mais natural numa cidade portuária em chamas seria a população fugir para o porto. O que de fato ocorreu, mas meia hora após os três tremores de terra, eles encarariam um tsunami com ondas de até vinte metros de altura que lavou a cidade!

Igrejas, palácios, animais, casas e cerca de cem mil pessoas são levados pela catástrofe. O Rei D. José I e sua corte se salvaram, pois estavam fora da cidade no momento da tragédia.

Numa sociedade majoritariamente influenciada por dogmas religiosos, o segundo terremoto em cerca de dois séculos (houve um outro em 1531) foi visto como um castigo de Deus, usando a água do dilúvio e o fogo de Sodoma e Gomorra, como manifestação da ira divina.

Terremoto de Lisboa
Ruínas do Convento do Carmo, Lisboa.

Mais do que isso, a magnitude do terremoto e sua proporcional destruição levou escritores e filósofos ao longo da Europa a refletirem sobre os desígnios de Deus, sua bondade e até mesmo sua existência.

Voltaire (sobre quem falamos neste texto especial)  chegou a incluir o fatídico evento em seu romance satírico “Cândido”, lançado em 1758, discutindo seu significado, principalmente quando reflete dizendo que

“Ou Deus quis impedir o mal e não pode, ou pode e não quis. Ou mesmo nem quis e nem pode. Se quis e não pode, não é Deus; se pode e não quis, não é bom. Se quer e pode, qual a origem de todos os males?”

É importante citar esse momento, pois podemos dizer que o Terremoto de Lisboa, ao mesmo tempo que destruiu a antiga Lisboa, solidificou, junto a uma cadeia de eventos, na mente de alguns filósofos o racionalismo que serviria de alicerce para o Iluminismo.

Voltando ao romance de Voltaire, sua sátira trazia à luz um pensamento de que, após o Terremoto de Lisboa, somente alguém tão ingênuo quanto Cândido ainda aceitaria a crença de que a bondade e a misericórdia de Deus regia o mundo.

Essa “libertação” de pensamento não daria força somente ao Iluminismo, mas também à Revolução Industrial, relações trabalhistas e o capitalismo. Mas isso é assunto para outro momento!

Artistas plásticos retrataram diversas vezes o martírio daquele dia, e recentemente a banda portuguesa Moonspell, maior de seu país no gênero heavy metal, usou o Terremoto de Lisboa como tema de seu belíssimo disco “1755”, lançado em  2017, e sobre o qual escrevemos uma resenha completa que pode ser lida neste texto.

Na liderança da reconstrução da cidade, após o terremoto, estava o primeiro-ministro, marquês de Pombal, que tinha poderes absolutos para erguer a nova Lisboa. Moderna e planejada, de avenidas largas e bem diferente da que fora levada pelo fogo e pelo mar.

Terremoto de Lisboa
“Marquês de Pombal” e a cidade de Lisboa, de Louis-Michel van Loo (1707-1771) e Claude-Joseph Vernet (1714-1789), Museu da Cidade, Lisboa

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