CLÁSSICO LITERÁRIO: H. P. Lovecraft, O Chamado de Cthulhu

(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({ google_ad_client: "ca-pub-9767849814663729", enable_page_level_ads: true }); "Não está morto o que eterno jaz, no tempo a morte é de morrer capaz" Necronomicon.   Uma coisa posso afirmar se medo de estar blasfemando. Você não conhece literatura fantástica de classe se os seus olhos ainda não se depararam com as elaboradas palavras alinhadas na obra de Howard Phillip Lovecraf t. Comparo a genialidade deste autor - que se dedicava à ficção científica (mesmo quando este termo ainda engatinhava) e ao terror clássico e psicológico - com a brilhante mente de J. R. R. Tolkien. Porém, Lovecraft contaria a ascensão de de Sauron cujo poder viria do livro negro Necronomicon e não a vitória das forças do bem como Tolkien o fez. Pioneiro de um gênero, ele admitiu ter buscado inspiração em seus pesadelos de infante adoentado quase que permanentemente e exerceu influência não somente nas futuras gerações de escritores do estilo (como Stephen King , Peter Straub, Clive Barker , Neil Gaiman , Jay Anson, Brian Setzer, Ramsey Campbell dentre outros), mas o peso de sua escrita rebuscada e até certo ponto arcaica foram de dourada inspiração para contemporâneos como Clark Ashton Smith, Robert Block e Robert E. Howard (o criador de Conan). Sua forma de escrever era tão magnífica que se comparava a Edgar Alan Poe, tanto em qualidade quanto em inspiração e pioneirismo. Lovecraft sempre buscava uma linha diferente para que suas histórias de terror fossem tecidas. Preferia o horror dos pesadelos, um bom tempero psicológico ou a angústia do suicídio aos monstros e entidades de outros planos de existência. Não, suas histórias pareciam lendas de eras remotas do nosso planeta, como se ele tivesse acesso a segredos milenares e suas histórias trazem uma fusão de horror gótico e lendas de um mundo perdido. Nesta nossa postagem irei dissecar a principal obra do autor que deu origem a uma das maiores mitologias da literatura fantástica. A primeira vez que li esta obra fiquei estupefato. Nunca havia me deparado com tamanha classe na hora de compor uma história de terror e talvez, Alan Poe e seu O Poço e o Pêndulo ou Drácula de Bram Stocker,  tenham me chamado tanto a atenção à forma da escrita. Aqui, como na maioria da obra de Lovecraft, o horror é somente sugerido e pode ter até um caráter coadjuvante na narrativa que é adornada por pensamentos e passagens quase filosóficos. Infelizmente, o autor teve pouco reconhecimento quando vivo, mas se tornou o preferido dentre os autores das gerações futuras e hoje tem status de cult para os aficionados em histórias de terror. Então, arrume uma cadeira confortável e vamos atender...   ... "O Chamado de Chtulhu" A obra-prima de Lovecraft foi escrita em 1926 e sempre foi encarada como uma obra mediana por seu autor. Entretanto, o pioneirismo de tal conto vai de encontro a esta visão do escritor e os fatos que garantem minha tese são irrefutáveis. A narrativa nos leva a estar diante de um arquivo investigativo onde os depoimentos seriam lidos de modo não linear e contariam um culto nefasto a um ser mais antigo que o próprio homem. Esta entidade seria o Grande Cthullu e seu culto transitaria por diferentes lugares e personagens  que acreditavam no despertar de seu objeto de culto, representado por uma escultura em rocha desconhecida e que é adorada em diversas culturas pelo globo terrestre que se utilizavam da prece  "Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn" . No decorrer da revelação tomamos conhecimento que a entidade seria o guardião dos Grandes Anciões, criaturas alienígenas que vieram à Terra e viveram eras antes do primeiro homem nascer, habitando um mundo ainda jovem. Assim, podemos considerar esta obra como o marco zero do que ficou conhecido como Mitos de Cthulhu, ou seja, um conjunto de histórias que formavam uma mitologia sobre os seres antigos que habitavam a Terra em eras passadas e que se exilaram em outros planos de existência sem um motivo explícito. Apesar de Dagon ter sido publicado antes, os alicerces da mitologia dos grandes anciões foi construída aqui. Palavra após palavra tomamos ciência que estas entidades vieram de outros orbes há milênios atrás para nosso recém nascido planeta Terra, mas quando as estrelas estavam em posições erradas eles não podiam viver e desapareceram sob o Oceano Pacífico sul de onde usaram seus poderes telepáticos para se comunicar com os homens, muitas vezes em sonhos. Em outras obras do autor fica claro que este panteão teria criado a raça humana para adorá-los e estes primeiros filhos teriam povoado os continentes de Atlântida e Lemúria. No conto, o guardião estaria aguardando adormecido na cidade submersa de R'lyeh  o alinhamento das estrelas para que acorde do seu sono e retome o controle da Terra. Sendo assim, seu culto deve sempre estar sempre pronto a libertá-lo. Tudo isso estariam registrado no livro Necronomicon escrito pelo louco Arab Abdul Alhazred que faria parte do acervo gerado pela investigação. Num dos momento mais emocionantes da narrativa, nosso personagem que teve acesso aos documento da investigação viaja para Oslo com o intuito de encontrar um marinheiro que seria o único sobrevivente de um expedição que voltara das coordenadas de onde estaria localizada a tal cidade mitológica. Por infelicidade, o marinheiro já esta morto e tudo o que sobrou é o relato de seu encontro com Chtulhu na cidade onde este estaria adormecido. A cidade submersa teria sido trazida à tona por um terremoto, mas como as estrelas não estavam alinhadas da maneira necessária foi engolida pelo mar novamente, levando seu prisioneiro monstruoso para sua morada no fundo do mar. A sequência que relata este encontro é fascinante e aterrorizante. Para entender a engenharia da cidade perdida é necessário um pouco de abstração, pois a geometria descrita não nos é natural. Claro que estas palavras não revelam nada sobre o conto, pois Cthulhu é apenas um personagem secundário e o sabor tão agradável provocado pela leitura do texto se deve ao mistério sendo revelado aos poucos em cada página virada até o clímax de terror nas linhas finais. Comentários sobre O Chamado de Cthulhu Assim como todo escritor, Lovecraft, por mais pioneiro que fosse, não estava imune a influências de outras publicações. No caso desta história as influências claras são A Orla de Guy de Maupassant e Novel of The Black Seal de Arthur Machen. Além das influências literárias, a narrativa possui uma forte carga de influência teosófica, especialmente da obra de W. Elliot Scott - teosofista mencionado num dos primeiros parágrafos do conto - , A História da Atlântida e da Lemúria Perdida. Outra influência citada pelos estudiosos da obra de Lovecraft é o livro The Moon Pool de A. Merritt. Nesta obra, os personagens são levados a um mundo fantástico e cheio de horror ao cruzar uma "porta lunar" que pode ser equiparada à porta aberta pelos marinheiros e que mostra o horror e a maravilha da cidade que serve de habitat para Chtulhu. Segundo alguns estudiosos das histórias de Lovecraft, a maior inspiração do autor seria o soneto The Kraken  escrito por Alfred Tennyson em 1830. Os versos narram a existência adormecida de um imenso monstro aquático destinado a acordar e emergir dos oceanos para dar início a uma era apocalíptica. Outras referências são autobiográficas. O nome do narrador é inspirado no presidente da Brown University, Francis Wayland, Gammell é uma variante de Gamwell, sobrenome de uma tia do autor, enquanto Angell é o nome de uma das mais proeminentes famílias de Providence, cidade natal do autor. Já Wilcox é um dos nomes que aparecem em sua árvore genealógica e o prédio onde o personagem Wilcox residiria realmente existe na Thomas Street n° 7. O terremoto citado na trama realmente ocorreu. Indubitavelmente, O Chamado de Chtulhu é uma continuação de Dagon , outro conto datado de 1917 que já nos brindava com o cerne de sua mitologia e mostrava que sua forma de escrever era diferenciada desde as primeiras obras. Em Dagon temos também um terremoto que emerge do mar um continente perdido e  um monstro de proporções titânicas residindo nesta terra perdida no fundo do mar. Quanto à pronuncia correta do nome Cthulhu , Lovecraft nunca se decidiu, sempre o pronunciava de maneiras diferentes e declarou em uma de suas cartas que era impossível reproduzir fielmente a fonética de uma palavra absolutamente não humana. O nome da entidade demoníaca fora forjada por corda vocais não humanas, ou seja, a pronuncia não tem nenhuma relação com o órgão humano da fala. A forma mais aceita para dizer o nome em voz alta seria algo como khlûl'-hloo , com a primeira sílaba soando de maneira gutural  e densa. No fim das contas a maneira assumida por senso comum seria "Kathoo-loo". Apesar de toda a genialidade do autor, seu reconhecimento só foi evidenciado após a sua morte e este conto em especial mostra isto. Tido como uma das mais geniais histórias de terror já escritas, a mesma foi rejeitada em outubro de 1926 pelo editor da revista Weird Tales e em maio de 1927 pela revista Mystery Stories . A história só foi publicada na revista Weird Tales por intervenção de Donald Wanderei que pediu ao editor Farnsworth Wright para reconsiderar sua decisão, assim como Lovecraft havia feito antes para que Wright publicasse The Red Brain de Wandrei. Wandrei abriu os olhos do editor para uma possível publicação da obra de Lovecraft em outra revista e assim, seu expandiria  mercado de seu trabalho. Em julho de 1927 o conto foi aceito na revista Weird Tales e publicado na edição de fevereiro de 1928. Nem só de literatura vive nosso guardião de um inferno alternativo. Em 2005, a H. P. Lovecraft Historical Society produziu uma adaptação da obra sob a tutela de Sean Branney e Andrew Leman. O mais curioso desta adaptação é que apesar de sua filmagem ter sido feita nos dias modernos, o filme é mudo e em preto e branco. Isto se deve à tentativa de ambientar a adaptação ao cinema dos anos 20, década de lançamento do conto. Apesar disto, as técnicas utilizadas para capturar as imagens eram as mais modernas daqueles dias do início do novo milênio.   Por Fim... O leitor mais atento deve ter verificado que sempre me referi de maneira subjetiva a uma possível  mitologia que envolve o nefasto personagem principal que dá título ao conto em destaque nesta postagem. Pois bem, August Derleth, um dos muitos escritores que se basearam nos seres criados por Lovecraft, intitulou a pseudo-mitologia que envolve o guardião Cthulhu e os Grandes Anciões em seu panteão como Cthulhu Mythos Confira nossa postagem sobre os mitos de Cthullu aqui... Estes "deuses" começaram a se desenvolver no conto Dagon (1917) e foi continuado por toda a obra do autor sem um sentido cronológico linear que desse consistência a uma continuidade da genealogia e filiação dos membros deste seu olimpo macabro. Fica claro ao ler os contos escritos por Lovecraft que ele nunca se preocupou em estabelecer estas bases para estabelecer de maneira coerente esta pseudo-mitologia, mas utilizava bastante os seres que a povoavam de uma maneira que adornasse e colorisse seus contos. As histórias destes Grandes Antigos nunca representaram parte central de suas narrativas. Segundo o próprio autor disse em algumas de suas cartas endereçadas a seus amigos, sua mitologia não seria falsa, mas seria uma anti-mitologia - a única mitologia que seria possível de acreditar nos tempos modernos e que se distanciava da mitologia que procura explicar a história da humanidade, do universo. Só podemos apreciar as palavras deste grande autor e, em especial, as frases que constroem este conto e reverenciar a genialidade do grande Howard Phillip Lovecraft.…