VOCÊ DEVIA OUVIR ISTO: Johnny Cash, “At Folsom Prision” (1968)

Confira a proposta desta seção  aqui … Dia Indicado Pra Ouvir:  Domingo; Hora do dia indicada para ouvir:  Sete da Noite; Definição em um poucas palavras:  Ao vivo, fora-da-lei, acústico, contra tudo isso que está aí, clássico; Estilo do Artista:   Country/Folk. Comentário Geral :  O ano de 1968 foi tão culturalmente produtivo quanto politicamente tumultuado nos Estados Unidos. Houve uma conturbada eleição presidencial, assassinatos que causaram clamor público (Martin Luther King e Robert Kennedy são os de maior destaque), protestos contra a Guerra do Vietnã e conflitos raciais. Para Johnny Cash foi o ano em que perderia seu amigo Luther Perkins, guitarrista que o ajudaria a gravar, naquele mesmo ano,   "At Folsom Prision",  o álbum ao vivo que ressuscitou sua carreia, e também ajudaria-o a ser respeitado no seio da  country   music norte americana. Registrado em dois shows na instituição penitenciária de segurança máxima de Folsom, na California, para duzentos detentos, em 13 de janeiro de 1968,   "At Folsom Prision"  marca o início dos álbuns ao vivo gravados em cadeias norte-americanas, além de reafirmar Johnny Cash como um artista  "fora-da-lei" . Mas, mesmo que as lendas digam o contrário, Cash nunca esteve em alguma instituição prisional. Em sua autobiografia ele escreve: "Essa ideia  [de que esteve preso]  começou porque escrevi  "Folsom Prision Blues"  do ponto de vista de uma assassino condenado que não se arrependia. Na verdade, nunca cumpri pena em nenhuma instituição. Durante meus anos de anfetamina, passei algumas noites na cadeia, mas só de um dia para outro; sete incidentes no total, datas diferentes, lugares diferentes." Todavia, é inegável que o repertório de   "At Folsom Prision"  investe em canções que dialogam com temas prisionais como os clássicos  "25 Minutes Ago"  (uma contagem regressiva de uma execução),  "Cocaine Blues"  (drogas e assassinatos),  "Green Green Grass of Home"  (também sobre uma execução) e  "I Got Stripes"  (auto-explicativa). Existia uma identificação dos detentos com algumas letras de Johnny Cash, que vivia à margem da sociedade em seus primeiros anos de carreira, e falava dos sofrimentos e  injustiças da vida de uma forma visceral e urgente. Cash já tinha uma postura contracultural  antes mesmo disso virar moda nos anos 1960 e o projeto de um disco ao vivo numa penitenciária só reforçou suas rebeldia e forma anti-convencional de levar sua carreira. Quem, além dele, levaria sua futura esposa, a cantora June Carter,  para uma gravação de um show numa penitenciária? Há uma tensão no ar que está bem impressa na captação, crescendo de acordo com as músicas, e mesmo que nunca tenha frequentado uma instituição deste porte, Johnny Cash adquiriu em suas poucas noites na cadeia um traquejo que o permitia se inserir como um deles durante o show. Na verdade, esse traquejo de Johnny Cash com a platéia de internos também advém de mais de uma década fazendo shows em penitenciárias, desde que a canção  "Folsom Prision Blues" chamou a atenção dos detentos da prisão de Huntsville, no Texas, em 1957. Em 1º de janeiro de 1958 tocou também na festa de ano novo na prisão de San Quentin. Inclusive foram destes shows que Cash se motivou a gravar seu primeiro álbum ao vivo numa penitenciária:  "os shows   [nas prisões] pegavam fogo, os presos ficavam muito excitados e isso me deixava mais empolgado, e daí pensei que se um dia fizesse um disco ao vivo, o lugar ideal pra isso seria uma prisão".  E colocando seu desejo em prática,  "At Folsom Prision",  seu primeiro lançamento ao vivo, disco que marcou o início de uma segunda carreira para Johnny Cash, foi registrado numa prisão, tendo  "Folsom Prision Blues" , seu grande sucesso de 1956,   como   abertura do álbum. Nada mais acertado, pois a performance desta canção viria ser primeiro lugar nos  charts da Billboard. Sem dúvidas, o ápice do  show  é na já citada  "25 Minutes Ago" ,  onde a interação de Cash com a platéia  se acentua e também onde as coisas quase ficam perigosas, de fato. Destaque também para  "Greystone Chapel" uma composição de um preso em homenagem à igreja de Folsom. "At Folsom Prision"  foi lançado em maio de 1968 e seu sucesso  foi tamanho (o primeiro êxito comercial em cinco anos) que no ano seguinte começou o  The Johnny Cash Show , programa semanal que ia ao ar pela rede de televisão ABC. A ideia se repetiria mais algumas vezes em sua carreira (com destaque ao ótimo  "At San Quentin" de 1969), e muito outro nomes da música investiriam em discos ao vivo registrados em cadeias. Um disco obrigatório e, obviamente, VOCÊ DEVIA OUVIR ISTO! Ano:  1968; Top 3:   “ Folsom Prision Blues ” ,  “I Got Stripes” , e  “25 Minutes to Go” . Formação: Johnny Cash (vocais, violão, harmonica), June Carter (vocal), Marshall Grant (baixo), W.S. Holland (bateria), Carl Perkins (guitarra e vocais), Luther Perkins (guitarra), The Statler Brothers (vocais) Disco Pai:  Hank Willians  -    “On Stage! Hank Williams Recorded Live”  (1962) Disco Irmão:   Johnny Cash   –  “At San Quentin”  (1969) Disco Filho:   B. B. King – “Live in Cook County Jail” (1971) Curiosidades :  A música  "Folsom Prision Blues" foi escrita após Johnny Cash assistir ao documentário de 1951,  "Inside the Walls of Folsom Prision",  enquanto prestava o serviço militar na base da Força Aérea americana na Alemanha Ocidental. Por causa desta canção ele perderia um processo de plágio para Gordon Jenkins, que o acusava de ter copiado sua composição  "Crescent City Blues" . O processo só veio em 1968 depois do lançamento do disco. Pra quem gosta de :  Quebrar regras, trovadores, ir contra o sistema, foras-da-lei, violão, gaita e camisas brancas com listras pretas! …

VOCÊ DEVIA OUVIR ISTO: B. B. King & Eric Clapton, “Riding With the King” (2000)

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Basta se deliciar com poucos minutos da obra deste inigualável guitarrista para entender a tamanha admiração do deus da guitarra para com o Rei do Blues. A técnica de B. B. King se mostra capaz de expressar as mais complexas e difusas emoções em acordes simples, sempre preterindo a virtuose em favor das progressões carregadas de sentimento. A timbragem única B. B. King provém-lhe uma originalidade reconhecível ao primeiro ferimento de sua palheta numa das cordas de sua guitarra. Esta característica rendeu a B. B. King, além de uma obra atemporal, admiradores do quilate de Eric Clapton que declarara ter aprendido a dedilhar sua guitarra ouvindo e acompanhado as rotações de seus discos. Riding With The King  era um sonho de Eric Clapton se tornando verdade e, já amadurecido musical e pessoalmente, pode, como estampam as fotos no encarte, tomar a direção do projeto para que a lenda viva, B. B. King, desfilasse sua classe musical em uma verdadeira aula de blues. As músicas apresentadas nesta obra ímpar  trazem uma quantidade não-enumerável de riffs e solos inspirados, com arranjos de guitarra cirurgicamente alocados para dialogar de modo eloquente com as interpretações lamentosas ou maliciosas de cada um. Além destes elementos primorosos, ainda é possível diferenciar facilmente a execução do B. B. King e de Eric Clapton dos solos dilacerantes, mostrando como a virtuose gratuita nunca suplantará a  técnica  em prol da emoção.   As lições de boa música em forma de blues abarcam a maioria das formas em que estilo pode ser executado. Temos aquela sonoridade característica do blues em  mid-tempo  em preciosas composições como Ridinh With The King (com Eric Clapton na primeira voz e B. B. King na segunda), Help The Poor  (uma antiga canção de B. B. King que traz um forte trabalho vocal) e Days Of Old  (outra velha conhecida do repertório de B. B. King, com palhetadas precisas e solos poderosos). Os amantes do unplugged blues  podem se deliciar com duas das melhores faixas do disco, Key to The Highway (a melhor interpretação desta canção de Big Bill Broonzy, com Eric Clapton e B. B. King se intercalando nos vocais e nos brilhantes arranjos acústicos) e Worried Life Blues (de Big Maceo, uma velha conhecida de Eric Clapton dos tempos de Derek and The Dominos, numa interpretação onde B. B.King busca o canto dos campos de algodão para envolver sua poderosa voz). Nestas duas peças ao violão é nítida a diferença entre os solos rústicos de um e os dedilhados fluidos de outro. Aquela sonoridade melancolicamente dilacerante, embebida em uísque com gelo e colorida por abajures a meia luz, se faz presente nas emocionais Ten Long Years (também do repertório de B. B. King, cuja emocionada interpretação só cabe no vozeirão do Rei do Blues), 3 O' Clock Blues (desfilando as habilidades de ambos mostrando impiedosos trabalhos de guitarras em uma canção dilacerante) e When My Heart Beats Like a Hammer  (com duelo emocionado de piano e guitarra). Ainda temos uma corajosa interpretação de Hold On I'm Comming,  de Isaac Hayes, um flerte com o hard rock em I Wanna Be  (com refrão grudento e um dos melhores solos do álbum), um típico rythm & blues em Marry You  (carregada de groovy  e pedal wah-wah ) e um belo standard com tempero jazzistico em   Come Rain, Or Come Shine  (com lindo arranjo de hammond ), fechando um álbum indefectível com muita classe musical. Indispensável, não somente pelo encontro histórico, mas pela aula de bom gosto musical.  Ano:   2000 Top 3:     Riding With The King ,  Key To The Highway  e  Ten Long Years . Formação:    B. B. King (vocals, guitar), Eric Clapton (vocals, guita), Doyle Bramhall II (guitar, background vocals), Andy Fairweather Low (guitar), Jimmie Vaughan (guitar), Joe Sample (piano, Wurlitzer piano), Tim Carmon (organ), Nathan East (bass), Steve Gadd (drums), Susannah Melvoin (background vocals), Wendy Melvoin (background vocals), Paul Waller (programming, string arrangement) Disco Pai:  Albert King & Otis Rush :  Door To Door   (1970) Disco Irmão:   Albert King & Stevie Ray Vaughan :  In Session  (1999) . Disco Filho:  J. J. Cale & Eric Clapton : The Road To Escondido   (2006) Curiosidades:   A primeira vez que estes dois monstros sagrados da música estiveram lado a lado se deu no longínquo ano de 1967, no Cafe Au Go Go, em Nova York. À época, Eric Clapton, com vinte e dois anos, experimentava o auge do sucesso no Cream e a frase  "Clapton is God"   era impressa nos muros.  Apesar de sempre se prometerem uma  experiência  conjunta em estúdio, a primeira vez que Lucille se uniu a Slowhand foi no álbum  Deuces Wild  de B. B. King, na faixa  Rock Me Baby , em 1997, trinta após o primeiro encontro da dupla.  Pra quem gosta de : Deuses e reis ,  uísque com gelo, abajur a meia luz, encontros históricos e carros antigos .  …