Duas Variações Sobre Um Mesmo Tema: SEX PISTOLS.


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“Não entendo. Tudo o que estamos querendo fazer é destruir tudo.”
Johnny Rotten, 1977.
 

Inglaterra. 1977.

O país amargava altos índices de desemprego e aquele clima positivo da década anterior era somente uma doce lembrança. Neste cenário, um grito de anarquia sacode a cena rock n’ roll  daquele país.

Após uma década de viagens lisérgicas e psicodelias musicais, os apreciadores do rock n’ roll estavam saturados de músicas rebuscadas e técnicas.

Neste contexto, o clamor por um som mais visceral, que exaltasse as raízes primitivas do rock, era quase unanime. Desde de 1974 os Ramones já começavam a tomar de assalto a cena de Nova York com seu shows no antológico CBGB e retomavam o espirito rebelde do estilo com suas músicas de três acordes que mesclavam influências de garage rock e surf music, inaugurando o punk rock musicalmente com o primeiro disco lançado em maio de 1976.

Entretanto, a atitude punk nasceu com os ingleses dos Sex Pistols que é uma das bandas mais interessantes do rock. Uma análise crítica destes ingleses pode variar de acordo com o lado do prisma em que se olha e ambos são verdades absolutas.

Para muitos, alguns pontos das minhas observações serão quase heresias, mas são variações que percebo sobre o mesmo tema.

 

“Holidays In The Sun”. Uma clara inspiração no outro Frankenstein musical de Malcolm McLaren. Esta canção é nitidamente influenciada pelo New York Dolls, em especial pela música “Chatterbox”.

A primeira verdade irrefutável é que o primeiro (e único) álbum da banda, Never Mind The Bollocks, Here’s The Sex Pistols, merece e deve ser ouvido.

Sem trocadilhos com o título do álbum, as músicas contidas naquele bolachão era um verdadeiro chute entre as pernas da sociedade conservadora do reino da rainha.

O primeiro single, Holidays In The Sun, anunciava aos quatro cantos do mundo que o rock n’ roll estava passando por mudanças e que surgia uma nova geração que iria salvar o estilo que já se tornava enfadonho.

Anarchy In The U. K. é um hino eterno, talvez a mais famosa peça do álbum, mas nada se iguala à fúria de God Save The Queen.

Johnny Rotten quase vomita tais canções e sua performance vocal era inovadora. À época, os críticos massacraram a banda, que cantava as dores da juventude inglesa, alegando que a banda não tinha técnica musical e que suas canções eram muito simples.

Mas o que não conseguiam ver – e que os adolescentes ouviam de maneira límpida – era que a música dos Pistols era carregada de emoção primitiva e provam que a música não precisa ser técnica para ser admirada ou marcar época.

Se nada disso garante a robustez do disco, basta notar que ele carrega todo um movimento, não só musical, mas ideológico, nas costas e deu status de banda histórica à um grupo que lançou apenas este disco com canções inéditas.

“Anarchy In The U. K.”: Hino de uma geração sem muita perspectiva em um país em crise. Um dos primeiros gritos de atitude roqueira que influenciou fortemente o surgimento do movimento NWOBHM que revitalizou o Heavy Metal.

Porém, uma outra verdade inquestionável é que o grupo sempre foi maior do que sua música. A banda sempre foi associada à atitudes extremas e polêmicas.

A simples capa do disco foi censurada pelas palavras obscenas ali contidas em letras garrafais e a banda quase foi acionada na justiça por causa de seu cartão de visitas em forma de disco.

O disco? Bom, as músicas são simples, sem sair dos afamados três acordes, vocalizações altamente previsíveis, a bateria na mesma marcação e um baixo inaudível.

O guitarrista Steve Jones não é nenhum exemplo de técnica apurada e não consegue mais do que arpejos e licks esparsos.

Se pensarmos em Freddie Mercury, Elvis Presley, Robert Plant e Ian Gillan, chamar Johnny Rotten de cantor seria, no mínimo, um sacrilégio. Já Sid Vicious é um caso à parte.

Musicalmente, ele nunca seria um ícone do rock e tal status só foi atingido por sua vida de excessos, sua postura destrutiva e sua morte trágica.

A prova de tais argumentos é que depois deste álbum, ninguém ouviu falar dos seus integrantes. Apenas Johnny tentou algo com outro grupo de talento discutível, o Public Image Ltd.

“God Save The Queen”. Com a mesma atitude musical de My Generationdo The Who, o Sex Pistols compôs um grito juvenil que ecoou até “Smells Like Teen Spirit” do Nirvana.

Na verdade, a banda era uma “armação” de Malcolm McLaren, um empresário da decadente Londres que mudou para Nova York em 1974.

A cena musical da cidade americana experimentava uma transição com o surgimento de nomes como Ramones, Patti Smith, Blondie e Richard Hell.

Segundo o próprio (como pode ser visto no ótimo livro Mate-me Por Favor: A História Sem Censura do Punk), ele tinha uma lista de coisas boas e más e esta lista foi o começo para que decidisse uma fórmula de utilizar estas coisas más para transformar a cultura popular.

Nesta lista havia um nome, Sex Pistols, que significava todos os tipos de coisas para Malcolm. Assim, sua mente “malvada” enxergou este nome atrelado a adolescentes que pudessem ser considerados maus e que tocavam rock visceral.

O mesmo Malcolm McLaren havia tentado este artifício com os New York Dolls, sua primeira investida no mundo do rock, que foi um verdadeiro fracasso.

“Pretty Vacanty”. Seria um plágio de “Blank Generation” de Richard Hell? Richard se declarou furioso quando ouviu a composição do Pistols alegando que os ingleses haviam roubado toda a atitude de sua composição.

O visual dos Pistols foi, assumidamente por McLaren, inspirado nas vestimentas rotas de Richard Hell. Segundo o empresário, Richard sempre parecia que havia acabado de sair de um bueiro.

McLaren chegou ao ponto de pedir que a banda criasse uma canção nos moldes de Blank Generation de Richard Hell. e assim nasceu Pretty Vacanty.

Futuramente, na clássica turnê Anarchy Tour, que dentre outras banda, tinha como atração os Heartbreakers – que contava com Johnny Thunders, ex- New York Dolls – os Pistols copiavam de modo descarado a performance dos americanos.

O relato de Jerry Nolan, bateristas dos Heartbreakers, contido no livro “Matem-me Por Favor: Uma História sem Censura do Punk”, de Legs McNeil e Gillian McCain, deixa isso claro :

“Eu sempre via Johnny Rotten, Steve Jones e Paul Cook, parados nos bastidores nos estudando. Olhavam as combinações entre Thunders e eu, a rapidez com que tocávamos. Depois colocavam as combinações nas apresentações deles, o que eles admitem abertamente.”(*)

 

Sex Pistols

O único disco da banda. Apenas uma caixa de atitude musical ou realmente uma pepita de ouro em estado bruto?

Por fim, devo admitir que a influência do Sex Pistols na cultura pop é latente. Toda a música contemporânea e, em especial, o rock n’ roll foi modificado pela atitude dos seus integrante que mesmo não sendo músicos louváveis, conseguiram marcar toda uma geração.

Mesmo não sendo a primeira banda punk da história eles foram responsáveis por caracterizar o estilo com sua musica minimalista e sua atitude agressiva e, até certo ponto, autodestrutiva.

Mas a verdade é que o álbum é um dos discos mais importantes da história da música moderna, mas a banda era genial no comportamento e musicalmente pouco acima da média.

Isso tudo só pode nos fazer louvar ainda mais o grupo, pois copiaram pelo menos um par de bandas americanas no que se refere à performances e até canções, pioraram o comportamento destrutivo de Jim Morrison, lançaram apenas um disco que tem composições que se destacam mais pela energia do que pela qualidade delas, se implodiu de modo trágico e mesmo assim são tidos como deuses do rock.

Em verdade, ainda não me decidi qual das duas variações é a que melhor define o tema Sex Pistols. 

O que nos deixa a questa: Sex Pistols, gênios ou marionetes?

Sex Pistols

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