“Serial Experiments Lain”: Um clássico cult da animação cyberpunk

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Por Laira Arvelos

“Present day, Present time, HAHAHAHAH!!!”

Uma das temáticas que mais me afligem e me deixam dias em desassossego, sem dúvida são das obras que abordam a questão da “realidade”. Estas obras nos dizem: o seu mundo não é real, você cria uma realidade a partir da forma como vê o mundo, tudo que existe é apenas uma ideia; uma ilusão, ou ainda quando abarcam os conceitos e teorias que fundamentam questões da física como tempo e espaço. Sem dúvida, são ideias e conceitos que rendem bons dias de questionamento.

Outro ponto que consegue me levar a momentos de embaraço estão nas obras que falam da questão da conexão que é conseguida através da internet, nós que passamos a infância longe desta rede super difundida como é hoje, sempre nos surpreendemos com o poder que a tecnologia alcançou.

Diante da temática podemos lembrar de Matrix (1999), mas é no ano de 1998 que podemos realmente viajar nestas ideias de uma forma inusitada através do anime Serial Experiments Lain. Com treze e episódios, Lains é um anime ciberpunk de ficção científica, mistério e drama, lançado pelo estúdio Triangle Staff, dirigida por Ryutaro Nakamura, criação de cenários por Chiaki Konaka e desenhado por Yoshitoshi Abe.

Confira o trailer… 

O anime conta a história de Lain Iwakura, uma menina solitária e tímida, com uma família extremamente estranha: uma irmã mais velha inexpressiva, uma mãe apática e fria e um pai aficionado por navis (computadores futuristas). Lain inicialmente é um pouco desconectada da Wired (internet futurista) mas recebe assim como outras colegas do colégio um e-mail de Chisa Yomoda, garota que se suicidou no início da história.

Este fato logo no começo já mostra que a narrativa será intensa, surpreendidos com a cena já começamos a pensar sobre o assunto, o pano de fundo da paisagem é dotado de um surrealismo, Chisa aparenta estar um pouco alucinada e o que nos diz é que apenas abandonou seu corpo, mas que ainda vive e que existe um ‘Deus’ onde ela está.

A partir deste e mail a jornada de Lain se inicia, acompanhamos a mudança que ocorre gradualmente a personagem e o que ela se torna, Lain vai expandindo seu navi em paralelo a sua própria expansão, onde descobre estes mundos; o real e o virtual.

Durante este trajeto de transformação de Lain, vamos conhecendo algumas coisas deste universo: a Wired é uma internet ligada ao mundo real, com uma fronteira tênue, a Cyberia Club é um ponto de encontro dos jovens para acessar a wired e fazer uso de acella, uma droga estimulante muito popular que quando entra no corpo oscila na mesma frequência causando a secreção de um hormônio específico, alterando a capacidade de computação, a percepção do tempo, a consciência e velocidade de resposta. Em Lains até a droga é uma tecnologia.

Para quem como eu assistir o anime hoje, percebe facilmente que é uma produção antiga, mas isso só contribui para manter o tom sombrio e misterioso da obra, minimalista; a exploração do silêncio e do som ambiente só acrescenta pontos positivos a história.

Todos os personagens são bem insípidos, o que só coopera, para que nos concentremos na perspectiva de Lain e na sua metamorfose, Lain do primeiro episódio definitivamente não é a mesma do último: forte, inteligente, incrivelmente habilidosa, tudo em Lains nos faz só chegar a mais questionamentos; estaria alguém tomando o lugar de Lain?

O que mais me chama atenção neste hoje clássico cult, é o foco futurista do autor, uma obra feita há 19 anos com uma temática tão visionária. Como previa Lains a sociedade prefere por muitas vezes viver fora de sua realidade: a internet, os vários dispositivos, os óculos de realidade virtual são todos mecanismos de fuga.

É preciso de paciência para assisti-lo, o tom um pouco ‘parado’ pode desmotivar ás vezes, porém a cada novo capítulo recebemos informações, que vão formando camadas que sobrepostas e entrelaçadas dão ligação a história. Serial Experiments Lain não é divertido, não é previsível, não é facilmente compreendido, não vai te dar explicações ou respostas prontas para seus questionamentos e acredite serão muitos.

Com pinceladas de psicodelia em tons azuis e vermelhos, somos levados a questionamentos: até onde vai nossa evolução em quanto corpo? Enquanto consciência? Enquanto máquinas? E se pessoas fossem softwares? E se pudéssemos trocar de corpo como quem troca de roupa? O que seria a  morte? Como andam nossas famílias e relações de faz de conta? Como andam nossas relações com os diversos meios de tecnologia?  Se Deus existe é preciso algo para ele existir?

Com pinceladas de psicodelia em tons azuis e vermelhos, “Serial Experiments Lain” não é divertido, não é previsível, não é facilmente compreendido, não vai te dar explicações ou respostas prontas para seus questionamentos e acredite serão muitos.

A amplitude dos temas abordado em Lain o tornam denso, a sua genialidade está na diversidade de interpretações que proporciona, nos questionamentos que produz. É preciso assistir cada episódio e analisa-lo para que as peças encaixem e façam sentido, o que é estranho ao falar deste anime, mas após uma segunda ou terceira assistida é incrível dizer Lain realmente faz sentido.

Serial Experiments Lain, é uma obra única, uma viagem, uma confusão que nos convida a filosofar sobre Deus, a história da computação, a literatura ciberpunk, a religião, o transumanismo, teorias da conspiração, as relações humanas, o controle tecnológico e nossas definições de existência: “ humanos só podem realmente existir na memória de outros humanos, muitas versões de nós existiram, não é porque existem muitos de nós lá fora, nós só estamos dentro de muitas pessoas”.

Confira o primeiro episódio, dublado, na íntegra… 

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