SENSE8: Muito Além de Uma Simples Trama de Ficção Cientifica.

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Por Will Bernardes

“E se, de alguma forma, passássemos a enxergar o mundo pelos olhos de outras pessoas. Sentir, viver, usufruir de habilidades nunca antes vivenciadas, estar em um lugar do outro lado do planeta mas, sem tirar os pés do chão…”

Os irmãos Wachowski entraram para a história do cinema com o revolucionário Matrix, filme que reformulou o conceito de efeitos especiais e, até os dias atuais, segue como referência fictícia e futuros distópicos.

Após 16 anos, com alguns filmes dirigidos, mas ainda com a imagem muito associada a aclamada trilogia, os irmãos, que agora são irmãs, tiveram a chance de se libertarem da glória e ruína de Matrix, em uma ideia ousada de criar um universo onde ficção, teorias conspiratórias, senso comum, ideologias e conceitos culturais se contrabalanceassem de forma que os telespectadores repensassem suas visões e definições acerca do certo e errado.

A premissa pode até dar uma certa impressão de que, já vi algo parecido em algum lugar, entretanto, a série conta com um enredo original e que abrange muitas questões vivenciadas atualmente por diversos grupos socioculturais, divisões de classe sociais e orientações sexuais, instigando a empatia a quem mergulha profundamente na trama.

Confira o trailer da primeira temporada… 

O enredo gira em torno de 8 pessoas ao redor do mundo que, após um evento proeminente logo no episódio piloto, começam inexplicavelmente a partilharem experiências e visões conturbadas de uma pessoa em comum, levantando muitos questionamentos sobre tal fato e, até o desenrolar das coisas, intrigam e desequilibram os protagonistas a ponto de questionarem suas sanidades.

Pois bem, a ficção cientifica começa a dar lugar ao drama, mas não propriamente tão chata, pelo menos a quem não curte o gênero, pois, começamos a aprofundar no cotidiano de cada personagem, conhecendo seus problemas pessoais e suas dificuldades, onde somos simetricamente transportados a realidade de cada um, tudo demasiadamente transparecido de forma tangível a cada região onde se encontram.

Will Gorski (Brian J. Smith) vive em Chicago como policial, seguindo a carreira de seu pai. Sempre correto e apto a seguir o caminho do bem demostrando seu instinto protetor em circunstâncias pouco favoráveis em sua posição. Enquanto Riley (Tuppence Middleton) mora em Londres e ganha a vida como uma conceituada DJ, mas que parece não estar confortável em sua vida atual, mesmo cercada de “amigos” aparenta sempre estar sem rumo e vazia emocionalmente.

Nomi Marks (Jamie Clayton) é uma transexual blogueira, ativista política e Hacker. Vive em San Francisco com sua parceira Amanita (Freema Agyeman) onde luta pelos direitos LGBT e enfrenta um drama pessoal em sua própria família. Já Wolfgang Bogdanow (Max Riemelt) reside em Berlin (Alemanha) como chaveiro. Cresceu em meio ao crime organizado onde construiu sua personalidade forte e destemida. É hábil em decifrar segredos de cofres, bom de briga e segue sua vida sem medo das consequências, e apresenta questões não resolvidas com seu falecido pai.

Sun Bak (Doona Bae) é uma excelente economista filha de um empresário de renome em Seul (Coréia do Sul). Vive assombrada pela morte de sua mãe e o não reconhecimento e carinho de seu pai, pelo fato de ser mulher. Buscou refúgio dos problemas nas artes marciais ao qual domina de forma sublime. Por sua vez, Kala Dandekar (Tina Desai) é uma cientista farmacêutica de Mumbai (Índia) devota em sua religião hindu e prometida a casar se com um homem que não ama.

Lito Rodrigues (Miguel Ángel Silvestre) vive como um ator famoso de telenovelas na Cidade do México, assediado como símbolo sexual e galã, mas que na verdade esconde sua real preferência sexual da mídia, protegendo sua carreira e em toda simbologia que sua imagem personifica. Completando o cluster temos Capheus (Aml Ameen), um carismático motorista de uma van em Nairóbi no Quênia. Vive com sua mãe, que enfrenta uma doença muito comum na África, e sobrevive a miséria e as dificuldades em manter o tratamento dela em meio a grande exploração da indústria farmacêutica em seu país.

O enredo gira em torno de 8 pessoas ao redor do mundo: Will Gorski, Riley, Capheus, Sun Bak, Lito, Wolfgang, Nomi e Kala…

Neste contexto, revela-se uma grande caça ao “cluster” (ou grupo sensate) por uma misteriosa organização que busca um interesse, pouco revelado, em suas habilidades de contatar e compartilhar seus intelectos e habilidades.

Como toda trama, existe uma grande ameaça e, dependendo do ponto de vista, uma personificação de uma figura do mal, ou seja, o grande vilão da trama. Este é o denominado “Whispers” (Sussurros) interpretado pelo ator Terrence Mann, que desde o primeiro episódio aparenta intenções pouco amigáveis e impõe ameaça aos interesses do grupo, cooperando com a força tarefa em questão.

Jonas Maliki (Naveen Andrews) apresenta um personagem enigmático que serve de guia sobre detalhes explicativos da trama, sendo também um sensate mas não deixando claro sobre de qual lado se encontra, por ora, em grande parte, Jonas sempre convicto e sereno, despeja suas experiências e instrui os sensates em determinados momentos críticos.

A medida que a trama progride, as citações conspiratórias intrigam e, prendem os telespectadores, de forma que a cada fato detalhado sobre cada personagem, somos mergulhados a mais perguntas e, consequentemente, buscamos acompanhar cada conflito pessoal expectando seu desfecho. A maneira como a história é contada é o grande trunfo da série, pelas grandes revelações e como são conectadas as experiências de cada membro do cluster entre si.

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Jonas Maliki (Naveen Andrews)  e “Whispers” (Sussurros), interpretado pelo ator Terrence Mann, conferem as citações conspiratórias da trama…

O compartilhamento de experiências do grupo ocasiona situações em que, podemos sentir angústia, momentos cômicos, reflexivos, poéticos e em grande parte aprendemos de uma forma ficcional que os grandes problemas das pessoas hoje em dia, são na grande parte, o simples fato da ignorância e falta de altruísmo. Tal realidade social é brilhantemente retratada em forma de paródia moderna e maquiada de elementos comuns da cultura pop contemporânea.

Um dos detalhes mais marcantes de toda obra cinematográfica e, também das grandes produções da TV, são os hits imortalizados em suas trilhas sonoras, onde muitas franquias emplacaram artistas e associam grandes composições a momentos épicos da dramaturgia.

Em sense8, acho que para a maioria dos fãs, o grande hit cabe ao sucesso das coletâneas dos anos 90, “What’s Up?” da banda norte-americana 4 Non Blondes. Precisamente no episódio 4 da primeira temporada, que leva o mesmo título, a música marca um grande avanço no enredo, onde pela primeira vez os 8 sensates se conectam mentalmente, encerrando o episódio de forma poeticamente bela e contextualizando muito bem a letra com a situação da personagem Nomi. “E então eu choro algumas vezes quando estou deitada na cama, apenas para tirar tudo que está em minha cabeça, e eu, eu estou me sentindo um pouco peculiar. E então eu acordo pela manhã e vou lá para fora, E eu inspiro profundamente, e eu fico muito chapada, e grito com toda a força, o que está acontecendo?”. Simplesmente sensacional!

O grande marco da série é a forma como os temas abordados, e polêmicos na realidade social, mesmerizam o público e se intercalam, enaltecendo a confraternização do grupo e, ao mesmo tempo, alavanca novas tramas baseadas em cada conflito pessoal, ao ponto que cada sentimento implícito se divide a todos os membros do cluster. Detalhe que se torna crucial em determinados arcos.

Em sense8, acho que para a maioria dos fãs, o grande hit cabe ao sucesso das coletâneas dos anos 90, “What’s Up?” da banda norte-americana 4 Non Blondes…

Evidente que pela dinâmica do enredo, pelo fato da obra ser gravada em 9 cidades diferentes em todo o mundo, os custos não sairiam tão baixos. A Netflix arcou em média com US$9 milhões por episódio, sendo uma das 4 séries mais caras da história.

Tal circunstância somada a uma grande mão de obra e, dificuldades em relação aos contratos com os 15 atores do elenco principal, levando em conta os personagens secundários que também são de elevada importância na trama, levantou questionamentos por parte de sua produtora sobre o futuro da série.

Após um hiato de 2 longos anos entre uma temporada e outra, deixando os fãs envoltos em ansiedade, o primeiro problema emerge quando um dos atores principais, e por muitos um dos favoritos, se desentende com Lana Wachowski por questões de discordância sobre o futuro do personagem e diálogos na nova temporada.

Após longas discussões, Aml Ameen deixa o elenco no meio das gravações dos primeiros episódios da segunda temporada. Imediatamente, Toby Onwumere é escalado para substituir Aml no papel de Capheus, regravando inclusive as cenas onde Aml Ameen já havia encenado. Toby Onwumere aparece pela primeira vez, para surpresa de muitos desavisados, no especial de natal que antecedeu a segunda temporada. Fato muito bem satirizado na cena em questão.

Após uma temporada acirrada e, encerrando com um grande gancho para a sequência da saga dos personagens, os fãs são bombardeados com a notícia do cancelamento da série pela Netflix. Revoltados e indignados, inúmeras manifestações nas redes sociais por parte dos fãs, geraram discussões e apelos pela renovação da série, ocasionando revolta de muitos assinantes.

Teorias sobre ser tudo jogada de marketing também se levantou nos mais esperançosos, entretanto, analisando os números em relação a audiência da série em determinados países, seria plausível a atitude da Netflix, considerando que a mesma consiste numa empresa que investe muito dinheiro e carece de retorno.

Outro grande momento da trama se dá com um remix da já citada canção “What’s Up”… 

Mas a boa notícia é que, atendendo aos apelos, a Netflix volta atrás em sua decisão e comunica que será produzido um episódio especial de 2 horas, para dar desfecho na trama, para alegria geral da nação, com data ainda não divulgada.

Sense8 nos faz mergulhar em uma trama exuberante, com referências sutis a ideias conspiratórias de perseguições e interesses de organizações secretas, quebrando o paradigma da imagem sobre heróis, propondo um conceito oposto aos grandes personagens superpoderosos.

A ideia de anti-herói, é mais redundante e busca diluir a ficção com a realidade cotidiana, onde os 8 “heróis” ao invés de enfrentarem alienígenas e mutantes, lutam contra seus próprios problemas e medos, alcançando por meio de experiências comuns, o auto crescimento.

Uma série intrigante que merece ser apreciada aos poucos, ou por meio de maratona, observando cada detalhe implícito no contexto filosófico da trama.

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