ATUALIZANDO A DISCOTECA: Rumbo Reverso, “II”

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Rumbo Reverso: “II” (2016, Independente)

O lo-fi é um dos estilos mais instigantes da música e, apesar das reminiscencias modernas, seu caminho pode ser traçado partindo de álbuns do Beach Boys  (principalmente nos álbuns guiados pelas loucuras musicais de Brian Wilson) e do Pink Floyd, passando por Pavement e Guided By Voices. Todavia, nos anos oitenta, o termo Lo-Fi ganhou uma conotação diferente, servindo para se referir às músicas registradas de modo caseiro, bem como batizou um movimento musical alternativo americano no início daquela década. Confuso? Tanto quanto tentar rotular esta sensacional viagem musical instrumental dos paulistas do Rumbo Reverso.

Dê o play e ouça toda arte musical abstrata do Rumbo Reverso.

Aceito a rótulo Lo-Fi para este álbum simplesmente pela definição conceitual do termo e pelo encaixe acadêmico e exploratório da proposta que aparentemente aposta num minimalismo frio e abstrato. Entretanto, o que se revela realmente é uma música instrumental cheia de camadas e múltiplas referências, além de um vanguardismo banhado de Free Jazz, onde, rompendo com a estrutura tradicional, mantendo um ritmo irregular e a melodia atonal, além da absorção dos mais variados elementos, consegue inserir o ruído dentro das composições de modo invariavelmente artístico.

Sendo assim, temos uma arte musical abstrata que dança concretamente em nossos ouvidos criando imagens em nossa mente à partir de nossas emoções.  Consequentemente, detalhes irão aparecer e desaparecer a cada nova audição, como se as músicas tivessem vida e sofressem mutações motivadas pelo estado de espírito do ouvinte. Essa característica só amplifica a mágica onírica e etérea onipresente, mesmo nos mais dilacerantes movimentos atonais!

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O Rumbo Reverso é o templo musical do paulista Cacá Amaral, que exorcisa suas emoções através de experimentações e explorações aos moldes Lo-Fi.

A mente por trás do projeto é Cacá Amaral, que usa o Rumbo Reverso como uma usina de experimentações e explorações, desprezando os cânones estruturais e harmônicos e subvertendo as normas de modo quase lascivo e inquietante. Portanto, não se preocupe com linearidade ou dinamismo melódico, pois a transmutação de emoções em sons beira o exorcismo, o que me leva a questionar se a usina de Cacá não seria, na verdade, seu templo?

Mesmo com clima sombrio, melancólico, denso, multivariado, frio e inóspito, faixas como “Grimaldi e Bastar”“Quais cenas ele pode conter?” , “Dissolvedor de rancores”, e “Formigas gardens” dialogam brilhantemente com jazz minimalista, texturas melódicas e/ou ácidas, experimentalismos introspectivos e groove quase dissonante, formatando um todo complexo à partir de sua partes minimalistas.

Nota: 9,0 

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