ROBERT JOHNSON: O Blues, a Encruzilhada e o Diabo

 

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Raul Seixas, um dos maiores símbolos do rock tupiniquim, há tempos já proclamava em alguns versos de seus hinos que “o diabo é o pai do Rock”. Traçando os tortuosos caminhos desta hereditariedade musical, se o Blues é ancestral do Rock, então deve existir alguma forma de relacionamento entre o Blues e o Diabo, mesmo que às escondidas dos registros histórico musicais.

Reza a lenda, uma das melhores da cultura pop, que o gene roqueiro responsável por toda a estirpe diabólica advinha do avô, que atendia pela alcunha de ROBERT JOHNSON. Vamos esmiuçar um pouco desta lenda no texto de hoje. 

Antes de mergulhar no texto, clique no play e entre no clima com as gravações de Robert Johnson em suas históricas sessões em estúdios improvisados. 

 

Robert Johnson é sinônimo de mito. À caça de um pai que nunca conhecera, este eterno e errante viajante, em uma encruzilhada, teria feito um pacto com o diabo em troca de genialidade musical.

Morreria, em 1938, sem nunca saborear o sucesso e em circunstâncias discutidas até hoje, com a idade de 27 anos, credenciando-o a entrar no mórbido clube do 27 (formado por ícones da música e da rebeldia que faleceram aos 27 anos).

Seu legado musical é uma irrepreensível coleção com apenas 29 canções (todas clássicos do blues do delta). Até mesmo seu nascimento é carregado de dúvidas, sendo que Robert Leroy Johnson nasceu supostamente no dia 08 de maio de 1911, na cidade de Hazlenhurst, no estado norte-americano do Mississippi.

Ainda infante, desejava se embrenhar nas artes musicais, mas não tinha a permissão de seus pais. Naquele princípio de século XX, os templos do blues não eram as casas badaladas de Chicago, mas sim as chamadas jook joints, as quais Robert frequentava às escondidas durante a noite.

Seus ídolos eram Son House e Willie Brown, parando sua peregrinação noturna na jook joint onde um destes estivesse tocando. Inclusive, Robert aprendeu muito com Willie Brown, inspirando a história do filme Crossroads (estrelado por Ralph Maccio e Joe Seneca).

Willie Brown e Son House eram os ídolos
e professores de Robert nas
jook joints espalhadas pelas
noites sulistas.

Aos olhos de Son House e de Willie Brown, a técnica musical de Robert Johnson era apenas a de um aprendiz promissor. Entretanto, de modo súbito, esta condição mudou, com Robert demonstrando habilidades extremas, no espaço de tempo entre dois encontro com  Son House e Willie Brown, desfilando uma forma de tocar blues inovadora para a época.

Não obstante, muitas de suas músicas citam explicitamente o demônio vide Hellhound On My Trail, Me an The Devil Blues e Preaching The Blues, sendo a hipótese de um pacto diabólico, quase um corolário do desenrolar dos fatos em uma comunidade supersticiosa como aquela em que viviam.

Ainda existia outra peculiaridade testemunhada  quanto as habilidades de Robert Johnson. Dizem que ele podia estar em um bar, completamente submerso em uma conversa, sem dispensar muita atenção à canção que tocava ao fundo no rádio, porém no dia seguinte era capaz de interpretar aquela mesma canção, nota por nota.

Após esta transformação musical, o bluesman fora encontrado pelo caçador de talentos H. C. Speir, da race records, com quem Robert Johnson registrou suas primeiras gravações, aos 25 anos num quarto de hotel em San Antonio, tocando e cantando virado para a parede.

Eternizou 29 canções, em duas sessões de gravação, que entrariam para o cancioneiro popular e se tornariam parte da cartilha básica do Blues. 

Robert Johnson registrou suas primeiras gravações
aos 25 anos, num quarto de hotel em
San Antonio, tocando e cantando virado para a parede.

A realidade e a lenda acerca de Robert Johnson se permeiam de modo indistinto, muito em decorrência da parca quantidade de registros históricos sobre ele. A questão de como se deu a evolução de um músico mediano para o maior bluesman da história, em menos de dois anos, ainda é latente e sem resposta.

Como alardeava um exímio analista, quando todas as respostas racionais são eliminadas, o sobrenatural passa a se tornar plausível. As canções de Robert Johnson eram quase confessionais, sendo que em Hellhound On My Trail, ele se apresenta como  um bluesman errante pelas margens do Rio Mississippi, mostrando sua técnica inovadora e tendo um demônio no seu rastro, o mesmo demônio com quem ele declara ter feito um pacto numa encruzilhada na canção Crossroads.

A história do pacto foi cantada por Celso Blues Boy, nos versos da canção Mississippi, além de ter se tornado uma das maiores lendas da cultura pop. Evoluindo em cada nova versão do boca-a-boca, a lenda dizia que Robert Johnson teria sido instruído a se dirigir até a encruzilhada formada pelas rodovias 61 e 49, onde um negro iria ensinar-lhe técnicas invejáveis no violão.

Robert, segundo a história, estaria dedilhando de modo inábil as suas desafinadas seis cordas, quando um enorme negro foi em sua direção, ignorando sua presença, totalmente atento ao violão, tomando-o das suas mãos, afinado-o, executado um riff endiabrado, devolvido o instrumento a Robert e seguido seu caminho.

Este encontro dera ao bluesman a habilidade de executar o que desejasse e tocar o blues como nunca fora feito. Tudo isso em troca de sua alma.  Verdade ou lenda, Johnny Shines, bluesman que conhecera Robert aos 17 anos, afirmava que a história do pacto com o Diabo não era desmentida por Robert, que até se valia dela em alguns momentos.

Robert Johnson teria sido instruído a se dirigir até a encruzilhada formada pelas rodovias 61 e 49, onde um negro (o próprio Diabo) enorme iria afinar seu violão próximo a uma plantação, dando-lhe a habilidade de executar o que desejasse e tocar o blues como nunca fora feito, em troca de sua alma. 

 

Reverenciado por nomes que vão de Eric Clapton a Jimmy Page, passando por Peter Green, George Harrison, Johnny Winter e Brian Jones, o bluesman Johnson pode ser considerado o avô do rock n’ roll, sendo sua figura envolta em uma mística inerente aos imortais da rebeldia musical, mística esta que não o protegeu de um fim trágico.

Sua morte é o último dos mistérios a envolver a figura do bluesman. Em uma espelunca chamada de Three Forks (Tridente, o símbolo do diabo), onde desfiava sua habilidade, Robert inadvertidamente tomou intimidades com a esposa do dono do estabelecimento.

O marido ofendido serviu ao artista uma garrafa de uísque já aberta. O mestre Sonny Boy Willianson, outra atração da noite, percebeu a armadilha e esbarrou “acidentalmente” na garrafa jogando-a no chão, desperdiçando o destilado, salvando a vida do bluesman conquistador e despertando sua ira.

O iracundo Robert, disse a Sonny Boy que nunca mais tocasse na sua garrafa e, mais uma vez, o dono do boteco mandou uma garrafa com o lacre aberto, adocicada com vingança e batizada com estricnina. Robert tomou o uísque, tocou e cantou durante toda a noite, enfrentando os desconfortos físicos do envenenamento.

Foi levado à casa de um amigo depois de show, contraiu uma pneumonia, morrendo no dia 16 de agosto, de 1938. Durante muito tempo acreditou-se que ele havia sido apunhalado por uma mulher ciumenta e durante anos sua morte foi envolta em muitos mistérios, inclusive que ele teria morrido nos braços do diabo, que o veio buscar-lhe pessoalmente.

Mas, ao que tudo indica, a alma de Robert Johnson já estava salva, tendo a família declarado que ele assinou sua conversão antes de morrer, em um pedaço de linho.

A história de Robert Johnson foi cantada
nos versos desta genial canção de Celso Blues Boy
com participação de B. B. King.

A história de Robert Johnson ainda inspirou a sétima arte. O ano era 1986 e chegava às telas Crossroads: A Encruzilhada. O filme se ambienta no universo do blues oriundo dos campos de algodão do sul dos EUA.

A película narra a história do estudante de música clássica, Eugene Martone, interpretado por Ralph Macchio (de Karatê Kid), e um grande fã de blues. Eugene é pressionado por seu professor a escolher entre a música erudita ou o blues, alegando que não se pode servir a dois senhores: ou se é senhor ou se é escravo.

Mas o garoto é movido pela história de que o lendário bluesman Robert Johnson tinha um contrato para gravar 30 músicas, porém gravou somente 29. Esta música “perdida” de torna o Santo Graal de Eugene, que tira Willie Brown (interpretado por Joe Seneca), antigo amigo íntimo de Robert Johnson e mestre da harmonica,  de um asilo-prisão para ajudá-lo na busca por esta canção. Porém, Willie também tem sua cruzada: reencontrar o diabo na encruzilhada para reaver sua alma.

O filme retrata a viagem que leva a um destino incerto, onde Eugene descobre qual é o verdadeiro sentimento que inspira o Blues e Willie pode viver novamente a vida na estrada como fizera muitos anos atrás.

Mas o melhor do filme é seu final apoteótico para qualquer fã do estilo musical, ou simplesmente quem tem apreço por guitarras. Um incrível duelo no instrumento executado entre Eugene e o guitarrista representante do diabo, Jack Buttler, interpretado por ninguém menos do que Steve Vai, decide o destino das duas almas.

O vencedor do duelo final se vale da peça clássica Capricho Número 5 de Niccoló Paganini (um virtuose do violino que também teria vendido sua alma ao diabo em troca de sua técnica e habilidade no instrumento) para derrotar seu oponente.

Por fim, é interessante mencionar que vem de Paganini a expressão Diabolus In Musica.

Ralph Macchio na estrada do sul, interpretando um
jovem dividido entre a música erudita e o blues
em busca de uma canção perdida de Robert Johnson.

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