ATUALIZANDO A DISCOTECA: Primordium, “Old Gods” (2017)

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Primordium Old Gods
Primordium: “Old Gods” (2017, Rising Records, Metal Under Store) NOTA:8,5

“Old Gods” é o segundo disco da banda potiguar de death metal Primordium, lançado via Rising Records, que vem na sequência de “Todtenbuch” (2014), seu ótimo disco de estréia.

A abertura “Pesedjet” reforça a aura mística egípcia impressa na capa, que deságua no death metal brutal, técnico e experimental de “Num (Pralaya)”, iniciando um conceito artístico que gira em torno da criação do universo e dos deuses egípcios.

Assinada pelo artista potiguar Sandro Freitas, que também fez a capa de “Todtenbuch” (2014), a arte usa técnicas artísticas diferentes do usual, outro fato que também reflete a música por ela embalada.

Um experimentalismo advindo das camas de teclados e da instrumentação diferenciada, que contextualiza a intensidade metálica no conceito desenvolvido, resultando numa musicalidade agressiva e cativante, mas ao mesmo tempo de pontualidades ousadas, quase progressivas.

Existem coros, instrumentos percussivos, detalhes acústicos (como na instrumental e viajante “Iunet Mehet (Pillar of North)” que beira a psicodelia), e momentos mais melódicos entremeados ao peso do metal extremo praticado pelo quinteto, como na virulência guiada pelo peso dramático das linhas de guitarra de “Nuit” (uma personagem bem conhecido dos admiradores de Aleister Crowley e seu “Liber Al”).

“God of Light” também é um belo exemplo dessa alquimia, tendo melodia e detalhes que resvalam no black metal sinfônico dos anos 1990. Um gênero que está bem diluído nas demais composições. Seja nos teclados sinuosos em segundo plano, ou nas palhetadas gélidas de guitarra que nunca viram riffs.

Os movimentos, no geral, são muito bem construídos, dinamizados por variações de andamentos e passagens multifacetadas, que vão desde os regionalismos até os mais irresistíveis momentos groovados, típicos do death metal (como em “The Scribe” e sua torrente de riffs).

Aliás, os arranjos mais pesados estão alinhados às formas clássicas e sujas do death metal, numa interseção entre as formas old school das escolas norte-americana e sueca (como em “Lady of Water”), mas com personalidade própria (bem evidente na imprevisível e brilhante  “The Awakening (Manvantara)”). Para situar o leitor, seria uma mistura personalíssima de Nile, Melechesh, Therion, Entombed, e Obituary. Mas tudo desconstruído e reconstruído a seu modo.

Primordium Old Gods

O vocal gutural demoníaco de Gerson Lima é envolto por uma musicalidade que derrama notas vigorosas como granizo em meio a uma tempestade de guitarras (“Anhu Shu” tem uma abertura dilacerante e passagens cadenciadas empolgantes) e teclados.

Completando a formação do Primordium, temos João Felipe Santiago (baixo, violões, samples e vocais),  Alex Duarte (guitarras e vocais), Lux Tenebrae (guitarras, violões, didgeridoo e vocais) e Lucas Somenzari (bateria, violões e vocais).

“Geb’s Throne”, outro dos destaques do repertório, traz ainda mais as estruturas melódicas orientais para a geometria musical do Primordium, sendo uma das composições mais interessantes do disco, com riffs  que se rendem aos aspectos percussivos e tortuosos da essência musical do oriente.

A produção é orgânica, beirando a crueza em certos momentos, mas também soa moderna. Apesar de toda a sujeira e rispidez da proposta, “Old Gods” carrega um suspense em seus movimentos místicos entremeados ao peso viscoso de suas composições. Ou seja, existe espaço para variações etéreas ao mesmo tempo que as músicas respingam sujeira pra todo lado.

Além disso, as composições não abusam do direito de exagerar inato a algumas bandas que buscam híbridos musicais do heavy metal com as texturas e modos orientais de música.  Todo elemento alheio à estrutura básica do metal possui uma razão de ser e de estar naquele momento da composição.

Fechando o álbum está  “Chernobyl”, cover da extinta banda Hammeron, quiçá a mais pesada peça de “Old Gods”, dando ao trabalho cores finais de superlativa brutalidade. No fim, ficam mais mais pontos positivos do que negativos (uma maior preocupação com a variação das linhas vocais daria ainda mais poder à fórmula da banda)!

“Old Gods” é um segundo ato discográfico que evidencia ainda mais a identidade do Primordium, ao invés de mascarar uma mudança, dando contornos artísticos a uma forma fétida e abjeta de death/black metal, bem como transparece maturidade técnica para vôos mais altos em termos de ousadias técnicas e experimentais.

Você pode conferir o álbum na íntegra via Bandcamp, nesse link.

Confira o lyric video para a faixa “Nuit”…

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