ATUALIZANDO A DISCOTECA: Opeth, “Sorceress” (2016)

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Opeth: “Sorceress” (2016, Nuclear Blast, Shinigami Records)

Desculpe-me fãs do velho Opeth que adoram criticar essa fase mais recente da banda, mas vocês apenas se enganaram com os primeiros álbuns, que já traziam, em menor escala e camuflados por camadas de distorção, detalhes progressivos, em meio à densidade obscura de sua música extrema. Todavia, é perceptível na evolução da banda, como seu mentor intelectual, Michael Akerfeldt sempre fora um músico diferenciado, dono de um espírito musical progressivo, quase jazzístico, que sempre saltou aos ouvidos iniciados.

Desde o primeiro álbum, Mikael compõe tudo ao violão, até mesmo as partes mais pesadas e depois passa paras guitarras no estúdio, nestas condições, e sendo um fã declarado do rock psicodélico e progressivo sessentista, nada mais natural que estas influências corressem pelo sangue da banda, até seu coração musical. Fato ocorrido no álbum “Heritage” (2010).

Confira “Will of the Wisp”, uma balada progressiva de tons melancólicos.

A bem da verdade é que o maior trunfo desta banda sueca era sua imprevisibilidade, impulsionada pelo destemor de ousar. Aliado a isto, algumas especulações encheram de esperanças aqueles que acreditavam ser este o último álbum em que o Opeth investiria no rock progressivo, pois seu capitão estaria saudoso dos tempos de extremismo musical. Nada disso! “Sorceress” é o mais recente fruto desta natureza musical, reforçando o Opeth como uma das cinco melhores bandas da cena progressiva atual, remodelando elementos de bandas clássicas como Khan, Omega, King Crimson e Pink Floyd, fato confirmado por faixas como “Chrysalis” (uma fusão de Deep Purple com Metal Progressivo, à lá Dream Theater), “Will of the Wisp” (uma balada progressiva de tons melancólicos), “Strange Brew” (melhor faixa do álbum) e “Sorceress” (com introdução que remete aos vanguardismos de Frank Zappa).

Confira a faixa “The Wilde Flowers” com seu final orgástico após os arranjos sinuosos e sincopados.

É impressionante como a banda consegue soar intrincada, orgânica e grandiosa com tamanha fluência, variando muito bem as melodias entre os arranjos mais sincopados e mirabolantes que se apresentam pincelados por momentos mais metálicos, quase dando continuidade ao sensacional “Pale Communion” (2014), se observarmos que Mikael Akerfeldt voltou a abusar de instrumentações arrojadas ao progressivo, buscando a naturalidade dos discos lançados no limiar dos anos 70. Existem explorações aqui e ali (como na belíssima instrumental “The Seventh Sojourn”, com melodias sinuosas que remetem a Jimmy Page e Robert Plant, mas com muito eruditismo), passagens mais jazzísticas, momentos mais introspectivos e um banho de alta qualidade  musical (como em “The Wilde Flowers” e seu final orgástico após os arranjos sinuosos). Além disso, salta aos ouvidos as inspirações de nomes clássicos como David Gilmour, Robert Fripp, Richie Blackmore, Uli John Roth e Jeff Beck nas guitarras.

Confira a faixa “Sorceress”, com sua introdução fusion que é suplantada por arranjos pesados e abafados, puramente setentistas, fazendo a transição de “Pale Communion” para este novo álbum.

Se fossemos enumerar a palheta de influências musicais deste álbum, o trabalho seria hercúleo, bastando dizer que conseguem misturar de modo homogêneo elementos diversos, como em “Sorceress 2” (que traz as melodias do Genesis em meio a beleza introspectiva de Nick Drake) e “A Fleeting Grace” (que mescla Beatles, Badfinger, Gentle Giant e Spirit com sagacidade). Já “Era”, apresenta toda a brutalidade que o progressivo permite, numa abordagem próxima ao que o Katatonia e o Anathema fazem, ou fizeram.

Este álbum está longe da linearidade e assimilação imediata, dando ao ouvinte a certeza de que o Opeth nunca vai se sentar em uma zona de conforto, mesmo que alguns venham a enxergar esse álbum apenas como uma continuação do anterior, pois ainda nos oferecem belas canções que transbordam emoção aos ouvidos que sabem ouvir. Compreendo perfeitamente quem não entenda esta abordagem que a banda segue em seus últimos álbuns, preferindo peças como “Orchid” (1995), “Still Life” (1999), “Blackwater Park” (2001) e, até mesmo, “Ghost Reveries” (2005), mas negar a excelência musical deste “Sorceress” já é teimosia.

NOTA: 9,5

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