ATUALIZANDO A DISCOTECA: Odradek/Sphaeras, "Sun Seeker" (2016)

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Odradek Sun Seeker
Odradek/Sphaeras: “Sun Seeker” (Independente, 2016)

Esse álbum é uma verdadeira montanha russa instrumental deliciosa, direta e impactante, misturando elementos de punk, rock alternativo, post-rock e progressivo, em técnicos arranjos experimentais, andamentos intrincados, linhas com rigor quase matemático em contraponto aos detalhes libertos de amarras. São duas bandas que dividem o material, ora conjunta, ora cada uma no seu canto (são três faixas de cada artista e mais duas duas em parceria). Enquanto as faixas com o Odradek (brasileira) são mais intrincadas, desafiadoras e alternativas, a abordagem da banda Sphaeras (de Singapura) é mais groovada, confortável e progressiva. Já o trabalho conjunto é fabuloso e só ouvindo atentamente para captar todos os detalhes e nunces desta obra.

Aos desavisados, o Odradek é um trio de Piracicaba-SP formado por Caio Gaeta (bateria), Fabiano Benetton (guitarra) e Tomas Gil (baixo) e que estrutura suas músicas sobre gêneros diversos como math-rock / post-rock / punk / progressivo / experimental, que se destacou com a trilogia de EP’s “Homuncúlo” e agora mergulham neste split “Sun Seeker”, em parceria com a banda de Singapura Sphaeras, projeto que já vinha sendo gestado desde 2015, como nos contra Fabiano: “a gente conversava muito sobre música e, com ambos se preparando pra lançar material, a ideia de um disco colaborativo de duas bandas em lugares opostos do mundo soou muito boa. O baixista da Sphaeras, Axel Serik, mandava partes de bateria e baixo e eu gravava uma guitarra em cima e mandava de volta, então foi um processo bem lento”.

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O Odradek é um trio de Piracicaba-SP que estrutura suas músicas sobre gêneros diversos como math-rock/post-rock/punk/progressivo/experimental, forjando uma verdadeira montanha russa instrumental deliciosa, ousada, original e impactante.

“Sun Seeker”, faixa inspirada pela ilustração presente na capa do álbum, feita pela artista de Singapura Dawn Ang,  abre os trabalhos com uma sonoridade intrincada, cheia de efeitos e guitarras efervescentes, transpirando modernidade, feeling e atitude na parceria com o Sphaeras, que se repete na faixa “My Wish is Your Command”, dona de vocais totalmente particulares, que funcionam mais como parte da musicalidade etérea diametralmente oposta ao instrumental pesado, claustrofóbico e sincopado, num inusitado exercício de colagens de Free Jazz, Heavy Rock e muito groove. Sobre esta canção Fabiano nos conta que  “surgiu a ideia de chamar uma vocalista amiga dos integrantes da Sphaeras, a Weish, para cantar. Ela já tinha experiência em bandas de rock experimental como a sub:shaman e hoje canta em loops e toca synth na .gif, que tem chamado atenção na cena alternativa asiática, abrindo shows de bandas famosas como m83. Weish surpreendeu a todos nós na maneira que compôs com naturalidade em uma música tão torta, longa e dissonante como essa”.

Alguns momentos das três peças que preenchem a parte dos piracicabanos chegam a lembrar algumas loucuras mirabolantes do System of a Down, assim como na faixa “Tétrico”a mais direta do álbum e que narra a história de uma jovem professora – que aliás é a vó do Caio Gaeta, baterista – em sua experiência ao lecionar numa pequena vila rural, distante de qualquer cidade. “Triscaidecafobia”, a primeira música da banda feita com letras inteiramente em português, se baseando na obsessão do compositor austríaco Arnold Schoenberg pelo número treze, consegue ser mais melódica, mesmo com toda a rusticidade de suas linhas de guitarra, que rasgam a psicodelia que alicerça esta melhor faixa do trabalho, cujas linhas vocais, cadenciadas e quase hipnóticas, dotadas de certa melancolia viajante, assim como na faixa “Orla”, que tem uma pegada mais stoner rock/metal em sua estrutura principal, ecoando um pouco de Hard Rock Setentista, classicamente sombria, até seu orgástico desfecho.

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A abordagem da banda Sphaeras (de Singapura) é mais groovada, confortável e progressiva, casando perfeitamente com as nunces diferenciadas da banda brasileira, manufaturando uma musical de altíssima qualidade.

No que tange aos singapurenses, sua abordagem mais viajante funciona muito bem em “Coda”, com múltiplas referências jazzísiticas e progressivas, além das guitarras cortantes, mas não tanto em “Dewgng”.

É preciso enaltecer a técnica dos integrantes das duas bandas (principalmente o baixista Axel e do guitarrista Fabiano, brasileiros que desfilam linhas endiabradas ao longo de todo o álbum), bem como sua criatividade para transformar esta técnica apurada em músicas complexas, transbordando detalhes corajosos que manipulam sonoramente as emoções do ouvinte, ao investir no uso de contrastes e mudanças abruptas, que oxigenam e envolvem o ouvinte a ficar cada vez mais atento ao percurso imprevisível desta jornada musical sombria, oriunda da ordem e beleza advinda do caos.


 

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