ATUALIZANDO A DISCOTECA: Motherwood, “Motherwood” (2017)

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Motherwood: “Motherwood” (2017, Heavy Metal Rock) NOTA:8,5

No início deste ano a banda Motherwood (na verdade um duo formado por Guilherme Malosso e Yuri Camargo), apresentou um single promo que gerou expectativa acerca do prometido primeiro álbum, pela magnificência da sua abordagem atmosférica do Black Metal, que atemorizava tanto quanto causava reverência, dançando pelos tradicionalismos e modernidades do extremismo metálico com influências de Katatonia, Opeth, Burzum e Emperor.

Naquele momento, apresentavam duas composições que figuram neste primeiro e auto-intitulado full lenght, lançado pelo selo Heavy Metal Rock, e que figurariam como aberturas dos lados do LP que a disposição das faixas  denuncia.

Enquanto “Sadness” se alongava por melodias melancólicas, clima atmosférico, e recheada de pormenores, “Coldness” vinha injetada de peso, velocidade e intensidade, e ambas reaparecem no repertório desta estréia como destaques, mas não servem de resumo para tudo que se ouve no trabalho completo.

Confira o clipe de “Sadness”… 

E se você gostou do que ouviu no single, não se decepcionará com o que encontrará neste álbum, pois além destas duas “velhas conhecidas” ainda temos mais cinco composições embasadas num Black Metal consistente, com esbarrões repetidos tanto no Death Metal (principalmente nos vocais guturais pontuais) quanto na estética mais climática e melancólica do Doom Metal (nos arranjos funestos e gélidos).

Tudo por aqui vem talhado nos detalhes, e cheio de variações, arranjos dinâmicos, passagens atmosféricas, explorando com inteligência, versatilidade e maturidade a imponência do gênero, com dramaticidade aguçada (como bem mostram a cadência, os teclados, e as palhetadas que nunca viram riffs de “Solitude”) guiada pelo conceito da “angúsita que a natureza sente sobre o ser humano“.

E neste arcabouço sombrio, gélido, e ríspido, é impossível não destacar uma composição como “Despair” que consegue ser caótica e melodicamente hipnótica, enquanto desenrola-se por passagens inspiradas de Death/Black Metal. É alta musicalidade aliada ao bom gosto e inteligência para inserir as pontualidades cativantes, como as notas de teclado que pingam como chuva fria sobre uma floresta escura. Uma verdadeira “opereta” Black Metal que nos afeta imediatamente com um sentimento de força e poder.

Já “Trauma”, mesmo com seu entremeio mais climático e carregado, reafirma a natureza do Black Metal brasileiro em se aproximar mais do Death Metal, trocando a rispidez por intensidade, assim como nos riffs e vocais de “Faithlessness”, que tem até certo groove, controlado à seu modo, claro, e bem discreto, enquanto a instrumental “Fear” ousa por climas, texturas, efeito de chuva e experimentação controlada.

A auto-produção da dupla, bem feita e contextualizada, permite delinear bem a rispidez soturna de sua abordagem do Black Metal, imprimindo uma dose camuflada de sujeira e decadência, principalmente nos riffs de guitarra estilizados de Guilherme, que junto aos teclados climáticos de Yuri promovem a entropia sonora de velocidade e agressividade variáveis, entremeada por uma névoa atmosférica que amplifica a densidade introspectiva da obra como um todo.

E tanta maturidade no artesanato destas composições impressiona (princialmente quando tomamos conhecimento que a banda foi formada em 2016) pela capacidade em fugir do perigoso ruído sistemático que acomete o Black Metal, e transforma-o num amorfo e blasfemo chiado metálico. Mas não pense que desmerecem a crueza e a rispidez inerentes aos fundamentos do gênero.

Por fim, esse primeiro full lenght do Motherwood só reafirma a arte e a poesia musical que existe entre a melancolia e a morbidez, mostrando um altíssimo potencial para o brilhantismo dentro do gênero num futuro próximo. E como sempre pedimos mais de quem mostra capacidade, acredito que possam ousar e experimentar com mais liberdade em seus próximos passos.

Confira o álbum na íntegra via Bandcamp… 

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