ATUALIZANDO A DISCOTECA: Morcrof, “A Future Not So Far” (1994, 2017)

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Morcrof: “A Future Not So Far” (1994, 2017, Erinnys Productions) NOTA:7,5

No meu primeiro contato com a capa deste “A Future Not So Far” me veio à mente o clássico “Mental Funeral” (1991), do Autopsy, lançado três anos antes desta demo tape da banda brasileira Morcrof, que também trazia monstruosidades em tons de verde sobre um fundo negro e logo “vermelho sangue”. Claro que a semelhança pode ser apenas coincidência, mesmo com as afinidades sonoras, afinal a ilustração usada pelo Morcrof veio de John Buscema e Tony DeZuninga, emprestada da clássica revista em quadrinhos “A Espada Selvagem de Conan”, que eu seu número 18, na página 52 trazia esta ilustração d’Os Demônios de Yanaidar”, mais uma semelhança com o monstro lovecraftiano exposto na capa de “Mental Funeral”.

Lançada originalmente em cassete no longínquo ano de 1994, mais precisamente em janeiro, “A Future Not So Far” foi gravada com apenas dois microfones shure dynamic fourfold em um ensaio de setembro de 1993, o que nos faz esperar por uma produção discutível, mas, ao mesmo tempo, deixa tudo com clima de arqueologia metálica, como um pérola escondida pelo passar dos anos. Com isso em mente, me propûs a seguir o conselho do crítico Aaron Copland e evitar a idéia de valorizar a música aqui contida apenas pela proporção de seu apelo sensório.

Morcrof

“A Future Not So Far” é um registro histórico da banda Morcrof, um dos pilares do Dark Metal brasileiro,  também violento, ríspido, primitivo e brutal, mergulhado num magma amorfo e movediço, que assassina o silêncio com energia feroz e vulgar e com óbvias tangências ao Death Metal clássico…

Assim, quando a linha sorumbática de baixo serviu de arauto para a massa amorfa que emanava da faixa-título, meus ouvidos já se dedicavam a escrutinar todos os sulcos do Death Metal crú e noventista, concentrando nas linhas de guitarra, e tentando enxergar o que havia de potencial ali, nas composições viscosas de Ludwick Schölzel (vocal), R’Bressan (guitarra), Caecus Magice (guitarra) Paullus Moura (contra baixo / b.vocal) e Feralis (bateria).

Tudo é muito embolado, cavernoso e pútrido, mas emana uma energia primitiva impressionante. Os vocais são ininteligíveis, todavia mostram desenvoltura para o gênero, além do que existem evoluções interessantes no instrumental, principalmente nas secas linhas de bateria.

Algumas linhas zumbem como abelhas, tudo esta abafado, existem variações de volume e nitidez, mas se pensarmos que isso tudo sobreviveu registrado num cassete desde os anos 1990, dá pra relevar muita coisa, e ter uma experiência com um material que reforçará o romantismo das memórias do período pré-internet e pré-home studios, onde as dificuldades de se destacar eram ainda maiores.

No geral temos um Dark Metal violento, com óbvias tangências ao Death Metal clássico, ríspido, primitivo e brutal, mergulhado num magma amorfo e movediço, que assassina o silêncio com energia feroz e vulgar em faixas como “Concentration Camp (Yourself)” (insana), “Image of Torture” (psicótica), “Rotten Food” (com passagens diferenciadas que também aparecerão em “Lastimation”) e a cadenciada “Name To The Kings”, que revelam com a nitidez fotográfica de um ultra-som uma banda inventiva e determinação furiosa em sua proposta de peso viscoso que respinga sujeira pra todo lado.

Confira via Bandcamp

“A Future Not So Far”, chega reencarnada em cardboard sleeve, encarte mídia pro, esmerada aos detalhes, e mantendo todo o conceito gráfico original de logotipo, foto e capas e com duas faixas bônus: “Ambicionato” e “The Morcrof (Souls To Capture)”, com produção mais limpa que as faixas originais do trabalho, mas não menos embolada, e já acenando com mais força para o Doom que seria explorado na discografia da banda.​

Vale como registro histórico de um maiores nomes do Dark Metal nacional, que tira o caráter abstrato dado hoje em dia para as dificuldades de se registrar materiais de qualidade nos anos 1990, mesmo se sua proposta fosse interessante e sua banda competente.

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