ATUALIZANDO A DISCOTECA: Matakabra, “Marginal” (EP, 2017)

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MARGINAL EP COVER
Matakabra: “Marginal” (2017, EP, Independente) NOTA:10

Como naturalmente circula no meio Heavy Metal, podiam ter escolhido Marte, Hades, ou até mesmo Tyr, mas a banda pernambucana Matakabra optou por Ogum, orixá da guerra, como forma ainda mais autorreferencial de dar continuidade ao seu motim musical perpetrado por um conceito imerso nas injustiças sociais neste mais novo EP, intitulado sintomaticamente de “Marginal”.

Além do contexto climático belicoso, nativo e sombrio que a introdução empresta do nome do orixá, há de nos lembrarmos também que ele representa proteção e coragem, elementos necessários aos dois engajados cânticos de revolta anti-racismo que se seguirão no tracklist“principalmente nesse momento em que forças supremacistas ganham vozes em figuras públicas”. Não por acaso a banda escolheu o dia 20 de novembro, dia da Consciência Negra, para o lançamento de “Marginal”.

Assim como “Prole”, EP de 2016, “Marginal” é um tiro de resistência ao status quo negativo que vivemos em nosso país, onde nada parece nos tirar da sombra. Sombras violentas, muito bem representadas pelo instrumental brutal e altamente técnico que já é de apreço e conhecimento daqueles que acompanham sua música, que, sem perda de generalidade, poderia ser enquadrada no Deathcore, afinal, os breakdowns do Metalcore se misturam aos tradicionalismos do Death Metal, porém , ainda mais afinado a este segundo gênero, explorando-o de modo a subvertê-lo.

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A banda Matakabra apresenta “Marginal”, seu novo EP, um tiro de resistência ao status quo negativo que vivemos em nosso país, onde nada parece nos tirar da sombra, bem como uma mostra de sua evolução técnica e criativa que já merece um full lenght. 

Porém, assim como sugestionado pelos títulos, “Marginal” é uma evolução conceitual de “Prole”, mas não somente isso, pois também existe um crescimento nítido em criatividade e exploração técnica, resultando numa ofensiva sonora com variações envolventes nos andamentos, que em momento algum recusam a violência instrumental, muito menos certas “perversões” musicais, ao contrário, usam-nas como ponto de partida para imprimir sua mensagem forte e revolta, anti- racista, resumida pela própria banda como:

“Se o negro tem um lugar garantido na mídia, aparentemente é no noticiário. É o marginal do relato diário de um genocídio já naturalizado, justificado por uma narrativa de guerra, endossada por uma farsa.”

As duas composições que compõem “Marginal”, no geral, ainda se baseiam nos riffs pesados do Death Metal, gerados pela afinação baixa da guitarra de oito cordas, acompanhados pelo trabalho técnico e pesado da seção rítmica formada pelo baixista Rafael Coutinho e pelo baterista Theo Espindola (o que toca esse cara é inacreditável!). Todavia, tudo vem numa forma tão dinâmica e talhada nos detalhes que ambas as composições soam como apelos do Death/Black Metal tipicamente brasileiro, gerado nas forjas supra-aquecidas nordestinas, para a nova geração.

Isso porque é nítido, desde a evolução conceitual da arte da capa (se comparada à crueza da arte gráfica de “Prole”) que o polimento do foco não foi direcionado somente à mensagem, mas também ao instrumental e à produção, que por sua vez, se mostra mais robusta e grave, de densidade ctônica amplificando a tensão inerente ao gênero.

Produção que ainda continua à cargo da banda, mas com captação, mixagem e masterização feitas por Joel Lima, no J.A Studio, além da direção de arte por Pedro Muniz. Vale muito registrar as participações de Bruno Saraiva (Teclados) e Jeison Silva (Percussões), com fortes contribuições para as texturas climáticas do trabalho.

“No Açoite”, composição que segue da intro “Ogum”, nasce titânica e furiosa, intimidando pelo peso técnico e versátil,  mas também amplificando e dando tons mais vívidos ao contorno progressivo apresentado na faixa-título do EP anterior, mas sem perder a selvageria intimidadora.

Uma faixa que impressiona em todos os sentidos, assim como “Mordaça” (com riffs iniciais remetendo ao Morbid Angel), que se apresenta ainda mais cadenciada, “estilingada” e criativa, com fortes tangências ao Black Metal moderno, ainda revelando claramente uma preocupação maior no desenvolvimento dos climas e no encaixe das linhas vocais de Rodrigo Costa.

Confira o clipe de “Mordaça”… 

Ainda sobre “Mordaça”, preste atenção às suas linhas de guitarra. A versatilidade do guitarrista Fernando Marques (agora sem a parceria de Blico Paiva que deixou a banda) está ainda mais apurada, conseguido fazer de seu instrumento climático, percussivo, metálico e até jazzístico (existe um solo entremeado à brutalidade que beira o avant garde).

A julgar pelas cinco faixas (ou seis, se contarmos a introdução deste novo EP como uma música em separada) destes dois EPs lançados em 2016 e 2017, onde a passividade jamais é um mérito, torna-se fato que já passou de hora da banda nos brindar com um full lenght, afinal sua metamorfose já se completou, a maturidade para tal pulsa e o casulo pode ser rompido rumo a voos mais altos.

 

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