LIVRO: “Zadig, ou o Destino”, de Voltaire

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Voltaire: “Zadig ou O Destino” (L&PM Pocket)

Diferentemente do que acontece com as obras que são embaladas como produto da filosofia, a obra de Voltaire é recheada de alegorias que sutilmente transmitem suas idéias o que torna a leitura de tais textos uma diversão. Claro que compreender a real essência de suas palavras não é tarefa simples. Isso fica claro em “Zadig, Ou o Destino”. Um conto, que num primeiro momento parece simples, apresenta detalhes ricos que revelam muito de seus pensamentos filosóficos.

Nesta narrativa não existe rigor histórico, o foco é dado nas pedras do caminho de Zadig, um filósofo da antiga Babilônia, que enfrenta problemas sociais e políticos disfarçadamente. No desfecho deste épico de amor ao próximo e pura metafísica, fica como lição filosófica o fato da vida humana estar nas mãos de um destino completamente alheio ao nosso controle. Intelectuais e estudiosos da obra de Voltaire dizem ser esta sua segunda grande produção, somente superada por “Cândido, ou o Otimismo”. Após minha primeira leitura deste conto fiquei com a ligeira impressão de que Paulo Coelho realizou uma certa “colagem ideológica” em seu bem menos iluminado “O Alquimista”. Vai ver é só impressão minha mesmo! Mas o ciclo de um destino incontrolável numa vida cheia de reviravoltas está lá. Será?

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Poucas palavras foram tão influentes quanto as proferidas pela mente de Voltaire e sua obra é recheada de alegorias que sutilmente transmitem suas idéias o que torna a leitura de tais textos uma diversão. Claro que compreender a real essência de suas palavras não é tarefa simples. Isso fica claro em Zadig, Ou o Destino. Um conto que num primeiro momento parece simples apresenta detalhes ricos que revelam muito de seus pensamentos.

Após conhecer um pouco da biografia do autor, podemos, após ler o conto, conjecturar que Voltaire queria demonstrar o quão é difícil obter reconhecimento, mesmo sendo agraciado com bagagem cultural e inteligência acima do normal, aqueles que não são oriundos de berços abastados ou nobres. É límpido nesta interpretação sua crítica quanto a sociedade francesa e sua corte, algo também realizado magistralmente por Stendhal, em “O Vermelho e o Negro”.

Para tal crítica, ele se vale de uma parábola, ou seja, uma alegoria narrada por um sábio chamado Sadi, que nos apresenta a vida de um nobre chamado Zadig em honra da perfeição máxima de sua musa, a sultana Sheria. Na história, abarrotada de reverses, percebemos um abrasado tom crítico quando fica evidente que a inteligência e a posição de Zadig despertam a inveja de quem o cerca, ao invés da admiração. Se colocando no lugar de Voltaire e sua situação na corte francesa podemos fazer um paralelo de certas alegorias como nos feitos de Zadig que são sempre sabotados e tais sabotagens são confundidas com o azar.

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Zadig e Astartéia

A inteligência de Zadig pode ser exemplificada na passagem em que o grande mago do reino da Babilônia, propõe alguns enigmas aos candidatos ao trono do rei, para governar junto à rainha Astartéia. Na fase final o mago pergunta:

“Qual é, de todas as coisas do mundo, a mais longa e a mais curta, a mais rápida e a mais lenta, a mais divisível e a mais extensa, a mais negligenciada e a mais irreparavelmente lamentada, que devora tudo o que é pequeno e que vivifica tudo o que é grande? “

Zadig, em sua sabedoria e sagacidade responde:

“Nada é mais longo que o tempo, pois que é a medida da eternidade; nada é mais curto, pois que falta a todos os nossos projetos; nada mais lento para quem espera; nada mais rápido para quem desfruta a vida; estende-se, em grandeza, até o infinito; divide-se, até o infinito, em pequenez; todos os homens o negligenciam, todos que lamentam a perda; nada se faz sem ele; faz esquecer tudo o que é indigno da posteridade, e imortaliza as grandes coisas”

Após a vitória no concurso, Zadig se torna o governante ideal, cuja conduta é o modelado pelo iluminismo, sendo racional, íntegro, preocupado com o bem-comum e alicerçado pelo ideiais da justiça e da igualdade. Seus oponentes tem como traço principal a inveja.  Há ainda, o Eremita, personagem que possui o “Livro dos Destinos”. Esta figura seria o destino projetada na nossa cultura cristã como o Anjo da Morte.

Vejo esta obra com um teor altíssimo de atualidade, encaixando-se facilmente nos dias de hoje. Podemos aprender muito com um personagem que acredita na divina providência  que favorece nosso esforço individual, inteligência e justiça.  Estes elementos também comuns ao Zaroastrismo já é evidente na primeira página onde lê-se:

“…Havia aprendido, no primeiro livro de Zoroastro, que o amor-próprio é um balão inflado de vento, de onde saem tempestades quando recebe uma alfinetada.”

A boa índole de Zadig é sempre enaltecida, sendo qualificado como generoso, que não tinha medo de prestar serviços a ingratos, sempre buscava consolo na filosofia e na amizade.  Mais que um conto filosófico, este texto é uma lição de ser humano e de fé que vale ser seguido com um exemplo a ser seguido e um molde a ser alcançado.

Para o leitor que está curioso em ler este grande texto do pensamento humano, saiba que ela está disponível no site http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/zadig.html, onde podemos lê-la na íntegra sem a necessidade de download. Confira, pois vale muito a pena. E para quem já leu o livro “O Alquimista”, de Paulo Coelho, e “O Zadig”, fica a pergunta enunciada acima: Será?…

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