LIVRO: "Dias de Abandono", de Elena Ferrante

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Por Laira Arvelos

 

“Existir é isso, um sobressalto de alegria, uma pontada de dor, um prazer intenso, veias que pulsam sob a pele, não há mais nada de verdadeiro para contar.”

 

LIVRO DIAS DE ABANDONO
Elena Ferrante: “Dias de Abandono” (2013, Biblioteca Azul)

A desilusão, a solidão e o abandono tem sido retratada em muitas obras; o título e a vertiginosa ilustração da capa deste livro me instigou a lê-lo, e paralelamente a crueldade e beleza poética da escrita de Elena Ferrante eu só conseguia me lembrar do meu poema preferido de Vinícius, pois tudo se dissipa assim de repente, não mais que de repente.

Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana, cuja identidade é mantida em segredo. Especula-se que seja uma tradutora ou até mesmo um homem. A autora concede poucas entrevistas, todas elas por escrito e intermediadas pelas suas editoras italianas.

Nelas, explica que optou pelo anonimato para poder escrever com liberdade, e também para que a recepção de seus livros não seja influenciada por uma imagem pública. Especula-se, com base nas suas obras, que tenha nascido em Nápoles, pela descrição detalhada da cidade e de seus costumes mostrada na “Série Napolitana”. O escritor italiano Domenico Starnone – que já foi apontado como o autor das obras assinadas por Ferrante – nega as especulações.

Em outubro de 2016, o jornalista italiano Tommaso Debenedetti publicou um artigo polêmico em que revela que a escritora é, na verdade, uma tradutora chamada Anita Raja. Anita é filha de uma alemã que foi para Itália após o Holocausto. É casada com o escrito Domenico Starnone. Em sua obra, alguns temas são recorrentes, como a infância, a maternidade, o casamento e as relações entre homens e mulheres.

“Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar”. Este é o mote do livro, um roteiro do qual já estamos acostumados, aquela história batida do fim de um relacionamento, mas de uma forma que incomoda, que confronta…

“Dias de abandono” é um romance de um casal comum, narrado em primeira pessoa, onde Olga, uma mulher de 38 anos, até então uma mulher polida com um relacionamento sólido de 15 anos, dois filhos e um cachorro, recebe a notícia: “Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar”, em um primeiro instante ela acha que aquilo é apenas momentâneo, mas após perceber que era verdade, vamos acompanhando a queda da personagem diante da ruptura do relacionamento.

Este é o mote do livro, um roteiro do qual já estamos acostumados, aquela história batida do fim de um relacionamento, onde a mulher que se dedicou a tanto tempo aquele casamento se vê agora em uma situação de desespero e abandono. No desenvolver da história podemos ver como uma pessoa que vive em função de outra sofre quando há ruptura.

O incrível neste livro é a capacidade da autora em escrever de forma tão convincente a partir da banalidade do tema, uma escrita com propriedade que ao final nos deixa a sensação de ser quase uma autobiografia pela intensidade dos fatos apresentados.

A escrita vívida, nos envolve em uma situação horrorosa, Olga literalmente vai definhando durante o livro, emocionalmente e fisicamente, acompanhamos seus sentimentos, sua obsessão, paranoia, sua dificuldade em manter-se sã, e em manter a ordem de coisas cotidianas. Estilhaçada por ter que de repente lidar com esta nova vida, acompanhamos quase que seu luto pelo relacionamento: ceticismo, negação, tristeza e raiva.

Acompanhando seus pensamentos, ficamos as vezes sensibilizados e muitas vezes com raiva pelo que pensa de si, do marido dos filhos e cachorro. Devastada, Olga tenta manter e reaver sua estrutura, recolher seus cacos, não tão somente pelo relacionamento, mas pelo que ela tinha moldado como vida. O livro é um retrato construído com muita observação e sensibilidade.

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Em outubro de 2016, o jornalista italiano Tommaso Debenedetti publicou um artigo polêmico em que revela que a escritora é, na verdade, uma tradutora chamada Anita Raja.

Duas questões interessantes se mostram quando Olga lembra-se de uma história antiga onde uma mulher abandonada tentou suicídio e ficou conhecida por todos como “poverella” (a pobre coitada abandonada),– e hoje seus temores concretizados era ela quem estava assim e a metáfora também sutilmente captada quando Olga fica presa em casa com seus filhos, e presa a aquela situação.

A trama entorpece como se precisássemos de um desfecho para acabar com aquela sensação de desolação, seguindo um ritmo intenso de sentimentos com uma queda brusca no final. O final acerta por não ter uma grande reviravolta e resolução de todos os problemas como mágica, mas recorre a mais um clichê, voltando ao previsível e comum, o que não fecha a história com dignidade.

“Dias de Abandono” nos apresenta uma escritora fantástica que sabe empregar as palavras e seus recursos como ninguém. Incomoda pelo fato de reforçar uma imagem estereotipada e ultrapassada de relacionamentos e principalmente da posição feminina neste contexto. Surpreende por em momentos mostrar uma escrita crua, retratando a rejeição e ruína, com brutal descrição mostra situações onde vemos o maior abandono de si.

O que fica da leitura é este poder da literatura de nos oferecer este lado que a gente sempre nega, esta máscara que não tiramos, como nós nos sentimos quando somos rejeitados?

Como nos portamos diante do nosso lado ruim?

Ao ler sobre alguém que desce ao fundo do poço, nos afastamos por sermos tão éticos, limpos, sensatos e cheios de virtude. Precisamos sempre de histórias bonitas com pequenos percalços e uma grande lição?

Um livro que incomoda, que confronta, que mostra que não estamos imunes as situações, um livro que estranhamente me falou de empatia.

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