LIVRO: “A guerra não tem rosto de mulher”, de Svetlana Aleksiévitch

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Por Laira Arvelos

 

“Tenho pena de quem vai ler este livro, e também de quem não vai ler”

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Svetlana Aleksiévitch: “A Guerra Não Tem Rosto de Mulher” (2016, Companhia das Letras, tradução: Cecília Rosas)

A história das guerras costuma ser contada sob o ponto de vista masculino: soldados e generais, algozes e libertadores. Trata-se, porém, de um equívoco e de uma injustiça. Se em muitos conflitos as mulheres ficaram na retaguarda, em outros estiveram na linha de frente.

É esse capítulo de bravura feminina que Svetlana Aleksiévitch reconstrói neste livro absolutamente apaixonante e forte. Quase um milhão de mulheres lutaram no Exército Vermelho durante a Segunda Guerra Mundial, mas a sua história nunca foi contada.

Svetlana Aleksiévitch deixa que as vozes dessas mulheres ressoem de forma angustiante e arrebatadora, em memórias que evocam frio, fome, violência sexual e a sombra onipresente da morte.

Depois de uma experiência triste pela manhã onde me senti vulnerável e fragilizada pelo simples fato de ser mulher, passei o dia pensando sobre o assunto e introspectiva comecei a refletir sobre a situação de tantas mulheres na história, e o que aconteceu e acontece com todas nós diariamente.

À noite, um pouco antes de entrar no palco, um amigo do teatro me mostrou um vídeo no youtube ‘vozes esquecidas’, onde Déborah Falabella da voz aos relatos do livro “A guerra não tem rosto de mulher”, cada relato que ouvi me tocou de forma única, e me fez querer saber mais desta parte da história tão esquecida e por mim particularmente desconhecida.

Se me perguntassem antes eu jamais diria que a guerra tem rosto de mulher, mas estas mulheres fortes, nos mostram uma outra versão, um empoderamento feminino a partir da leitura que nos faz duvidar e questionar toda a história que nos contaram.

Quando se fala em guerra, há muito no imaginário coletivo, através dos filmes, e obras criadas. Somos bombardeados com heróis predominantemente homens, lutas épicas e muitas vezes até um toque de beleza, quando estudamos a guerra, vemos a questão econômica, geopolítica, mas ninguém discute sobre os sentimentos humanos a guerra não é bonita, a guerra não é limpa a guerra não é e não deve ser banalizada.

Durante toda nossa vida nos ensinaram que a guerra é feita por homens. Quantos filmes existem sobre a Segunda Guerra Mundial? E quantos deles nos mostram a participação ativa das mulheres?

Svetlana nos surpreende primeiramente por falar sobre a guerra na perspectiva russa e sobretudo na perspectiva da mulher. A censura e o incomodo que o livro trouxe está no fato de que a guerra sempre foi pintada sobre uma ótica gloriosa.

Acompanhando a visão da mulher na guerra, através de suas experiências, olhamos a história de uma forma diferente. Um livro que não fala tão somente de guerra, mas do ser humano no lugar do soldado, não fala sobre atos heroicos, fala sobre detalhes, um compilado que traduz o sofrimento humano.

Svetlana Aleksiévitch, nasceu na Ucrânia, escreveu muito durante sua vida, mas suas obras mais conhecidas são verdadeiros trabalhos de contribuição histórica que remonta a memória de um povo.

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Durante toda nossa vida nos ensinaram que a guerra é feita por homens. Mas Svetlana nos surpreende primeiramente por falar sobre a guerra na perspectiva russa e sobretudo na perspectiva da mulher…

A obra fascina de tal forma que foi laureada com o Nobel da Literatura em 2015, sendo que desde 1953 que uma obra de não ficção não alcançava esta marca. A Academia Sueca afirmou que os livros da jornalista são “um monumento ao sofrimento e à coragem” e ressaltou o caráter “polifônico” de sua obra.

A construção do livro é um pouco diferente dos padrões da literatura, porque é desenvolvido através da organização de depoimentos, capturados através de entrevistas de mulheres soviéticas que lutaram na Guerra.

O destaque dado na capa ao prêmio nobel, é algo para questionarmos se obras como estas chegariam até nós ou seriam traduzidas se não tivessem ganhado grandes prêmios, e pensarmos quantas obras são desconhecidas ou perdidas por este fato.

A originalidade de Aleksiévitch está no fato de dar voz a mulheres, francoatiradoras, médicas, pilotas, artilheiras, comandantes, tanquistas, entre outras, que participaram de uma guerra crucial; no esmero na sua pesquisa; no trabalho de descarte, onde decidiu o que incluir ou não ao livro e nas pequenas introduções que coloca antes de cada fragmento.

Ao usar as entrevistas nos atemos ao fato da criação da memória, o livro revela a importância da memória social contada pelas figuras que constroem o cotidiano, quando as mulheres estão nos espaços de fala, as perspectivas são apresentadas de forma que não poderiam ser acessadas de outra maneira. E isso se afirma especialmente por ser escrito por uma escritora, através destas vozes, podemos analisar a história e a vida de um outro lugar.

Os relatos são crus e violentos, uma realidade despida de heroísmo. As falas dão voz ao horror, extrapolam o limite, nos coloca a mulher exposta, a mulher que ama, a mulher que tem medo, a mulher de forma intensa, das trivialidades ao que está no mais profundo da pele, fala de morte, da subjugação e do incompreensível.

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A jornalista Svetlana Aleksiévitch nasceu na Ucrânia,  e foi laureada com o Nobel da Literatura em 2015, tendo seus livros adjetivados pela Academia Sueca como “um monumento ao sofrimento e à coragem”, que ainda ressaltou o caráter “polifônico” de sua obra.

Particularmente o relato que me deixou uma marca indelével, foi o de uma mãe encontrada na estrada após ter perdido os seus filhos que dizia que não podia viver neste mundo, só no outro, contando como jogou seu filho de colo de modo a mata-lo primeiro, para não ser fuzilado pelos fascistas.

Como se não bastasse toda a angústia da guerra, o terrível é perceber a marca que ela deixa depois que ela acaba, especialmente para as mulheres, o peso que carregam, a não aceitação e a marca social. Diante disto elas permaneceram em silêncio durante muito tempo.

Pensar em mulheres combatendo na guerra é algo que requer certo esforço pelo que fomos ensinados, pois o feminino ainda ocupava um lugar profundamente conservador nessa época.

É de extrema importância ler livros assim onde o extremismo e o conservadorismo são fatos, pois infelizmente este retrocesso se repete de muitas formas nos dias de hoje. Um livro forte; dolorido; indigesto; surpreendente necessário, um livro que consegue ‘dizer o indizível’, um grito a vida, a humanidade, as mulheres; “É necessário que isso fique, precisamos transmitir, em algum lugar do mundo nosso grito deve ser guardado, nosso berro!”

 

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