HQ: “Meu Amigo Dahmer”, de Derf Backderf

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Derf Backderf: “Meu Amigo Dahmer” (2012, 2017, Darkside Graphic Novel)

Já pensou ser amigo de infância de um serial killer? 

Pois é exatamente isso que aconteceu a Derf Backderf, artista dos quadrinhos independentes que dividiu sua adolescência com Jeffrey Dahmer, que foi preso em 1991 por crimes em série que envolviam atividades nefastas como assassinato, abuso sexual, necrofilia e canibalismo.

Antes de entrar na faculdade, em 1978, e se tornar, futuramente, um quadrinista, Derf conviveu com Dahmer nos últimos anos escola, sendo exatamente este período pré-criminoso de Dahmer, e da “amizade” que existia entre ambos que é narrado nesta graphic novel lançada agora no Brasil pela Darside Books, em seu selo dedicado aos quadrinhos.

“Meu Amigo Dahmer” demorou vinte anos para ser concluída e nasceu apenas com oito páginas, após o assassinato do cruel Jeffrey Dahmer, em 1994, enquanto cumpria suas dezesseis penas de prisão perpétua pelos dezessete assassinatos de rapazes, entre quatorze e trinta e um anos, entre os anos de 1978 e 1991, no estado norte-americano do Wisconsin.

Posteriormente, “Meu Amigo Dahmer” foi esticada para uma graphic novel lançada de modo independente, com vinte e quatro páginas  (incluída nos extras da edição da Darkside), até chegar a este formato que temos em mãos, com mais de cem páginas.

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Na verdade, a versão em vinte e quatro páginas de “Meu Amigo Dahmer” nasceu após três anos de recusas em suas tentativas de vender a obra completa. O que é compreensível, afinal, a figura do assassino em série era muito viva e nefasta na mente do público naqueles dias, o que poderia gerar um efeito contrário, apesar de bandas como Pearl Jam (em “Dirty Frank”) e Slayer (em “213”) terem usado-o como temas para sua músicas.

Opinião que foi contrariada quando a “Meu Amigo Dahmer” virou clássico cult, traduzida para inúmeras línguas e usada com base para alguns documentários, além de virar peça de teatro em Nova York, sendo indicada ao prêmio Eisner (raridade no ramo independente) e recentemente ganhou uma adaptação para o cinema.

Essa edição que temos em mãos é a versão completa da narrativa, com desenhos personalíssimos, narrativa gráfica que se destaca já na primeira página do prólogo, e roteiro fortemente amparado por pesquisas, além extras comentados, no que poderia ser visto como a edição definitiva de “Meu Amigo Dahmer”.

Sobre Dahmer, ao contrário do que circulou em alguns livros e documentários, apesar das aparências, esta obra quebra a certeza de que ele teve uma infância feliz e uma família estável.

Muito pelo contrário! Somos açoitados pela negligência e abandono com alguém que lutava contra seus demônios, uma sexualidade incerta, e até mesmo abusando da bebida na escola como forma de fuga desta realidade, com brigas paternas frequentes, uma mãe com problemas psicológicos sérios, bullying e um lar desfeito.

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Derf inclusive nos aconselha a ter pena, mas não empatia por Dahmer, tirando o estigma de anti-herói que muitos tentaram imprimir em sua imagem, como alguém que contra-atacou a sociedade que o maltratava, referenciando-o inclusive como “o serial killer mais perverso desde Jack, o Estripador”.

Conheça a história de Jack, O Estripador, nesse post inteiramente dedicado a ele. 

Ao mesmo tempo em que Dahmer é mostrado como fruto de um meio conturbado, fica claro também que a dor dos outros lhe dava alegria, sendo incapaz da empatia. Estas páginas em preto-e-branco ainda explicitam o modo, pela ótica de Derf, como ele se tornaria um monstro, documentando o processo e conjecturando sobre as razões.

Indiscutivelmente, Dahmer tinha seus talentos, que foram desperdiçados pelo caminho tomado por sua vida, primeiro tentando a fuga pelo álcool para as angústias de um jovem conturbado e negligenciado num lar esfacelado, e depois para afogar seus desejos que o incomodavam, mas que cresciam junto a turbulência de seu meio, e sua idade. Nas palavras de Derf, “seu mundo estava ruindo junto com sua sanidade”.

Existe também um paralelo interessante das oportunidades que Derf teve, com uma família estruturada e um sólido grupo de amigos, e que Dahmer não teve em sua plenitude, num abandono que somente reforçou as sombras de sua personalidade.

Quando pai de Jeff Dahmer percebeu o estado do filho ainda adolescente, por volta de 1978, o monstro já havia crescido e mandá-lo para o exército, como foi o caso, já não adiantaria mais.

Confira uma entrevista com Jeff Dahmer…  

Apesar de mencionar eventos futuros, Derf se concentra no período em que conviveram, com fotos da época de colégio, até ele fazer sua primeira vítima, aos dezoito anos. Dahmer abordaria homens jovens em bares gays, oferecendo dinheiro para fotografá-los em seu apartamento, onde eram assassinados.

Até que em 1991, a polícia encontra um homem algemado em uma das mãos andando pela rua que os levou até a residencia de Dahmer, onde foram descobertas as provas de sus crimes.

Dahmer chegou a ser preso antes, mais de uma vez, por exploração de menores e abuso sexual, sendo incluído na graphic novel uma abordagem da polícia em uma estrada de sua cidade natal, contestada até os dias de hoje, pois os sacos com os restos mortais esquartejados de sua primeira vítima estavam no porta-mala do carro, sendo vistos pelos policiais, que são taxados de negligentes pois o cheiro deveria estar flagrante.

Muito além de um clássico da nona arte, “Meu Amigo Dahmer” é um documento histórico construído por memórias particulares, estrevistas, transcrições de depoimentos do próprio Dahmer, e a biografia de seu pai.

Obrigatório!

Confira o trailer da adaptação cinematográfica… 

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