HQ: “Lavagem” (2016), de Shiko

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Shiko: “Lavagem” (2016, Editora Mino)

“Em sua casa às margens de um mangue, separado do resto do mundo pela maré, um criador de porcos e sua mulher devota recebem uma visita inesperada.” Pode parecer um roteiro simples, que remete inclusive ao clássico “A Mão do Macaco”, de W. W. Jacobs, mas “Lavagem”, história em quadrinhos roteirizada e ilustrada pelo multifacetado Shiko, é um conto de terror acachapante, construído com brutalidade e intensidade, tanto no roteiro quanto na arte, dotado de perspicácia oriunda das ironias provocadas pela dualidade entre bem e mal, sagrado e profano, real e fantástico.

A HQ nasceu à partir de um curta-metragem de mesmo nome, produzido e dirigido pelo próprio Shiko, que também acumula as atividades de grafiteiro e ilustrador, além de diretor de curta-metragens e autor de quadrinhos, o que explica os diferentes recursos muito bem utilizados, como o ritmo cinematográfico, com cortes e enquadramentos dinâmicos.

A personagem principal é mais uma analfabeta marginalizada, que se divide na hipocrisia de temer a Deus, seguindo a teologia da prosperidade dos pastores que regam sua fé na televisão, e se refestelar no pecado do adultério. Seu marido, endurecido pelas agruras da vida, se entende melhor com os porcos e parece ter consciência da traição da esposa.

Confira o curta-metragem que inspirou a HQ…  

A história da “Irmã” não é nada demais num país onde histórias similares e até piores do que essa borbulham no nosso caldo de desigualdade social. O que diferencia a trama é a “chegada” do suposto arauto do Senhor, enviado pelo Próprio a uma casa que necessita de sua palavra, anunciada pela estática que silencia o pastor na televisão.

Por meio de uma arte crua, que assassina a limpidez do papel com virulência, ferocidade e uma dose de vulgaridade, somos impactados pela rusticidade e incisividade dos diálogos, que deixa mais subjetividade do que obviedades, escondendo camadas de discussões sociais pertinentes em meio a narrativa que mistura classicismos do gênero (além do já citado clássico de Jacobs, também temos remissões ao filme “Poltergeist”) com uma dose de “insalubridade” na melhor escola Clive Barker no primeiro plano, cercado de referências bíblicas, cinematográficas e à cultura popular brasileira.

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Oriundo do sertão paraibano, Shiko tem um olhar perspicaz para “fotografar” sua narrativa, além de ser dotado da sabedoria de usar bem sua arte como forma de climatizar e controlar a tensão de sua trama, bem como pincelar com destreza o aspecto onírico provocado pelo gatilho sobrenatural.

Ainda se vale de ingredientes como traição, pobreza, exclusão, fanatismo religioso, hipocrisia e loucura num trabalho que tira o ar como um soco no estômago, e desnorteia como uma paulada na “moleira”, mas também seduz e envolve pelo fascínio profano causado pelo tensão e pela violência iminente.

No final, fica a dúvida se testemunhamos uma visita sobrenatural ou uma descarga pontual da loucura de uma mulher simples que chegou ao seu limite, numa alegoria mundana cheia de camadas que deságua numa infinitude de interpretações filosóficas.

Um colosso da nona arte nacional!

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