Holocausto Brasileiro: Gritos de realidade diante de nosso silêncio!

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Por Laira Arvelos

 

“Vergonha de ser gente, vergonha de ver o que é possível fazer com o outro”

 

Choque, repulsa, raiva, vazio e choro são algumas das reações ao ler este livro, ao assistir o documentário de mesmo nome, ao assistir alguns filmes que retratam a temática, ao ouvir relatos, ao ver os retrocessos, ao ver tanta dor, tanto abandono e tanta brutalidade.

O que fizemos e fazemos aos ‘indesejáveis sociais’?

O que deixamos acontecer em nome de uma suposta periculosidade e higienismo?

Quem é louco?

De quem é a culpa desta mancha infame de nossa história?

Como vemos em Holocausto Brasileiro; a culpa é coletiva.

Daniela Arbex, tem mais de 20 prêmios nacionais e internacionais no currículo, entre eles Esso, o americano Knight International Journalism Award (2010) e o prêmio IPYS de Melhor Investigação Jornalística da América Latina (2009).

Há 20 anos trabalha no Jornal Tribuna de Minas, onde é repórter especial. Com Holocausto Brasileiro, ganhou o prêmio de Melhor Livro-Reportagem do Ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (2013) e segundo melhor Livro-Reportagem no prêmio Jabuti (2014).

Com mais de 300 mil exemplares vendidos no Brasil e em Portugal, a obra ganhou as telas da TV, em 2016, no documentário produzido com exclusividade para a HBO, com exibição em mais de 40 países.

Holocausto Brasileiro Daniela Arbex
“Holocausto Brasileiro”, de Daniela Arbex. (2013, Geração Editorial)

Holocausto Brasileiro é um livro-reportagem que retrata a história ocorrida no Colônia, o maior hospício do Brasil, em Barbacena- MG. Fundado em 1903, tem entre os anos de 1930 e 1980 seu período de intensa atrocidade.

Dividido entre os relatos dos sobreviventes e a opinião de Daniela, a autora chega onde nenhum outro repórter chegou e conta a macabra história deste repositório de vidas. Um lugar que era para promover o cuidado ao portador de sofrimento mental, recebia a “escória da sociedade”.

Dos internos, 70% não tinham problemas mentais; eram meninas grávidas estupradas por seus patrões, prostitutas, alcoolistas, homossexuais, tímidos, filhas solteiras de fazendeiros que não eram mais virgens, epiléticos, gente que se rebelava gente que se tornava incômoda para alguém com mais poder, gente que não tinha documento. Para ser levado para o manicômio não era preciso nenhum critério ou indicação médica.

Atulhados em um trem chegavam ao Colônia de diversas regiões para sofrer choques elétricos, lobotomia, frio, fome, tomar água de esgoto, ter moscas no corpo, pele queimada, banhos gelados, andar nu ou em trapos, ser escravizado, morrer de doenças curáveis, e finalmente ter seu corpo comercializado para faculdades de medicina.

Como ficar indiferente a esta situação?

Como o Estado e a população fechou seus olhos diante deste quadro grotesco e bárbaro por tanto tempo?

Daniela com esta obra consegue resgatar a memória dos afetados por esta tragédia, registrando a história para que conheçamos e jamais cruzemos os braços ou fechemos os olhos diante de qualquer retrocesso.

Como um dos lemas da luta antimanicomial já ressalta, para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça: por uma sociedade sem manicômios.

A capa e livro tem fotografias tiradas naquela época, principalmente as do fotógrafo Luiz Alfredo. Elas nos revelam a crua realidade a qual vamos sendo alquebrados, pouco a pouco.

Com roteiro e direção da própria Daniela e inspirado no livro esta história e rememorada, de forma dura e muito bem produzida, em documentário (2016), pela HBO (que você pode assistir na íntegra no fim do texto). Armando Mendz também assina a direção.

Assim como o livro o documentário nos tira o conforto nos mostrando o desagradável, mostrando a banalização do mal, a situação de tantas pessoas que foram condenadas em vida, um holocausto; 60 mil vítimas.

Apresenta-nos fatos e relatos que nos permitem conhecer estas pessoas: a sua saudade: “Eu tô com saudade do meu pai, até hoje”, muitos ao deixarem seus parentes lá, mudavam de endereço. Suas necessidades:“_ O moço, você quer ser meu pai?”. Suas perdas: “Você esta com quantos anos?” “ _ Eu não sei mais não”.

Ver os jornalistas, fotografias e envolvidos dão dimensão assim como o livro, é mostrado como em um bom jornalismo as diferentes partes de uma história e como muitas vezes é difícil de reconhecer sua participação nesta tragédia.

Mas nada nos machuca e nos transporta a reflexão quanto ao ver estas pessoas tendo seu lugar de voz pela primeira vez, de escolha, seu lugar de história e as marcas que possuem diante de um mundo que tanto tirou em sua vida.

Citado no documentário, com esta temática de denúncia, o sensível “Em Nome da Razão – Um filme sobre os Porões da Loucura” (que você pode assistir na íntegra no fim do texto), de 25 minutos e produzido em 1979, em preto e branco, narrado pelo psiquiatra Antônio Simoni, nos transporta a sentir a dor dos pacientes.

Filmado em quase toda sua totalidade dentro do manicômio barbacenense foi a primeira vez em que uma câmera cinematográfica esteve dentro de um manicômio no país. Helvécio percorria todos os pavilhões e ambientes do hospital.

O diretor ainda diria que o objetivo do hospital nunca foi a cura ou a recuperação, mas sim o controle. Sem percepção do tempo, sem higiene, muro, degradação, anormalidade e ócio. “O único caminho que resta é a morte”.

Conhecemos as histórias silenciadas destas pessoas, duas das crianças deste documentário são sobreviventes que aparecem no documentário de Daniela.

Canto dos Malditos Austregésilo Carrano Bueno
“Canto dos Malditos”, de Austregésilo Carrano Bueno (2001, Editora Rocco)

Um livro e filme que nos mostram outra face desta estarrecedora parte de nossa história é o livro “Canto dos malditos” e o filme baseado na obra, “Bicho de sete cabeças”, que narra a trajetória de Austregésilo Carrano Bueno, filho de classe média de uma família curitibana que pelo simples fato de não ter diálogo na relação familiar fez com que ele passasse uma vida de internação em um hospício após seu pai descobrir que ele usava maconha.

No livro, Carrano escreve suas memórias dos mais de três anos que ficou internado em hospitais psiquiátricos do Paraná e Rio de Janeiro, denunciando a realidade dos manicômios: medicação em excesso. Além da experiência do trauma das 21 aplicações de eletrochoque, cujos efeitos até hoje ele sente em sua saúde.

A adaptação do livro para o cinema, em 2001, intitulada “Bicho de Sete Cabeças”, da diretora Laís Bodansky e do roteirista Luiz Bolognesi, conta com história bem dirigida e protagonizada por Rodrigo Santoro, sendo um filme necessário para que se tenha conhecimento da realidade de muitos usuários de drogas que foram levados à internação para conseguirem parar o uso.  Porém não retrata o tom de ódio e desabafo de Carrano.

Destaque para atuação dos internos do hospital psiquiátrico e da belíssima trilha sonora com a incrível música de Geraldo de Azevedo, Zé Ramalho e Renato Rocha: “Bicho de Sete Cabeças”.

Um outro belíssimo filme que abarca esta temática é o sensível “Nise – O Coração da Loucura”, dirigido por Roberto Berliner, e protagonizado por Glória Pires narra um pouco da trajetória de Nise, esta mulher que revolucionou a forma de tratar pessoas com sintomas psicóticos. A cura pela arte.

Mostra como ela enfrentou os desafios e preconceito no bairro do Engenho de Dentro, no Centro Psiquiátrico Pedro II ao ser levada ao menosprezado setor da terapia ocupacional, ela promove a dignidade aos seus clientes: “Pacientes não! Nós que devemos ser pacientes com eles, pois estamos a serviço deles. Eles são nossos clientes!”.

Enxergando a individualidade de cada um, de forma ousada Nise transformou o Engenho de Dentro inserindo a arterapia, mudou a vida de muitos.

Lindo ver como os animais podem e tem grande papel terapêutico na vida dos pacientes e estes são também os protagonistas de umas das cenas mais revoltantes do filme e curioso ver a relação desta mulher a frente do seu tempo com o psiquiatra Carl Jung.

Holocausto Brasileiro e todas estas obras são extremamente difíceis de ver ou ler. São um grito de realidade diante de nosso silêncio. Desassossegam. Porém são profundamente necessárias para que a nossa ignorância e indiferença não seja maior do que nossa capacidade de cuidar e respeitar o outro.

O dia 18 de maio marca a comemoração do movimento da Luta Antimanicomial no Brasil como um ator social privilegiado que, incluindo usuários, trabalhadores e familiares de todo o País, conseguiu, desde os anos 80, impulsionar e fazer acontecer a Reforma Psiquiátrica brasileira.

Esse processo, desde então, vem produzindo intensas e complexas transformações no âmbito das políticas públicas de atenção em saúde mental e de reconhecidos avanços políticos, normativos e assistenciais.

Apesar das conquistas, esta história serve para que permaneçamos em alerta, mas que mantenhamos a esperança e força de que o cuidado em liberdade e o respeito da individualidade do outro deve ser mantida.

Que somos capazes de conviver as diferenças e combater a opressão. Estas obras nos incomodam, nos desestabilizam, nos perturbam… o que fica é uma imensa necessidade de reparo e que nunca ninguém passe por nada parecido.

É preciso cuidado, é preciso respeito, é preciso informação.

 

Confira o documentário completo, produzido à partir do livro “Holocausto Brasileiro”…

 

Confira o documentário de Helvécio Ratton, “Em Nome da Razão – Um filme sobre os Porões da Loucura”, lançado em 1979,  a primeira vez em que uma câmera cinematográfica esteve dentro de um manicômio no país!

 

Confira o trailer do filme “Bicho de Sete Cabeças”.

 

Confira o trailer de “Nise – O Coração da Loucura”.

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