ATUALIZANDO A DISCOTECA: Gosostsa, “O Sol Tá Maior III” (2018)

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Gosotsa O Sol Tá Maior III - EP (2018) 1
Gosotsa: “O Sol Tá Maior III” (2018, Independente) NOTA:8,5

O trio Gosotsa (nome inspirado numa corruptela de “Gostosa”), formado em torno de Drannath (Baixo, piano e voz), ex-Bastardz, se apresenta como agente de uma revolução artística, prometendo “sacudir as esfinges corroídas pelo tempo e que consolidaram a pasteurização e ortodoxia da produção artística em geral, onde as fórmulas já não servem mais e a fadiga criativa, de maneira geral, é mais que evidente”.

E verdade seja dita, o Gosotsa não se priva da ousadia – ao menos no que tange ao visual e às mensagens das letras – em busca de seu objetivo, assumidamente ambicioso: “nada menos que mudar o mundo através de uma obra (r)evolucionária e disruptiva sob todos os aspectos, sejam eles estéticos, formais ou líricos.”

Um objetivo com aroma de utopia, mas que serve de honesta força motriz para uma libertina proposta musical, que não se atém a cânones estílicos, usando a fricção de melodias e atonalidades para construir  “O Sol tá Maior III”.

Estética e estruturalmente a música que o Gosotsa apresenta em “O Sol tá Maior III” é quase incômoda de tão desconstruída. A faixa de abertura, “Caminhão de Salto Alto”, já tem uma atonalidade que causa fascínio e estranheza.

E assim vai ser o tempo todo. Estranheza pela timbragem suja e áspera, pela direção aparentemente desordenada dos instrumentos e pelas construções nada ortodoxas.

Mas é fato que existe muito fascínio na profanação de dogmas, no caos desejado, na loucura da entropia de atritos entre oximoros, não só na música, pois a proposta artística aqui é multidisciplinar. Música, poesia, e teatro.

A impressão que tive ao ouvir estas sete composições em pouco menos de vinte minutos foi a de uma versão do Sonic Youth executando uma paráfrase avant-garde jazz do Motley Crue(“Fungus Mudus” e “Caminhão de Salto Alto” são evidencias disso).

Lembra do atrito de oximoros? Pois então… Dão guitarras derramando acordes vigorosos como granizo no meio de uma tempestade de voz insanas.

“Que Babe”, vem na sequência de “Caminhão de Salto Alto”, como uma faixa primitiva, crua e ultrajante, mas a ruptura com métricas e padrões harmônicos que ela propõe é de abrir a mente à fórceps, enquanto com um sorriso só conseguimos pensar: “isso é arte!”.

O trio desconstrói, reconstrói, quebra e vira do avesso, ousa, provoca (ouça a curta e teatral “Meio Vazio” e a gaita de “Tocar de Luas”) numa forma tão abstrata que chega a ser hermética enquanto toca a fronteira anti-música.

O que nos leva a pensar que “isso é arte! Mas é ultrajante!”.

Até nas letras fogem do usual abordando temas indigestos como aborto e drogas, passando por reflexões psicológicas, cotidianas e pessoais, sem amenidades ou eufemismos. Tudo aqui é crú, até a produção.

Principalmente a produção, mas até ela com suas texturas ásperas, rústicas e pujantes faz parte do “espetáculo do absurdo” que o Gosotsa propõe, com dramaticidade de um louco. E não dizem que tudo que é genial é um pouco insano?

As linhas vocais por exemplo, não tentam em momento nenhum criar harmonias melódicas marcantes, ou refrãos (o que isso mesmo?) envolventes.  “Tocar de Luas”, por exemplo, traz vocais que soam como risadas nervosas de um doidivanas, que se repetirão em “Peito Aberto, Absorto”, – um blues ? – onde a fórmula funciona melhor.

Claro que para muitos essas músicas causarão desconforto  e será mais fácil maldizer “O Sol Tá Maior III” do que refletir sobre a proposta artística, a ruptura – nada inédita, é verdade, ao menos musicalmente o jazz já o fez antes-, a rebelião inconformista do Gosotsa.

Gostar ou não vai da preferência pessoal, mas não há como negar que estas sete composições cumprem seu papel de sair do lugar comum, mas sem usar o artifício “intelectualóide” de divagar significando qualquer coisa ou nada.

Não vejo aqui um harpa eólica de pretensiosidade roqueira, muito menos um exercício de celebração da anti-música.

Ok! O trio Gosotsa também está longe da prosa refinada e da construção engenhosa.

Mas aqui, em “O Sol Tá Maior III”, as palavras se fazem movimento e criam uma geometria musical assimétrica que tange o abstrato, e, de fato, um abismo de silêncio se escancara ao fim do trabalho que assassinou o silêncio com energia feroz e vulgar.

O que me faz pensar (longe de querer ser pretensioso ou prepotente) que “O Sol Tá Maior III” não é para qualquer ouvido, assim como Marcel Duchamp, Gustave Coubert e até mesmo a fotografia de Malena Mazza não são plenamente compreendidas por quaisquer olhos.

Mas “O Sol Tá Maior III” traz uma música que me fez pensar e sair da zona de conforto!

O mais importante! Me fez pensar.

Isso é arte…

TrackList

1. Caminhão de Salto Alto
2. Que Babe
3. Fungus Mudus
4. Meio Vazio
5. O Sol Tá Maior
6. Tocar de Luas
7. Peito Aberto, Absorto

FORMAÇÃO

Drannath (Baixo, piano e voz)
Malu Gubolin (Guitarra)
Élitra (Bateria)

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