FILME: “A Bruxa” (The Witch, 2016)

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Por Ricardo Leite Costa

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“A Bruxa”(2016, Universal Studios. Direção: Robert Eggers) Nota:9,0

Esse texto tem muito mais caráter de desabafo do que propriamente crítica, aliás, funciona como ambos. A figura da bruxa sempre povoou o subconsciente de todo mundo como o esteriótipo do perverso, do ardiloso. No meu caso, tenho duas fases da minha vida em que a funesta personagem teve sua importância.

A primeira foi na tenra idade, na infância impúbere. Durante muito tempo tive minhas noites de sono infernizadas pela caricata e sombria figura.

Em meus pesadelos, havia momentos nos quais ela se materializava no formato padrão Disney (olhos esbugalhados, verruga na extremidade do nariz aquilino, cabelos desgrenhados e unhas compridas e afiadas, ornamentando as extremidades de dedos finos e longos).

Eu ficava imóvel, paralisado de pânico, não podendo emitir um mísero gemido, enquanto a desgraçada acarinhava meu corpo, emitindo uma sórdida e estarrecedora gargalhada. Juro que ainda hoje, no alto de meus 43 anos, a simples menção desses pesadelos me causa um arrepio na base da nuca.

O segundo episódio, esse bem mais recente, aconteceu à época do lançamento do primeiro “A Bruxa de Blair”. Muito se falou. A publicidade foi maciça. Uma estratégia inteligente e grandiosa de marketing promovia um filme que fora concebido de forma totalmente amadora e despretensiosa.

No longa, jovens documentaristas, em meio a uma expedição à floresta onde supostamente habitava a famigerada bruxa do título, desapareciam misteriosamente, deixando para trás os registros da expedição, que foram encontrados por outra equipe. Premissa muito semelhante ao clássico “Cannibal Holocaust”, de Ruggero Deodato. A diferença é que, no caso do diretor italiano, funcionou que foi uma beleza, ao contrário desse lixo travestido de película inovadora.

Confira o trailer do filme…

Nesse caso, o episódio foi marcado por ódio e repúdio deste redator que se contorcia na cadeira do cinema durante os intermináveis 90 minutos da projeção. A sensação de ser enganado, ludibriado, me causou um impulso quase que incontrolável de embarcar no primeiro voo para os E.U.A. a fim de encontrar os responsáveis por tamanha atrocidade, dar-lhes uma surra de mão aberta até caírem, e voltar para cá com a alma lavada e com justiça feita.

“A Bruxa de Blair” me fez estabelecer, durante muito tempo, um sistemático boicote a todo e qualquer filme que ostentasse “bruxa” em seu título e ainda hoje não ficou muito bem claro se o trouxa sou eu, por ter ojeriza de uma obra supostamente inovadora e subversiva, ou toda a população mundial por ter comprado a ideia.

Pedindo sinceras desculpas pelo longo devaneio introdutório e voltando aos dias atuais, em 2016, segundo críticas bastante efusivas e favoráveis, estava lançada a obra definitiva abordando este conceito. “A Bruxa”, primeiro filme do diretor Robert Eggers surgiu cercado de expectativas.

“O filme que fez Stephen King se borrar de medo”, entre outras patacoadas eram disseminadas como publicidade favorável ao longa. Eu ainda continuava cético, mas após um tempo, depois de todo aquele reboliço inicial, resolvi engolir o orgulho e dar uma chance ao trabalho. Sábia decisão, eu diria.

No século XVII, uma família é julgada e expulsa do vilarejo onde residem acusados de bruxaria. Sendo obrigados a se mudarem, vão morar próximo a uma floresta, onde estranhos e inexplicáveis eventos começam a tomar forma, a partir do momento que o filho mais novo do casal desaparece de forma misteriosa.

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A atriz Anya Taylor -Joy, que interpreta a filha mais velha do casal William e Katherine, Thomasin, é um talento nato…

Como pai de quatro crianças, esse episódio já foi mais que suficiente para me eriçar os pelos do sovaco. Em sua estréia como diretor e roteirista, Robert Eggers consegue dosar em sua trama elementos de religião, misticismo e a ação dos próprios elementos da natureza na construção de uma história macabra, que investe muito mais no terror intuitivo e psicológico, do que em vísceras e banhos de sangue a cada segundo.

Eggers consegue extrair horror de uma simples mata fechada, ou do surgimento abrupto de algum animal pelo caminho. A família protagonista da trama, o casal William e Katherine e seus cinco filhos, formam um núcleo familiar devastado, rompido pelo fanatismo e culpa pelas intempéries que se sucedem ao longo da trama.

Tudo começa a conspirar contra a humilde família de camponeses: a colheita falha resulta em escassez de alimento, o que acarreta em fome e em um grupo de pessoas fragilizados por aquele ambiente e situação inóspitos.

Aliado a isto, o desaparecimento de Samuel, filho mais novo do casal, em circunstâncias inexplicáveis, começa a levantar indícios de que forças ocultas seriam responsáveis pelas mazelas que assolam os pobres fazendeiros. E é aí, meu querido, que você será submerso em uma sucessão de eventos crescentes até chegar ao clímax mais aterrador dos últimos tempos da história do cinema.

A bruxa do título pode ser tanto a personificação típica da maligna feiticeira das histórias, como também uma metáfora de toda desgraça que recai sobre a família. Outro aspecto louvável da produção é a utilização de efeitos práticos analógicos ao invés de toneladas de C.G.I. frenético, que confere mais veracidade às cenas.

A fotografia sombria, a iluminação natural, mesmo nos takes mais escuros e a trilha sonora assustadoramente eficaz de Mark Korven, fazem de “A Bruxa” um filme a ser respeitado. Atenção também para a reviravolta na história, que redobra a culpa dos eventos em um dos personagens principais, e a presença do “mascote” da família em momentos cruciais na trama.

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O diretor e roteirista Robert Eggers consegue extrair horror de uma simples mata fechada, ou do surgimento abrupto de algum animal pelo caminho, dosando em sua trama elementos de religião, misticismo e a ação dos próprios elementos da natureza na construção de uma história macabra…

O elenco sofreu uma intensa preparação física e psicológica para convencer no resultado final. Ralph Ineson, que interpreta William, emagreceu 11 kgs para conferir um aspecto sofrido/desnutrido convincente ao seu personagem. Anya Taylor -Joy, que interpreta a filha mais velha do casal, Thomasin, é um talento nato, bem como Harvey Scrimshaw, que certamente é o ator mirim mais talentoso da nova safra das crianças em filmes de horror. As cenas envolvendo seu personagem, Caleb, são intensamente realistas, e o garoto transmite toda a densidade dramática necessária ao papel. O desfecho de sua trajetória no longa é algo que me acompanhou por muitos dias. Realmente impressionante.

“A Bruxa” não é um filme concebido para dar sustos a cada segundo, como naquelas narrativas caóticas, mas quando o faz causa desconforto e apreensão. Há tempos um filme não me prendia na poltrona como este. E a bruxa realmente aparece? Sim, mas de forma rápida, porém é o suficiente pra reacender todo o terror que eu sentia desta nefasta criatura na infância, e o final entrega aquilo que promete e nos faz pensar: “eita porra”. Uma reviravolta meio que esperada, mas muito bem conduzida.

Ocultismo, fanatismo religioso e degradação humana. Elementos imprescindíveis para uma boa história de horror, e “A Bruxa” consegue esse feito. E, seguindo a premissa de que terror é feito pra aterrorizar, a produção obteve todos os méritos. O filme de bruxa definitivo.

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