ATUALIZANDO A DISCOTECA: Eric Clapton, “I Still Do”

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Eric Clapton: “I Still Do” (2016, Surfdog Records, Universal Music Brasil)

Em meados da década da passada, Chuck Klosterman registraria em seu livro “Killing Yourself To Live – 85% of a True Story” que Eric Clapton era um dos nomes mais superestimados da história do rock.

Vejamos! Clapton foi nomeado por três vezes ao Hall da Fama do Rock (com o Yardbirds, com o Cream e na carreira solo), sem contar a nomeação indireta com o Traffic. Não obstante, sua inquietude musical foi imprescindível para a aurora do Heavy Metal, sendo um dos nomes principais nomes que imprimiram peso aos acordes menores do Blues Rock, no Cream e, muito antes de emergir numa prolífica carreira solo que nos brindou com ao menos quatro obras-primas e uma gama de excelentes álbuns, seu nome já era escrito nos muros ingleses reverenciado sua técnica e feeling como a de um deus da música! Isso tudo, sem falar dos históricos álbuns isolados das bandas Blind Faith e Derek And The Dominos.

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Hoje, com o caminho percorrido na história do rock e como um dos últimos grandes de sua geração, era de se esperar que Clapton deitasse em sua zona de conforto e não se preocupasse em fazer composições relevantes para a música moderna. Todavia, seu novo álbum vem com a clara mensagem no título: “Eu ainda faço”!

E a faixa de abertura, “Alabama Woman Blues” (canção de Leroy Carr, que tem cara de Blues aos moldes dos grandes mestres, com linhas vocais lamentosas, guitarras sinuosas, piano lamurioso, Hammond onipresente e um bem sacado acordeom fazendo as vezes de Harmônica) nos mostra que Clapton não foi nem um pouco pretensioso ao batizar seu novo álbum, que mistura bem as raízes de sua obra com algumas explorações inteligentes e solos de guitarra inspirados.

A retomada da parceria com o produtor Glyn Johns [mesmo do clássico “Slowhand” (1977)] foi peça-chave para a brilhante e límpida sonoridade, com o DNA de Clapton nas guitarras cheias de alma, mas com um sabor diferente do usual, muito em decorrência das performances ao vivo em estúdio, que inclui alguns overdubs pontuais simplesmente por causa do perfeccionismo do produtor.

A versatilidade de estilos impera no álbum, passando por estilos que Eric explorou ao longo de sua inquieta primeira década da carreira em inúmeras e influentes bandas, como o country rock (“Can’t Let You Do It”, de JJ Cale), Soft Rock setentista (“Catch The Blues”, uma das composições originais para o álbum), Blues puro e ao melhor estilo de Chicago (“Cypress Groove”, do mestre esquecido Skip James), spiritual com backing vocals angelicais (“I’ll Be Alright”, uma tradicional canção americana famosa na voz de Billie Holiday) e jazz (“I’ll Be Seeing You”, um standard jazzístico dos mais clássicos), tendo como destaque máximo a faixa “Spiral” (outras das autorais), uma curvilínea e densa balada bluesy que remete ao saudoso Gary Moore.

Confira o clipe do destaque máximo do álbum, a faixa “Spiral”, uma curvilínea e densa balada bluesy que remete ao saudoso Gary Moore.

Uma das faixas mais interessantes do álbum é uma versão para “I Dreamed I Saw St. Augustine”, de Bob Dylan, simplesmente por ser fato conhecido que Clapton é um grande admirador do artista (inclusive dizendo que “Not Dark Yet”, do álbum “Time Out of Mind” é uma das mais belas canções que já existiram) e nunca obteve sucesso quando tentou registrar composições de Dylan. Outra faixa marcante é “Stones In Passaway”, uma composição de Robert Johnson que ele sempre executava ao vivo, mas nunca registrara em um álbum, ganhando um pouco mais de agressividade nas linhas de bateria.

Um alquimista da guitarra, Clapton ainda manufatura em suas seis cordas, uma fusão de Blues, Classic Rock, Country Rock com sua técnica limpa, desenvolvida a partir de um violão velho e de braço torto, quando ainda era um infante e delirava com os clássicos do Blues, refletindo neste álbum o que ele é neste momento, mas podendo ainda soar como uma despedida, segundo ele próprio.

Confira o clipe para a faixa “Can’t Let You Do It”, composta por JJ Cale.

Clapton recentemente confessou que nunca estivera em meio ao ambiente do Delta do Mississippi, por onde os grandes do blues caminharam. Sempre ia fazer shows, mas nunca se demorava, pois “nunca quis acabar com a magia do mito”. Hoje, aos 71 anos, como um Dorian Gray do blues/rock, Clapton marca a magia de seu mito em um retrato que estampa sua mais recente obra (pintada pelo mesmo artista que idealizou e confeccionou a capa do álbum “Sgt. Peppers …”) que nos diz que ele ainda faz a diferença para a boa música!

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