ATUALIZANDO A DISCOTECA: Dysnomia, “Anagnorisis” (2018)

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Dysnomia-album-Anagnorisis-2017 THRASH METAL DEATH METAL
Dysnomia – “Anagnorisis” (2017, Independente) NOTA:9,0

Houve um tempo de mais rigidez estílica em que uma banda como o Dysnomia teria problemas em se encaixar dentro do heavy metal, simplesmente por ser death metal demais para o thrash metal, ao mesmo tempo que transita demais pelo thrash metal para ser rotulada como uma banda de death metal.

Mas, hoje em dia, isso só nos motiva a mandar às favas os rótulos e simplesmente perguntar se essa condição representa uma crise de identidade, de personalidade musical?

De modo veemente posso garantir que esse não é o caso!

Na verdade, este caminho senoidal entre thrash death metal diz mais sobre a versatilidade do Dysnomia e sua capacidade de caminhar com fluidez pelos subgêneros do metal extremo, variando peso, velocidade, melodia e texturas.

Isso por uma bem-vinda desobediência de regras já simbolizada na figura estilizada da Medusa que aparece na capa de “Anagnorisis”, seu segundo disco, e no próprio nome da banda, emprestado da divindade grega ligada à ruptura de conceitos pré-estabelecidos.

Por tudo isso, o Dysnomia, quarteto da cidade de São Carlos-SP, já conseguiu atenção com seu primeiro álbum, “Proselyte” (2016), se destacando como uma das revelações daquele ano.

Neste contexto, “Anagnorisis”, chega em 2018 como um novo exercício de criatividade para se movimentar  fora dos moldes pré-estabelecidos do que convencionamos a chamar de death/thrash metal, transitando entre o aspecto técnico e brutal do primeiro (de nomes como In Flames e At The Gates) e a vibe moderna e requintadamente melódica do segundo (à moda The Haunted, e The Crow), com evidente herança musical da escola melódica sueca. Eu não condenaria quem os encaixasse dentro do death metal melódico.

Dentre as oito composições de “Anagnorisis”, o Dysnomia apresenta músicas agressivas (como em “Janus – Faced Serpents”), não só estruturalmente, pelas harmonias bem desenhadas, ou pelas variações vocais, mas também nas letras, envolvendo alegorias sobre mitologia e filosofia, além de citações a literatura clássica (Álvaro de Campos e Jorge Luis Borges dentre elas) e cinema (como na introdução da faixa-título), mas sem perder o viés melódico (no que tange à sonoridade) e lírico (o que concerne às letras).

“Anagnorisis” é um disco com conteúdo, profundidade e complexidade (atente aos alicerces de  “Vorax Chronos”), tendo como destaque, além da faixa-título, “The Fall of Phaethon” (ofensiva sonora com variação de andamentos envolventes), “Library Of Babel” (mais puxada ao death metal lamacento), “Prometheam”, “Sertões” (com citação de “Último Pau-de-Arara”, poema de  José Palmeira Guimarães), composições talhadas pelo bom gosto e pela agressividade sonora bem dinamizada pela cadência e pelos climas bem construídos sem artifícios comuns.

A produção conseguiu deixar tudo coeso, com timbragens bem feitas para a abordagem do Dysnomia, além de organicidade que permite detalhar toda a agressividade do som bem feito, mas sem buscar poder de fogo numa equalização saturada e grave.

O som apresentado em “Anagnorisis” é robusto pelas timbragens e não pelo volume e equalização, gerando poder pelo atrito e justaposição de groove selvagem (guiado pelo baixo denso de Denilson Sarvo), melodia (emanada nas guitarras de Fabrício Pereira) e técnica apurada (atente-se ao trabalho impressionante de Érik Robert na bateria), cheia de cortes secos e mudanças bruscas de direção, longe da modernidade estéril.

Cabe aqui uma observação quanto aos vocais de João Jorge, também responsável por uma das guitarras.

A energia de suas linhas é indiscutível, e elas acabam se tornando o porto seguro no metal extremo do Dysnomia ao longo de todas as nuances que o instrumental se vale, por estarem criativas e melhor definidas dentro da estética gutural, enquanto seus colegas de banda invertem e subvertem os valores harmônicos numa sonoridade viscosamente pesada.

“Anagnorisis” impressiona pela inteligência e criatividade usadas como pontos de partida para construir uma música violenta, pensada nos mínimos detalhes, mas que vez ou outra vem entretecido à ternura melancólica dos riffs de guitarra.

Enfim, temos uma banda que pelo talento e criatividade já atingiu um nível internacional e clama por vôos mais altos.

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