ATUALIZANDO A DISCOTECA: David Bowie, “Black Star” (2016)

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David Bowie: “Black Star” (2016, Sony Music, Iso Records, Columbia Records)

Confesso que esta resenha esta atrasada em mais de seis meses, pois somente agora tive a “coragem” de pegar este álbum para ouvir com calma! Longe de ser um indício da minha falta de apreço, esta ação se enquadra mais na carga emocional que envolvia mergulhar na última obra do artista tinha maior capacidade de tirar emoções destes ouvidos cansados da mesmice musical, da qual Bowie nunca se encaixou, situando-se sempre na vanguarda e sempre um passo à frente de seus contemporâneos. Sim, somente após seis meses o sentimento da perda artística não influenciaria na minha leitura das últimas composições de David Bowie, quiçá o maior artista (na mais pura acepção e também alegoria da palavra) que o Rock N’ Roll produziu.

Entre os nomes de sua geração que ainda estavam  na ativa, Bowie sempre se mostrou léguas à frente musicalmente e, mesmo não tendo nada mais o que provar, em cada um de seus álbuns, à partir de “Reality” (2003), esbanjava uma liberdade musical manuseada com inteligência e sensibilidade ímpar. Todavia, nos últimos anos, a morte já começava a rondar os versos do compositor, que se viam envolvidos em uma música cada vez mais explorativa e, por que não, melancólica. Mesmo assim, sua representação da arte no rock, como mentor do projeto buscando referências nas melhores fases de sua extensa carreira, mas não sendo apenas uma cópia de si mesmo, fazia com que nossa percepção ignorasse os indícios de que o combustível da estrela estava se esvaindo, mesmo com toda a sua vontade de aquecer e semear a vida da nossa galáxia artística.

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Bowie sempre se mostrou léguas à frente musicalmente e, mesmo não tendo nada mais o que provar, em cada um de seus álbuns, à partir de “Reality” (2003), esbanjava uma liberdade musical manuseada com inteligência e sensibilidade ímpar.

“Blackstar” é um álbum que transforma a percepção do fim da vida em uma obra-prima, transformando a morte numa parceira na concepção do trabalho, sendo que muitos efeitos sonoros representam uma consciente transição do plano existencial para um plano desconhecido que se mostrava cada vez mais próximo. O que temos nesta obra é um desfile testamental de pura arte, desde o encarte em texturas sobrepostas de negro, às linhas de baixo que pulsam como se dessem voz ao coração de uma consciência confessional. Bowie conseguiu ir além da música, emocionando em cada harmonização melódica ou experimentação mais incisiva.

A longa e experimental faixa-título abre o álbum com aromas eletrônicos em meio as guitarras frias, guiada por vozes melancólicas, sinuosas e hipnotizantes, num trabalho épico ao jeito jazzístico orquestrado com uma gama de sonoridades vintages. Este clima jazzístico com estrutura menos rigorosa já era trabalhado há mais de uma década na música de Bowie, mas neste álbum o nível de homogeneidade atingida dentro da proposta vanguardista que se mostra elegante, inovadora e relevante, mesmo dentro de um álbum extremamente confessional, atinge o clímax. Nesta canção propriamente, Bowie se coloca como uma estrela negra em versos autorreferenciais e tão corajosos quanto o instrumental.

Lazarus” se mostra uma balada reflexiva, que encanta, emociona e ensina em seus versos. 

“‘Tis a Pity She Was a Whore” é efervescente, com uma batida crua e teclados oitentistas que emolduram um desabafo elegante, enquanto “Lazarus” se mostra uma balada reflexiva, que encanta, emociona e ensina em seus versos. No fim do ano passado, “Sue (Or in a Season of Crime)” foi apresentada como single, em uma versão noir e diferente da versão mais pesada aqui presente, que ganhou pujança em arranjos sincopados que alicerçam efeitos espaciais e um desfecho orgástico.

E já que estamos falando de espírito jazzísitco, “Dollar Babies” é um standard vanguardista e contestador, que somente a excelência artística de David Bowie poderia conceber, sendo, talvez, a faixa mais melódica do álbum, onde ele anuncia que está caindo e morrendo, em meio às guitarras instigantes que fecham a canção. “I Can’t Give Everything Away” fecha a obra de David Bowie com um instrumental magistral, mas o brilho artístico se encontra nos versos que oferecem a redenção final após a reflexão confessional, numa das letras mais simples e mais impactantes do compositor.

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Nos últimos anos Bowie se tornara recluso, fato acentuado após o tratamento para um câncer de fígado, tendo falecido dois dias após o lançamento deste álbum. O mais curioso é que ele já conversava com músicos e produtor sobre o próximo álbum.

No decorrer das faixas notamos que o protagonismo das guitarras foram substituídas por naipe de metais, que variam do febril desconforto ao melódico clima noir. É impossível passar incólume a estas canções, pois os arranjos minimalistas e brilhantes, refletindo um artista no auge do domínio de sua arte, dialogam com os versos oferecendo uma trilha sonora para uma digressão sobre a vida.

Confesso que sempre me considerei uma pessoa relativamente fria no trato com a arte, me interagindo emocionalmente com poucas obras, mas esse álbum me atingiu de forma fulminante em seu desfecho. Àqueles que gostam de comparar com o clássicos e vomitar argumentos engessados pelo purismo e presos nos grilhões de um passado que não volta mais, afirmo que este álbum é tão filosófico, dissonante e ousado quanto a fase-Ziggy Stardust e tão libertário musicalmente quanto a fase de Berlim.

 A longa e experimental faixa-título abre o álbum com aromas eletrônicos em meio as guitarras frias, guiada por vozes melancólicas, sinuosas e hipnotizantes, num trabalho épico ao jeito jazzístico orquestrado com uma gama de sonoridades vintages.

Nos últimos anos Bowie se tornara recluso, fato acentuado após o tratamento para um câncer de fígado, tendo falecido dois dias após o lançamento deste álbum. O mais curioso é que ele já conversava com músicos e produtor sobre o próximo álbum. Mesmo no crepúsculo de sua vida o camaleão mostrou sua relevância e originalidade, que podem soar estranhas aos acostumados às sonoridades pasteurizadas e  triviais do pop/rock atual.

NOTA: 10,0

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