CLÁSSICO DO CINEMA: “Sociedade Dos Poetas Mortos”

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“Não lemos e escrevemos poesia porque é bonitinho. Lemos e escrevemos poesia porque somos membros da raça humana e a raça humana está repleta de paixão. E medicina, advocacia, administração e engenharia são objetivos nobres e necessários para manter-se vivo. Mas a poesia, beleza, romance, amor, é para isso que vivemos.”

 John Keating, professor da Welton Academy.

 

Uma ocorrência envolvendo esta película sempre me chamou a atenção. Toda pessoa que o tenha assistido geralmente cita Sociedade dos Poetas Mortos como um dos melhores filmes que já degustou.

Bom, creio que a maioria dos críticos de cinema também tiveram o prazer de passar 129 minutos em frente a uma tela para assistir esta fabula sobre tolerância, amizade e aprendizagem, ganhando como bônus um festival de atuações isoladas irrepreensíveis do elenco.

Então, por qual motivo, razão ou circunstância, esta obra nunca figura nas listas de grandes obras da sétima arte?

Só em minhas mãos, neste exato momento, tenho três listas das mais respeitáveis (dentre elas o livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer) de melhores filmes da história e nenhuma delas cita este dentre seus enumerados.

Mas por qual motivo, eu que não sou um crítico de cinema, posso dizer que a película deveria estar  nestas listas?

Simplesmente pelo motivo de ser um filme com diálogos ricos, além de trazer cargas lírica e emocional que o cinema da década pós 1980 nos brindou poucas vezes. Tais elementos são efeitos de um roteiro simples e um elenco mínimo realizando trabalhos tão grandiosamente densos.

Ainda posso apontar  a atuação de Robin Williams  como uma efetiva circunstância para que este filme não seja esquecido e rotulado apenas como um bom filme. Concordo que meus motivos esbarram no terreno escorregadio do gosto pessoal.

Para ajudar a validar minha tese, vamos a alguns fatos documentados, que para mim, diversas vezes não significam nada (afinal Titanic é um dos maiores vencedores do Oscar e um dos piores filmes que eu já tive o desprazer de assistir!).

“Sociedade dos Poetas Mortos” é vencedor do Oscar de melhor roteiro original e recebeu indicações como Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator (Robin Williams).

Concorreu nas mesmas categorias ao Globo de Ouro, foi eleito Melhor Filme Estrangeiro do Prêmio César na França e Melhor Filme no BFTA. Por estas e outras premissas, vamos falar um pouco mais sobre esta película nos parágrafos que seguem.

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A Sinopse: Em 1959 na Welton Academy, uma tradicional escola preparatória, um ex-aluno (Robin Williams) se torna o novo professor de literatura, mas logo seus métodos de incentivar os alunos a pensarem por si mesmos cria um choque com a ortodoxa direção do colégio, principalmente quando ele fala aos seus alunos sobre a “Sociedade dos Poetas Mortos”.

O filme foi lançado em 1989, e dirigido por Peter Weir (Mestre dos Mares e O Show de Truman.). No elenco, um Robin Williams que se confirmava ainda mais como um dos melhores atores de sua geração, e os aspirantes Ethan Hawke e Robert Sean Leonard mostrando muito talento. 

A grande vantagem em ser um expectador que não se atém a tecnicismos ao assistir um filme é o fato do julgamento ser unicamente baseado nas sensações provocadas em você durante a exibição. Este sentimento é que irá dizer se este é ou não um bom filme, e somente isso.

Não importa se a iluminação está no ponto certo ou se o figurino parece tirado de um teatro mambembe. Primeiramente, acredito que todo professor em formação ou em início de carreira deveria assistir este filme. 

 

INICIANDO-SE NA SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

Dito isso, posso mergulhar de cabeça na película propriamente dita, tentando dar o mínimo possível dos malditos spoilers.

No elenco temos um time juvenil de atores promissores como Ethan Hawke e Robert Sean Leonard ao lado de Robin Williams, que naquele período já era um ator consagrado, aqui interpretando o professor de John Keating.

A Welton Academy, escola que Keating, outrora aluno, leciona, segue rígidos padrões de conduta e métodos ortodoxos de ensino que muitas das vezes são desencorajadores, para não dizer desestimulantes e até intimidadores aos estudantes.

O novo professor chega com métodos diferentes de lecionar poesia (o antigo professor se via muito preocupado com a métrica dos versos e a técnica poética), trazendo o encorajamento ao pensamento livre e o sentimento puro ao invés do rigor técnico, inspirando seus alunos a não desistir de suas ideias, seus amores e principalmente de seus anseios.

É interessante o que uma expressão simples como Carpe Diem pode causar em jovens pressionados pelas forças que convergem sobre si, como medos e inseguranças da idade e até mesmo as exigências de pais e professores.

Creio que todos nós já nos sentimos  de maneira semelhante, e pior, muitos de nós ainda somos pressionados desta forma no dia-a-dia. Sendo assim, é impossível não haver uma empatia imediata entre o drama da tela e o coração do expectador.

 

No contexto do filme, a expressão em latim que pode ser interpretada como aproveite o dia, dá ao grupo de alunos da Welton Academy uma necessidade de viver cada dia plenamente. Esta ação possui reação no novo comportamento do grupo de estudantes.

É nesta impulsão de vida plena que é formada a Sociedade dos Poetas Mortos, como um grupo de alunos motivados pelo novo sabor da poesia, ansiando por vivenciarem o caráter de livres pensadores.

Digo impulsão, pois os membros desta sociedade secreta dentro da Welton Academy, em sua inocência juvenil, levam o carpe diem  até as últimas consequências ou se preferir, até as últimas inconsequências.

Estas inconsequências nos levam à questão do quão tênue é a linha que separa a liberdade do carpe diem e as amarras do bom senso.

Ou seja, somos levados a avaliar a capacidade humana de pensar sobre sua condição, transgredir regras e interdições, sem que isso esbarre em consequências irreversíveis como acontece a um dos membros da sociedade.

A Sociedade dos Poetas Mortos em uma de suas reuniões sigilosas.

Algumas reflexões sobre certas passagens do filme nos revelam que pequenos detalhes podem guardar significados gigantescos.

A maneira como o mestre Keating mostra que a poesia não é um gênero entediante, se for compreendida com paixão nos dá uma lição de vida e didática.

Qualquer momento da nossa existência pode ter seu sabor alterado conforme o sentimento que dispomos para com aquela situação. Infelizmente, não sou apto a discorrer sobre o mérito filosófico da película.

Para tal, cabe uma consulta ao site http://blogfilosofiaevida.com/index.php/2011/06/25/filosofia-com-filmes-sociedade-dos-poetas-mortos/.

Como já está implícito em parte do texto acima, o professor Keating é um ex-aluno da Welton Academy.

Quando nesta condição, anos antes, ele fez parte de um grupo que se autodenominava Sociedade dos Poetas Mortos, que nada mais era do que um grupo de amantes da poesia e de grandes pensadores que se reuniam para desfrutar dos clássicos de grandes autores.

Este fato do passado é descoberto por seus alunos de hoje que decidem reativar o clube com novos membros que fazem suas reuniões em uma caverna localizada em alguma área nos fundos do colégio.

Percebendo a movimentação de seus alunos, Keating indiretamente lhes dá o livro que era lido nas reuniões do grupo original, do qual fizera parte.

O interessante das reuniões é perceber o contraponto da liberdade de expressão, pensamento e conduta da sociedade dos poetas mortos com o rigor e controle absoluto da academia.

No entanto, o comportamento não disfarçado de alguns membros da sociedade fizeram gerar alguns problemas com a diretoria intolerante da Welton Academy.

Oficialmente, o enredo do filme reservaria para o professor Keating um final trágico com doença terminal, mas o diretor resolveu concentrar a emoção no turbilhão de controvérsias dos alunos.

Opção acertada, assim como a troca de Liam Neeson por Robin Wiliams para o personagem principal, como era cogitado previamente, da mesma maneira como o nome de Dustin Hoffman circulou pelo projeto para dar vida a Keating.

O sucesso artístico da produção vem muito da capacidade dos atores em canalizar as experiências reais vividas na Montgomery Bell Academy, que o roteirista imprimiu nas suas linhas, tanto que alguns dos ex-colegas de Tom Schulman (o roteirista) entraram em contato com ele para saciar a curiosidade de estarem ou não em algum personagem.

Este caráter pessoal permeia a produção, como nos uniformes do colégio que foram inspirados naquele que o diretor Peter Wier usara em um colégio privado na Austrália, assim como a foto do jovem professor Keating encontrada por seus alunos é uma foto real de Robin Wiliams em seus tempos de escola.

Uma outra curiosidade interessante é que enquanto esteve em Cambridge, Aleister Crowley, o maior ocultista do século XX, frequentou uma sociedade secreta nos moldes da apresentada no filme, a Magpie and Stump.

 

A Cena Inesquecível

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É claro que os métodos de Keating são reprovados pela diretoria da academia. A mente arcaica dos líderes da instituição vai de encontro ao métodos do professor que levavam seus alunos ao pensamento próprio.

Com este cenário em desfavor, o Keating é demitido da escola e em um último ato libertário e recheado de significado para mestre e discípulos, o grupo de alunos sobe em suas carteiras e recitam o primeiro verso de um poema de Walt Whitman.

 

Abaixo um resumo da obra em puco menos de cinco minutos, mas ATENÇÃO, o vídeo está carregado de revelações importantes do enredo. Então, a escolha é toda sua em assistir… 

 

 

O POEMA DE WALT WHITMAN

Notas da revisão que Whitman fez em um dos rascunhos do poema.

Walter Whitman foi um jornalista, ensaísta e poeta americano considerado o “pai do verso livre” e o grande poeta da revolução americana sendo homenageado pelo maior poeta da língua portuguesa, Fernando Pessoa em “Saudações a Walt Whitman”.

O poema que tem importância ímpar no filme, “Oh Captain! My Captain”, foi escrito após o assassinato de Abrahan Lincoln.

Podemos interpretar o “navio” como uma representação metafórica aos E.U.A., bem como a “terrível viagem” representa a guerra civil americana e, claro, o capitão seria o assassinado Lincoln.  O que causa curiosidade é que a métrica utilizada é a convencional o que não era comum na obra de Whitman.

Abaixo, trago o poema na íntegra. Um dos conjuntos de versos mais emocionantes que já tive o prazer de assimilar.

Oh Captain! My Captain
Oh capitão! Meu capitão! nossa viagem
medonha terminou;
O barco venceu todas as tormentas,
O prêmio que perseguimos foi ganho;
O porto está próximo, ouço
Os sinos, o povo todo exulta,
Enquanto seguem com o olhar a quilha firme,
O barco raivoso e audaz:
Mas oh coração! coração! coração!
Oh gotas sangrentas de vermelho,
No tombadilho onde jaz meu capitão,
Caído, frio, morto.
Oh capitão! Meu capitão! Erga-se
e ouça os sinos;
Levante-se – por você a bandeira dança – por
você tocam os clarins;
Por você buquês e fitas em grinaldas –
por você a multidão na praia;
Por você eles clamam, a reverente multidão
de faces ansiosas:
Aqui capitão! pai querido!
Este braço sob sua cabeça;
É algum sonho que no tombadilho
Você esteja caído, frio e morto.
Meu capitão não responde, seus lábios
estão pálidos e silenciosos
Meu pai não sente meu braço, ele não
tem pulsação ou vontade;
O barco está ancorado com segurança
e inteiro, sua viagem finda, acabada;
De uma horrível travessia o vitorioso barco
retorna com o almejado prêmio:
Exulta, oh praia, e toquem, oh sinos!
Mas eu com passos desolados,
Ando pelo tombadilho onde jaz meu capitão,
caído, frio, morto.

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