ATUALIZANDO A DISCOTECA: Cauby Peixoto, “Cauby Canta Dick Farney” (2017)

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Cauby Peixoto, “Cauby Canta Dick Farney” (2017, Biscoito Fino) NOTA:9,0

Cauby Peixoto e Dick Farney são ícones de gerações diferentes da música brasileira. Enquanto Cauby é um dos primeiros pop stars da nossa cena musical, prezando por uma elegante, versátil e poderosa voz, Farney foi um dos mais sofisticados nomes do Jazz nacional, mais introspectivo e suave.

Ambos já não estão mais neste plano, levados pela impiedosa ação do tempo sobre nós, perecíveis seres humanos, e vêm unidos neste trabalho póstumo de Cauby Peixoto, confessando que, mesmo representando gerações que se chocaram, Dick Farney era um de seus ídolos.

Farney foi um dos precursores da música moderna no Brasil, tendo sua voz marcada na era dos LPs em 78 rpm, e que cravou seu nome no cancioneiro nacional com “Meu Rio de Janeiro”, um samba exaltação lançado em 1948, e que abre este álbum de relituras de Cauby Peixoto com requinte, brasilidade, e também mostrando que o tempo pode até ter roubado um pouco da sua potência vocal (como também fica claro em “Não tem Solução”), mas não a elegância no empostar de sua voz, ou na personalidade de sua interpretação.

“Cauby Canta Dick Farney” reune as últimas gravações de Cauby Peixoto, num encontro inusitado com a obra de Dick Farney. Um presente de despedida que ele nos deixou em forma de boa música…

E mesmo que as gerações mais novas não reconhecem assim, Cauby foi um ídolo pop em sua época, ajudando, inclusive, a consolidar o Rock no Brasil em sua gênese (como pode ser conferido neste post), afinal, “Rock N’ Roll em Capacabana”, de 1957, foi o primeiro rock n’ roll composto em nosso país e cantado em português.

Ou seja, temos dois precursores de gêneros diferentes em terras brasileiras, perpetuando nestas dez releituras um encontro relativamente inusitado, como se Tom Jones gravasse um álbum cantando Chet Baker, que se torna saboroso além deste ineditismo, principalmente pela escolha do repertório, com alguns temais mais obscuros como “Uma Loira” (um jazz de letra interessantíssima), “Sempre Teu” (a melhor do trabalho. Que belíssima canção!), o lado de clássicos atemporais como “A Saudade Mata a Gente” (numa releitura singela e delicada), “Copacabana” (com a cara musical do Rio de Janeiro), “Tenderly” (um smooth jazz tipicamente americano). 

Confira a faixa “Não Tem Solução”… 

É impressionante pensar que mesmo em idade avançada, o intérprete registrou as dez composições em apenas duas horas, sendo este um álbum que transmite mais diversão do que saudosismo, principalmente pelo olhar clínico do produtor Thiago Marques Luiz que viu potencial no encontro da voz de Cauby com a obra de Farney, e nos brinda com um texto impecável e emocionante no encarte.

Os arranjos estão preciosos, bem detalhados, nada exagerados, aconchegantes e de extremo bom gosto, desenvolvidos por um quinteto liderado pelo pianista Hamilton Messias, que reflete o sabor jazzístico mais alinhavado ao pop vintage à lá anos cinquenta, que a arte de capa já ecoa, e é perfeitamente destilado no requinte boêmio de “Nick Bar”, ou na transformação de “Marina”, de Dorival Caymmi, num jazz efervescente e empolgante , onde Cauby fecha, não só o álbum, mas sua discografia, brilhando ao soltar a sua voz.

Confira o álbum na íntegra, via Spotify… 

Gravado dois meses antes da passagem de Cauby em 2016, em alguns momentos fica evidente como o tempo rouba a força do artista, e no caso de Cauby, a dicção e o esforço no controle da voz reforçam esse fato. Mas aqui, estes detalhes só servem para admirarmos ainda mais o cantor Cauby Peixoto, que saiu de cena aos 85 anos, com a incrível marca de seis décadas de carreira. O tempo roubou sua força, mas não seu brilho!

Essa foi a última gravação de Cauby Peixoto, e ele nem mesmo chegou a ouvir o trabalho pronto! Um presente de despedida que ele nos deixou em forma de boa música.

Sendo assim, não prive-se de admirá-lo e consumi-lo em sua plenitude!

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