CLÁSSICO DO CINEMA: “O Olho do Diabo” (1960)

"A castidade de uma mulher é um terçol no olho do Diabo" Antigo ditado irlandês.   Por essência, a comédia se tornou um viés das artes cênicas que busca tornar jocosos alguns movimentos do cotidiano. O objetivo pode ser atingido pela via do escracho, ou ainda, pelo sarcasmo. O mais interessante nas duas formas básicas de se estabelecer a comédia é a crítica a certos hábitos e condutas dos seres humanos, ditos racionais. No teatro grego existiam duas classes para as artes cênicas. A tragédia era uma narrativa de exclusividade dos seres superiores, ou seja, deuses e heróis mitológicos. Já a comédia discorria sobre pessoas comuns, tendo um caráter menor. Com a evolução humana, as artes não ficaram presas a estes dogmas e muitas obras foram concebidas elevando a comédia a um patamar muito mais elevado de crítica social, psicológica e comportamental. Hoje, quero escrever um pouco sobre uma destas obras, que busca, no sarcasmo cômico, refletir sobre valores arcaicos que ainda se mostram arraigados na sociedade moderna. Apresento o clássico em preto e branco  de Ingmar Bergman, " O Olho do Diabo" , uma mistura de fantasia e inocência perversa embalada numa comédia popular que se perde em meio às outras obras clássicas do diretor. Antes de adentrarmos ao universo criado por Bergman nesta seminal obra, seria interessante apresentar alguns detalhes pertinentes de sua biografia. Um primeiro detalhe que faz desta obra uma peça altamente pessoal é a o fato do diretor ser filho de um pastor. Pode parecer um elemento ordinário de sua biografia, mas especialmente em O Olho do Diabo  as crenças da era vitoriana, especialmente o cristianismo em todos os seus dogmas, são criticadas de modo sarcástico e sutil. Estes elementos não são restritos a esta obra, e em grande parte de sua filmografia ele se utilizou de alegorias religiosas desprovidas de amor e compaixão divinas. Ingmar Bergman também trabalhou com teatro, arte cuja influência pode ser vista claramente nesta película, dividida em três atos, cada um deles introduzido por uma narrador e o clima de comédia de costumes, tão teatral, que foi utilizado em outras obras, como o magistral  Sorrisos de uma Noite de Amor  (1955). Em verdade, o trato teatral é parte integrante em O Olho do Diabo , cujo narrador seria um intermediador de um embate ente Céu e Inferno. No âmbito da comédia de costumes, ainda podemos perceber que a obra é acompanhada por uma trilha sonora inteiramente executada em um cravo. O tema principal é uma composição de Domenico Scarlatti, compositor italiano contemporâneo de Bach e Händel, que fora utilizada em uma oportunidade precedente numa comédia de costumes.  Além disso, Bergman era um admirador da obra de Molière, dramaturgo francês e considerado um dos maiores nomes da comédia satírica. As ligações vão além da admiração, pois Molière escreveu a tragicomédia Don Juan ou Le Festin de Pierre , uma peça em cinco atos que gira em torno de um personagem libertino, aristocrata sedutor que coleciona conquistas, valente que profere blasfêmias e adora os duelos de espada. Em O Olho do Diabo  temos aquele Don Juan mítico, oposto de um Romeu, um deus do charme e de lábias irresistíveis, que permeia os diversos campos da cultura pop. Don Juan e o Diabo : O conquistador condenado a uma eterna tortura de insatisfação sexual. Vamos ao singelo, mas genial enredo. Como já estabelecido no preâmbulo deste texto,  a castidade de uma mulher é um terçol no olho do Diabo. Pois bem, o Diabo sofre por um terçol, causado por uma virgem donzela que vive no interior da bela - e tão ensolarada quanto possível na Escandinávia - Suécia, e precisa resolver este, não tão sério, mas incômodo problema. Após uma reflexão sobre a melhor forma de acabar com a castidade da camponesa, a inteligência infernal chama pelo maior conquistador que pisou sobre a Terra: Don Juan. O acordo é simples. Don Juan terá sua sentença eterna amenizada se for até a Terra e tirar a virgindade da filha de um ingênuo interiorano, que acredita no amor verdadeiro. O conquistador libertino está confinado ao Inferno e sua pena seria a tortura da insatisfação sexual por toda a eternidade. Todas as manhãs ele é acordado por uma exuberante mulher, que o provoca em todas as artimanhas infernais da sexualidade, até vencer a relutância do condenado e desaparece assim que ele cede ao desejo carnal, sem satisfazê-lo. Com a confiança de um lendário conquistador, ele aceita o desafio. Mas ele não se desloca ao terreno do certame sozinho, seu escudeiro Pablo o acompanha e terá um papel decisivo na missão. Nas histórias originais de Don Juan o nome do escudeiro é diferente e não só isso é um diferencial. Aqui, Pablo tem uma personalidade individual e não busca somente emular os hábitos de seu mestre como nos contos originais de Don Juan. Os dois, Juan e Pablo, emergem do reino diabólico subterrâneo para um ambiente que nos remete a um paraíso terreno com clima vitoriano. O Olho do Diabo : A castidade de uma mulher é um terçol no olho do Diabo. Como peça cinematográfica, esta película encanta pelas técnicas teatrais utilizadas. Sendo introduzida por um narrador em um tablado, formalmente vestido e que faz comentários instigantes quanto à sequência dos acontecimentos. Os cenários principais são o Inferno, residência do Diabo, e o interior sueco, onde habita a virgem donzela, crente do amor verdadeiro, junto com seus pais, um pastor e sua esposa frustrada. A batalha é travada. O nefasto, libertino e indecente exército infernal torce pelo êxito dos enviados do Diabo e derrocada dos anjos e seres celestiais que se regozijam pela castidade, pureza e inocência baseada no amor singelo. O algoz Juan desfila toda a sua experiência de conquistador imperdoável até conseguir que a donzela se entregue à sua luxúria carregada por séculos de insaciedade. Em contrapartida, os ardis diabólicos não contavam com a sagacidade do amor. O inabalável conquistador se vê impossibilitado de executar sua tarefa por ter sido arrebatado pela paixão, como corolário, as forças do inferno perdem a batalha para as vibrações celestiais. Como punição pela falha em uma simples missão, Don Juan é condenado pelo Diabo a escutar, em sua infernal alcova, os sons da noite de núpcias de sua amada camponesa. Esta pena seria cômica, caso não fosse trágica, pois, indiretamente, o condenado obteve êxito em sua missão. Ainda carregando a marca do beijo de Don Juan nos lábios, a nobre camponesa jura para seu prometido nunca ter beijado outros lábios em sua vida, senão os dele. A mentira restabelece as forças do Inferno e o maldito terçol desaparece do olho do Diabo. A luta vitoriana entre o bem e o mal seguirá adiante, onde nem mesmo o  amor puro foi capaz de manter o pecado afastado. Paralelamente, existe uma vitoria inversa, ou seja, o Paraíso tem sua parcela de êxito na aventura adúltera da mãe com o amante e escudeiro Pablo, que confessa a traição ao marido que a perdoa, posteriormente. Don Juan e a donzela causadora do flagelo ocular diabólico, interpretada pala belíssima Bibi Anderson As origens deste singular filme não são menos interessantes. Um detalhe que não pode passar despercebido é a pressão do estúdio Svensk Filmindustri quanto a realização desta película. Com o objetivo de receber o aval do estúdio para realizar o clássico  A Fonte da Donzela  (1959) - que não gerava confiança por parte da produtora quanto ao apelo público - Bergman se comprometeu a trabalhar em uma comédia. A versão final do filme retirou as palavras do narrador que traria um texto quase confessional de Bergman quanto ao caráter deste projeto em sua filmografia: "E u gostaria de implorar a vocês que me perdoem - as idéias não são minhas. Mas eu tenho minhas obrigações como ator; também preciso me sustentar e - porque não? - sustentar minhas ambições. " As frases podem ter sido suplantadas, mas o tom delas permeia alguns diálogos. O maior nome do cinema sueco de sua época se vê num momento descrito por ele próprio como "inseguro e improdutivo" e nenhuma ideia nascia em sua mente brilhante para executar o projeto condicionado pela produtora. A inspiração para O Olho do Diabo  veio de um drama produzido para o rádio dinamarquês denominado O Retorno de Don Juan,  cujos direitos foram comprados pela produtora Svensk Filmindustri. A figura de Don Juan estava muito popular naquela década, devido às múltiplas adaptações para o teatro, tendo Bergman dirigido um espetáculo baseado na obra de Moliere em 1956. Um tempero saboroso neste filme é a forma de jogo promovido pelo diretor. Temos a nítida sensação de assistir uma peleja entre o céu e o inferno como na aposta pela lealdade de Jó.  Para muitos autores, esta obra funciona como um marco de transição para dois momentos importantes da carreira de Ingmar Bergman, para mim, é apenas um dos meus filmes favoritos. O Olho do Diabo. Filme completo   Para finalizar, debrucemos sobre a crítica ao pensamento religioso arraigado nas tradições vitorianas que esta explícita na descrição do Inferno de Bergman e seu máximo regente: "O inferno é com um cone. No fundo estão os pecadores primários, cujos tormentos acabam rapidamente. Novos infernos se sobrepõem e perto da Terra está o nosso inferno, construído por cérebros interessados e pelos maiores puritanos da cristandade. Esta paróquia invertida é comandada pelo Diabo, que amadureceu ao longo da evolução humana e é constantemente, recriado, renovado e rejuvenescido, tornando-se cada vez mais humano, eu diria espiritualizado." Ou seja, o Inferno como o imaginamos, nada mais é que uma criação nossa. Postagem escrita ao som de: 1) The Cramps: Big Beat From Badsville 2) Carlos Santana & Buddy Miles: Live! 3) Mutantes: Tudo Foi Feito Pelo Sol 4) The Ocean: Pelagial …

CLÁSSICO DA LITERATURA: “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago.

Por Laira Arvelos “Estava em um restaurante em Lisboa. Sozinho até, e de repente pensei: E se fossemos todos nós cegos? E depois praticamente num segundo seguinte,  respondi a mim mesmo a pergunta que acabava de fazer: Mas nós estamos todos nós cegos” Espera-se certa impessoalidade do autor de uma resenha, mas tratando de Saramago, a tarefa fica difícil, não dá para ser impessoal quando se cria um monumento para uma pessoa em seu coração. Quando soube da notícia que Saramago partiu, foi como se me partisse, como se levasse embora um amigo, aquele escritor que me tocou com palavras, que me despertou um leve sorriso e inquietação. José Saramago (1922-2010) foi um brilhante escritor português. Destacou-se como romancista, teatrólogo, poeta e contista. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura (1998), o Prêmio Camões (1995), “Doutor Honoris Causa” (1999), pela Universidade de Nottinghan, na Inglaterra, “Doutor Honoris Causa” (2004), pela Universidade de Coimbra, entre outros. Muitas vezes em minhas divagações e pequenos momentos de delírio, me pego imaginando coisas com a premissa do ‘e se’... E se tivesse asas? E se não houvesse música? E se não existissem cores? Estas suposições nos levam a melhorar nossa empatia, nossa percepção do espaço, do outro e principalmente de nós mesmos, podem gerar algum momento de criatividade e pensamento ou até mesmo desconforto e desespero. Saramago, este escritor único, consegue trabalhar está temática como ninguém, em alguns momentos de sua obra e em especial no Ensaio sobre a cegueira , ele parte de uma premissa fantástica e tenta retratar como as pessoas reagiriam diante deste fato desconhecido. José Saramago (1922-2010) foi um brilhante escritor português. Destacou-se como romancista, teatrólogo, poeta e contista. Recebeu o Prêmio Nobel de Literatura (1998), e se destacava por partir de uma premissa fantástica e tentar retratar como as pessoas reagiriam diante deste fato desconhecido.  Em um dia como um outro qualquer, em um sinal de trânsito, um homem a caminho do trabalho espera o sinal ficar verde. Sua espera é interrompida de forma instantânea por uma nuvem branca que cobre toda a sua visão. Este fato por si só já é desesperador, estamos tão acostumados a luz, a nos comunicar e nos locomover orientados pelo que vemos e se isso repentinamente nos fosse tirado, como faríamos? Inicialmente muitos não se importam ou entendem, é apenas um infortúnio. Este é o primeiro cego, o primeiro caso da “cegueira branca” que logo se espalhará como um vírus sem controle e sem explicação a consumir a todos provocando desalinho e caos. Diante da situação o governo coloca as pessoas que ficaram cegas em quarentena, sob condições desumanas a única alternativa é tentar sobreviver em um local obscuro onde são reveladas as mais sombrias faces humanas; a crueldade, o ódio, a indiferença, a ruindade, o preconceito, a injustiça e violência. Pessoas aproveitam uma das outras por necessidade de exercer poder, roubam comida, maltratam; ‘O homem é o lobo do homem’, o mal está presente, não fora, mas dentro de cada um. O ‘mar de leite’ alcança mais pessoas fora dali, após um incêndio, os cegos se veem livres da prisão e descobrem todo um mundo cego. A sociedade está em colapso. Quem pode ver este sofrimento, choca com a cena: sangue, lixo, destruição, fezes, urina e corpos. Agora a necessidade é de luta por viver em um lugar devastado, sem comunicação e sem lei. Uma das personagens não é afetada pela cegueira, ela tenta fornecer ajuda de forma discreta, mas é inundada por uma situação de aflição bem maior. Se tivéssemos nesta situação como agiríamos? Ficaríamos caladas? Tiraríamos proveito? Ajudaríamos? “De que me serve ver. Servira-lhe para saber do horror mais do que pudera imaginar alguma vez, servira-lhe para ter desejado estar cega, nada senão isso. ” Saramago tem uma forma ímpar de escrever e rapidamente nos acostumamos com sua forma de subversão das regras de pontuação, para uma boa leitura devemos esquecer os sinais que indicam as falas das pessoas. Confira o trailer da adaptação da obra para as telas do cinema realizada em 2008, por Fernando Meireles... Os personagens não possuem nomes o que reforça ainda mais a ideia de uma alegoria que tem seu foco no ser humano, nos seus pensamentos, comportamentos e atitudes, expondo uma crítica social crua que nos mostra lados humanos que julgaríamos não ser possíveis. Com maestria, Saramago nos apresenta histórias que nos tocam profundamente em suas particularidades. Em Ensaio sobre a cegueira somos apresentados de forma profunda há pessoas, cada uma com suas aflições e almas particulares, ele nos faz perder a visão para que ampliados nossos sentidos possamos observar o outro, o que é singular, o valor das coisas que realmente importam: as pequenas coisas, porque viver em mundo cada vez mais indiferente vai nos desmoronar. As cenas criadas são vívidas e perturbadoras, de forma pungente somos imersos em um mundo melancólico e nauseante. Ao final da leitura somos tomados pelo pensamento que nos acompanharão em diversas situações de nossas vidas, o quanto vemos? O quanto não vemos? Temos consciência do que não vemos? Se nos é dado a oportunidade de ajudar a ver, ajudamos? O quanto nos acomodamos? Como esta nossa capacidade de questionar? Um livro sobre a aflição e vulnerabilidade humana, uma obra clássica inquietante, que não dá para ficar indiferente, devendo ser lida e relida sempre, por seu poder de surpreender a cada novo detalhe percebido. A obra foi adaptada lindamente para as telas do cinema em 2008, Fernando Meireles tem a minha admiração por fazer esta transição com as modificações necessárias, mas sem perder a essência da história, o que é percebido nas próprias palavras de Saramago: “Sinto me tão feliz agora como estava quando acabei de escrever o Ensaio sobre a cegueira”.  A cada cena percebemos nosso egoísmo, fragilidade e indiferença. Há uma linha tão tênue que mantêm nossa civilidade, Ensaio sobre a cegueira nos revela isto, as vezes de forma tão densa outras tão subjetiva, nos mostra toda podridão humana e sim a responsabilidade de quem pode enxergar onde todos estão cegos. Irônico é que foi preciso uma cegueira generalizada para nos faze enxergar como o mundo é de fato. "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara". (livro dos conselhos). …

TIM BURTON: 5 Filmes Pra Conhecer

Tim Burton, é um fruto dos anos 1960: uma criança solitária e sem amigos que criou um mundo particular, cheio de monstros, que se tornou seu refúgio gótico e, mais tarde, ganhou vida material nas telas de cinema. Talvez esta seja a melhor explicação para a estética inocente, quase infantil, que vem impregnada nas fotografias de suas obras. Com uma dedicação acadêmica absorveu todos os clássicos do gênero terror e a primeira fase da ficção cientifica na sétima arte. Aos treze anos, Timothy William Burton, no subúrbio de Hollywood, começa a praticar a arte da filmagem, dando vida a Tim Burton, o cineasta que será arauto daquele mundo gótico do infante Timothy. Muito enaltecido pela primeira metade de sua obra, o cineasta se vê extremamente criticado por algumas de suas obras mais recentes (que o digam "Sombras da Noite" [2010] e "A Fantástica Fábrica de Chocolate" [2005]). Hoje, vamos destacar cinco filmes para conhecer  o universo de Tim Burton.  1) BATMAN (1989) Burton foi o responsável por trazer às telas um Batman mais fiel aos seus atributos sombrios e assombrado por conflitos diversos, dando profundidade ao personagem que nasceu nos quadrinhos da DC COmics, pelas mãos de Bob Kane, e que foi embalado num viés cômico nos seriados sessentistas. As interpretações dos antagonistas, Michael Keaton e Jack Nicholson, Batman e Coringa, respectivamente, são os itens mais saborosos deste filme. Quem não se recorda da cena em que o vilão, Coringa, em um resplandescente terno roxo e maquiagem digna de uma palhaço louco, saca sua arma peculiar? Até Heath Ledger encarnar o personagem, o Coringa de Nicholson era lembrado como o melhor vilão dos quadrinhos no cinema! Além disso, aos meus olhos, Keaton foi o ator que melhor conseguiu encarnar a alma atormentada de Bruce Wayne em todas as suas versões cinematográficas até agora, muito em consequência do clima melancólico e de romance pós-punk que Burton envolveu sua versão do Homem Morcego.   2) EDWARD MÃOS DE TESOURA (1990) Em uma de suas obras mais pessoais, Burton conseguiu fazer uma sátira social carregada de alegorias e embasada no tradicional arcabouço dos contos de fadas. Mostrando-se inquieto quanto a sua arte, fugiu dos efeitos especiais que foram tão bem sucedidos em "Batman" (1989), para se dedicar a uma obra menos comercial e que seria, quiçá, seu ápice na sétima arte. O dilema da criatura (espetacularmente interpretado por Johnny Depp), isolada da realidade mundana, que perde seu criador ( numa pequena aparição do gênio Vincent Price, a quem dedicamos esse post ) e protetor  não era mais novidade naquela época, bem como o dilema de uma criatura diferente num mundo egoísta, preconceituoso e luxurioso como o nosso. Uma alegoria que encontra lugar no coração de quase 90% da audiência que experimenta essa deliciosa película, um trágico romance gótico, ao melhor estilo Goethe. Talvez a última gota de ambição, ousadia e eficiência na reconstrução do conto de fadas como gênero.   3) O ESTRANHO MUNDO DE JACK (1993) Este filme em animação é uma fábula de Natal maluca, tão onírica quanto um pesadelo, que acontece uma noite em que o céu é tão escuro e que a lua é tão brilhante, e um milhão de crianças fingindo que estão dormindo não têm um natal para lembrar. Como Burton nunca gostou de contos de fadas usuais, esta animação musical foge aos padrões que a Disney empacotava sua produção em série de fracas animações. Destaque às ótimas canções que entremeiam o filme, principalmente às faixas menos melódicas que o esqueleto maníaco-depressivo Jack entoa em sua persona confusa anti-heroica.  A verdade é que desde jovem Tim Burton nunca gostou do contos de fada usuais, sendo este filme um exemplo de sua ideia conceitual, um reflexo de quem tinha como contos de fada, na infância,  os filmes de monstros. Apesar de Burton ter criado a história e os personagens quando trabalhava na Disney, ajudando no filme  O Cão e a Raposa , ele não escreveu-o e nem o dirigiu, sendo apenas seu coprodutor. Todavia, a marca sombria, grotescamente inofensiva, bizarra e quase autobiográfica que permeia a obra de Tim Burton está gravada em cada quadro desta animação.   4) ED WOOD (1994) Talvez a maior controvérsia da lista,  "Ed Wood" traz Burton explorando o gênero biografia (que seria magistralmente repetido em "Big Eyes" ), onde a veracidade dos fatos  é, em geral, duvidosa, mesmo que ele tenha se baseado num livro para contá-la. Mesmo assim, em meio a carência de discussões acerca de peculiaridades do personagem e uma excessiva autorreferência (são perceptíveis remissões a ecos de sua própria obra), esta talvez seja a trama mais bem amarrada de Tim Burton, com destaque à interpretação de Depp, que consegue trazer a emoção para o protagonismo, mesmo quando o visual gótico soa mais clamoroso, muito em decorrência do humor peculiar advindo das excentricidades  de Ed Wood. Existe um perene clima de ironia, principalmente na interpretação para Bela Lugosi, que torna o filme envolvente e cativante, ao fotografar uma parte da vida do diretor Ed Wood, nos anos 50, quando ele se via às voltas com atores desajustados, incluindo Bela Lugosi, e produziu filmes de péssima qualidade, que o fizeram passar para a história como o pior diretor de todos os tempos e que tinha o hábito de se travestir.   5) SWEENEY TODD: O BARBEIRO DEMONÍACO DA RUA FLEET(2007) "Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet"  é um musical inspirado no livro de Hugh Wheeler, com músicas e letras de Stephen Sondheim, que narra a lenda de Benjamin Barker, um barbeiro da era vitoriana que se vê envolvido numa trama de amor, tristeza e vingança, ao lado da Senhora Lovett. Podemos dizer que Burton transformou este roteiro numa versão pop/dark/gótica do clássico  "O Conde de Montecristo". Claro que muitas músicas da trama original do teatro foram cortadas e até mesmo retiradas para que a película não se estendesse demais e quebrasse o ritmo por longos diálogos intercalados pela trilha sonora. Além disso, Burton banhou sua versão em muito sangue, beirando os moldes "tarantinescos" , que deu certa jocosidade à trama, em contraste ao sisudo, raivoso e insone Sweeney Todd de Depp, que surpreendeu pela performance como cantor. Talvez este seja o último filme em que Tim Burton usou toda a pureza de seu universo, com clima sombrio fantasioso.   O melhor de todas as listas é o que nelas não está elencado, como diz um velho aforismo da cultura pop. Além destes cinco filmes escolhidos, "Os Fantasmas Se Divertem", "Batman: O Retorno",  "A Noiva Cadáver", "A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça", "Alice", "Grandes Olhos" também poderiam figurar nesta lista como representantes da arte cinematográfica de Tim Burton, contendo marcas fortes de sua personalidade.  …