UNIVERSOS PARALELOS: Ciência ou Ficção Científica?

Júlio Verne nos mostrou mais de uma vez que a ciência pode evoluir de um modo tal, que a ficção científica pode vir a se tornar realidade. Dos submarinos e viagens à Lua, até chegarmos aos dias de hoje, onde a ciência se abre para um nova possibilidade antes relegada ao cinema, literatura e produções televisivas. Estou me referindo aos universos paralelos. A ideia de que existem cópias de nosso universo, ou outros universos independentes, tem ganhado espaço cada vez maior dentre a comunidade científica. Em grande parte, esta abertura para novos pensamentos se dá pela nossa incapacidade de explicar a origem do universos em que estamos alocados. Desde as primeiras civilizações tentamos dar um sentido, não necessariamente lógico, para o advento do nosso universo. Universos Paralelos: Estaríamos às portas de novas considerações científicas antes relegadas à ficção? Passamos pela fase em que nossa gênese era descrita como uma mera separação entre céus, terra e água, criados por um mediador entre céus e terra. Com o passar dos tempos, estas formas de explicar como viemos a existir se tornaram lendas, parte de folclore e bases religiosas, sendo a busca de uma justificativa científica para o advento de nosso universo o Santo Graal da ciência moderna. Esta cruzada científica tem como arma principal o telescópio, que, apesar de toda a sua evolução, ainda possui um pequeno calibre para o vasto terreno que buscamos desbravar. Além do mais, a medida que tomamos contato com algumas respostas, surgem inúmeras questões ainda mais complexas. Tivemos o problema da geometria do universo, Edwin Hubble detectou sua expansão, já encontramos indícios de uma desaceleração desta condição e, agora, nosso problema se resume a uma tal singularidade. Singularidade : O problema que aparece ao tentar se descrever o início dos tempos pela teoria de Einstein, tem desafiado os cientistas por algumas décadas. Esta singularidade é uma pedra tão grande no sapato dos cientistas que os tem feito olhar para outras direções em busca de respostas.  A história nos mostra que somos defensores de uma linha de raciocínio até que outra mais apropriada apareça. Ao que tudo indica, este comportamento se repete agora, quando uma parcela da comunidade científica começa a se interessar pela teoria de que nosso universo é apenas um de muitos. Este pensamento ganhou o mundo em 1954, quando um aspirante ao doutorado da Universidade de Princeton propôs a teoria dos Universos Paralelos. Hugh Everett conjecturava, em sua corajosa teoria, a existência de universos derivados do nosso, como cópias, sendo o nosso derivado de outros universos, todos eles estando interligados. Estes universos seriam gerados pelos mesmos caminhos, mas culminando em consequências diferentes. Para exemplificar, pensemos em algo concreto. A Segunda Grande Guerra Mundial poderia ter sido vencida por um dos dois lados. Cada uma destas possibilidades gera um universo diferente. No nosso universo, o grupo de nações liderados pela Alemanha saiu perdedor, mas, em um outro universo paralelo, eles saíram vencedores e o mundo é completamente diferente. O autor Philip K. Dick explorou este exemplo em sua magnifica obra literária O Homem do Castelo Alto,  indicada como uma das 22 obras para conhecer a ficção científica . Ou seja, cada possibilidade estaria ligada a um universo diferente. Após mais meio século, esta teoria sai das páginas dos livros de ficção científica, graças à nossa incapacidade de contornar o problema da singularidade, que vem da falha na teoria de Einstein em descrever o início dos tempos, como se voltássemos o filme do universo até o ponto onde tudo se agrupava antes do big bang . Universos Paralelos : A ideia de que nosso universo é apenas um de muitos começa a ser acolhida.   A dificuldade de explicar nosso universo tem levado nossos cientistas a considerarem novas teorias. Porém, a teoria do Multiverso esbarra do problema de não poder ser testada e a cosmologia moderna se tronou basicamente experimental. O obstáculo volta exatamente à singularidade, pois toda a informação que temos está limitada pela distância que a luz pode percorrer até o início dos tempos. Mesmo assim, a teoria do Multiverso ganhou um forte defensor, o americano Brian Greene, grande nome da cosmologia e da física de partículas. Em seu livro Realidade Oculta , Greene se vale de fórmulas matemáticas para mostrar a existência de realidades paralelas. Ou seja, matematicamente as realidades paralelas são uma possibilidade e ele imaginou nove conceitos de universos paralelos em sua obra. Em um destes cenários, nosso universo se originou em um de vários big bang's , como bolhas de sabão estourando no meio de um banho de bolhas de sabão. Noutro cenário, as dimensões paralelas circulariam dentro das bolhas. A mais complexa destas propostas de Greene imagina que seríamos cópias holográficas de uma realidade paralela. Para elucidar um pouco mais este instigante tema, deixo o vídeo de uma das melhores séries científicas produzidas nos últimos anos e já apresentada neste blog, trata-se de  Through the Wormhole  (para acessar o texto, clique aqui ). O Multiverso é Pop A teoria dos universos paralelos não é algo tão recente como imaginamos. John Dee, um "mago" do século XVI já propunha a existência de Terras interligadas que podiam se conectar na Groenlândia. Esta é a teoria mais excêntrica de John Dee, mas ainda não tivemos a capacidade de invalida-la por argumentos que não esbarrem em nossa ignorância científica. Segundo ele, nosso planeta Terra não seria exatamente redondo, além disso, a Terra seria composta de várias esferas superpostas alinhadas ao longo de outras dimensões. Entre cada um destes corpos esféricos existiria um ponto de tangencia que funcionaria como superfícies de comunicação e no nosso plano dimensional tal superfície seria a Groenlândia. Por este motivo, orientou os governantes do Império Britânico sobre a necessidade de dominar aquele gelado terreno (para saber mais, clique aqui). Claro que neste período o termo "universo paralelo" ainda não havia sido cunhado e, posteriormente, ficou relegado à ficção. Os universos paralelos foram utilizados da mais diversas formas dentro da cultura pop. Stephen King se valeu do mundos paralelos em sua genial série literária  A Torre Negra e Philip K Dick criou toda uma realidade paralela em O Homem do Castelo Alto , que ainda imprime um terceira realidade paralela dentro da sua proposta. Na saga Star Wars  as naves se utilizam dos universos paralelos para driblar o lime de velocidade do nosso universo.   Philip Pullman é um escritor inglês que também se valeu do multiverso em sua obra. Responsável pela saga  Fronteiras do Universo , que compreende três livros:  A Bússola de Ouro, A Faca Sutil  e  A Luneta Âmbar , ele ambienta sua trilogia através de um muitiverso, deslocando sua história por diversos mundos paralelos. O primeiro livro da série se dá em um mundo aos moldes do nosso na era vitoriana, onde o mais notável meio de transporte era o zepelim. Este seria um universo paralelo ao nosso, onde, por exemplo, as igrejas cristãs são unificadas e João Calvino foi um Papa de uma igreja referenciada como Magisterium, que controla todo o mundo ocidental e oriental. Apesar de parecer um universo paralelo mais atrasado, eles possuem conhecimento de metafísica e de física quântica. Usando uma amostra de DNA, uma pessoa pode acompanhar outra de qualquer universo paralelo e perturbar o tecido do espaço-tempo para formar um profundo abismo do nada, forçando a vítima a sofrer um destino muito pior do que a morte normal. Em Star Wars, o maior fenômeno pop da ficção científica, o "problema" do limite da velocidade da luz que os elementos dos nosso universo estão sujeitos é solucionado com um salto para o hiperespaço, enviando a nave para outra dimensão paralela onde não exista esta barreira de velocidade. Entretanto, nenhuma outra produção se valeu de modo tão eficiente quanto a série Fringe. Já considerada um clássico da ficção científica moderna, esta produção seria um híbrido das produções Arquivo X e Além da Imaginação , mas aqui os universos paralelos são protagonistas do enredo. No seriado três agentes de um divisão especial do FBI usam a ciência para solucionar mistérios que tem como ponto central as viagens entre dois (ou seriam mais?) universos paralelos. A história se desenvolve de modo tão conciso que na quarta temporada existe uma verdadeira batalha entre os dois universos. No mundo das HQ's, principalmente as produzidas pela DC Comics, as abordagens em realidades paralelas são inúmeras, com variantes interessantes, mas que pela riqueza de detalhes merecem uma postagem restrita a tal tema. Fringe: Trailer da 4ª temporada. …

ERNEST HEMINGWAY: O Escritor no Campo dos Espiões

No mundo da espionagem existiu uma classe especial de espiões, conhecidos como amadores, que eram homens ou mulheres sem nenhum treinamento formal sobre espionagem e cujos esforços eram conduzidos apenas pelo patriotismo. O termo espião amador denota pessoas que voluntariamente prestam serviços a seu país como espiões ou que concordavam em servir como ativos sem remuneração, simplesmente por ter algum tipo de acesso à importante inteligência estrangeira. Um dos mais famosos espiões amadores americanos foi o escritor Ernest Hemingway que, agindo contra a corrente comum, permaneceu ativo durante os tempos de guerra, período em que a necessidade dos amadores era reduzida. Enerst Hemingway sempre fora uma figura pitoresca, dentro ou fora da literatura. Seu círculo de amigos ia de graçons, prostitutas, e artistas, a escritores, caçadores, marinheiros, e até mesmo alguns oficiais do governo. Conta a história, que um mês depois de os Estados Unidos mergulharem no segundo conflito Global, o presidente Roosevelt ordenou à marinha que recrutasse um grande grupo de civis que pudessem usar suas embarcações numa patrulha atrás do U-Boat, um submarino alemão utilizado no conflito. Dentre os voluntários, um dos mais empolgados era Ernerst Hemingway, em seu próprio Iate, e de arma no coldre. Documentos comprovam que durante a Segunda Guerra Mundial, o escritor destinou seus esforços para além da literatura. Hemingway teve relações com a seção de inteligência americana na embaixada em Havana, com ao menos três agências, sendo uma delas o FBI. No mesmo período, contactou a inteligência soviética, a NKVD, uma predecessora da KGB. Spencer Tracy, Ernest e Mary Hemingway, e outros no bar La Florida, em Havana. Historicamente, foi um dedicado anti-facista. Em 1942, Hemingway usava seus contatos em Havana para ficar de olho nos espiões das Potências do Eixo, especialmente nas cidades com grandes comunidades espanholas. E neste período em Havana, mesmo não encontrando nenhum espião do Eixo, produziu inúmeros relatórios. Conta-se que o único espião nazista na cidade foi desmascarado pela inteligência britânica, inferindo-se que ele frequentava os mesmo ambientes que Hemingway. Esta operação em Havana nasceu de uma ideia ao lado do embaixador Spruille Braden, com o intuito de que Hemingway organizasse o "serviço de inteligência" que vigiasse facistas na capital cubana. Braden tinha em mente, na verdade, um serviço de contra-inteligência. A operação foi batizadas pela embaixada americana de "The Crook Factory" , que adicionou, por causa de Braden e seu subordinado, Robert P. Joyce, à lista de problemas, os comunistas que já se avizinhavam no México. Todavia, a relação entre o escritor espião e o FBI não era das melhores, com desgaste advindo de críticas duras e severas, baseadas em acusações de conflito de interesses de ambas as partes. Edgar Hoover, diretor do FBI, baseado  nos antecedentes alcoólicos de Hemingway, teria declarado que o escritor seria "o último homem, em minha consideração, a ser usado em qualquer competência. Seu juízo não é dos melhores". Muitos nomes importantes do alto escalão político-militar dos EUA tinham reservas expressas sobre o temperamento e as tendências esquerdistas de Hemingway. Hemingway era um correspondente de guerra na França, que foi atirado ao campo de batalha com o intuito de coletar informações táticas e de inteligência que pudessem auxiliar os Aliados na liberação de Paris do poder alemão. Na verdade, o detalhes da participação na II Guerra Mundial de Ernest são obscuros. Em 1941, antes do EUA adentrarem ao conflito, o escritor e sua terceira esposa viajaram para a China. Em julho de 2009, o The Guardian noticiava que o livro  "Spies: The Rise and Fall of the KGB in America" listava o nome de Hemingway dentre os agentes da KGB em solo americano. O livro é baseado em anotações que um oficial da agência fizera quando teve acesso a arquivos de inteligência soviética em Moscou. Segundo as informações, ele teria sido recrutado em 1941, antes de sua viagem à China, e se encontrado com agentes da KGB em Londres e Havana. Todavia, os mesmos registros alegam que ele nunca fornecera informações políticas úteis e nem foi testado em trabalhos práticos. Mesmo assim, sua real intenção não é certa. Conta-se que em março de 1942, enquanto "participava" da operação em Havana, Ernest viajou ao México, onde teria encontros secretos com Gustav Regler, amigo dos tempos de Guerra Civil espanhola, e comunista desiludido. Ernest Hemingway ao lado de Gustav Regler O próprio Ernest admitiu ter visitado Regler no México, mas que o amigo já havia abandonado o comunismo por causa do pacto Hitler-Stalin. Todavia, em suas memórias, Regler declara que o escritor tinha uma paixão pelo argumento comunista, por achar ser a melhor esperança para bater os nazistas. Os registros da NKVD também sugerem que a agência tinha planos para ele, que incluia-o como principal agente influenciador cultural, responsável pela escrita de artigos para eles. Além disso, sua posição social podia estender a influência comunista aos meios políticos e intelectuais da sociedade norte-americana. Sabe-se que Hemingway se encontrou com a NKVD em cinco ocasiões entre 1943 e 1945, e a agência o define como um espião soviético. Entretanto, considerando a época, é difícil reconhecer que Hemingway fosse um espião da NKVD, por causa de seu longo repúdio aos facistas e em 1941, quando supostamente foi recrutado pela agência, o acordo entre Hitler e Stalin ainda estava em voga. Apesar do autor assumir que admirava alguns comunistas e a forma como eles defendiam seus ideais, mas não se declarava adepto da ideologia. Contra esta tese temos uma carta escrita de próprio punho por Heminway, datada de 13 de fevereiro de 1947, onde ele parece defender para si mesmo a União Soviética e seu trabalho na Espanha, numa análise lógica e um pouco apaixonada. Em 1944, Hemingway decidiu se mudar para a França com o objetivo de se tornar um correspondente de guerra. Neste período, se envolveu com um grupo de comunistas do FTPF (Francs-Tireurs et Partisans Français), "Fuzileiros e Apoiadores Franceses", onde o escritor exerceria uma influência quase patriarcal. Hemingway (ao centro) e o coronel David K. E. Bruce (à esquerda) com membros do French Underground, fora de Paris. O passo seguinte foi estabelecer um pequeno quartel general de inteligência que, ao longo de quase uma semana, liderou ao lado de outros dois nomes, operações paramilitares em Paris, com o objetivo de coletar informações que eram repassadas aos americanos. Mesmo sendo dedicado e disponível para o serviço de espionagem, seus esforços só ofereceram ganho para suas obras literárias. Sua marca maior no "serviço de inteligência" americana se encontra da libertação de Paris durante a II Guerra Mundial. Confira nossa lista de três livros para conhecer a literatura de Ernest Hemingway, aqui ...    REFERÊNCIAS Nicholas Reynolds.  "Ernest Hemingway, Wartime Spy: A Spy Who Made His Own Way"  - Junho de 2012; Ernest Volkman.  "A História da Espionagem" . Editora Escala, 2013. …

ESTADO ISLÂMICO: Entendendo o Ministério do Terror

(adsbygoogle = window.adsbygoogle || []).push({ google_ad_client: "ca-pub-9767849814663729", enable_page_level_ads: true }); O ano de 2015 se viu encharcado de sangue em atentados terroristas ao redor do mundo. Alguns foram mais expl orados pela mídia, outros foram relegados às páginas das redes sociais mais engajadas. Ao todo foram 11 países flagelados pelos atentados creditados ao Estado Islâmico (EI), sendo que destes, 10 foram de maioria muçulmana, fazendo da França uma exceção. C laro que as tragédias advindas do terrorismo não são novidades do novo milênio, muito menos restrita aos grupos do Oriente Médio, sendo o terrorismo uma tática tão antiga quanto as guerras, experimentada tanto por poderosas nações quanto pelos países do "terceiro mundo". Os americanos temiam as torturas dos vietcongues, algumas cruzadas propagavam o terror em locais islamitas e não podemos esquecer dos grupo radicais europeus IRA (irlandês) e ETA (basco). Para as gerações mais novas, o terrorista se tornou sinônimo de muçulmano, mas é sempre importante utilizar estes exemplos para salientar que já existia terrorismo antes dos radicais islâmicos. Nos últimos anos, a expansão do Estado Islâmico, que tem alongado seus tentáculos além da Síria e do Iraque e investido em ações extremas, só tem reforçado esta máxima que alinhava o Islã com o terrorismo. Para tentar jogar alguma luz na questão, vamos explorar alguns pontos deste grupo, que pode ser o mais poderoso e organizado que emergiu no Oriente Médio. As questões são muito mais delicadas e profundas, sendo nosso único objetivo dar um panorama superficial de toda a teia confusa que abarca este assunto.    Jihadistas, Sunitas, Xiitas e as Origens do Estado Islâmico O maior problema da consciência ocidental é a falsa definição da mídia de que o Estado Islâmico é "um grupo de beduínos jihadistas fanáticos". Esta é uma simplificação preconceituosa e obtusa, que esconde o sofrimento dos próprios muçulmanos que estão sob controle deste movimento radical e da própria compreensão do tamanho desta organização. " Jihad " é um termo árabe que descreve o esforço do islamita em cumprir seus deveres religiosos, sendo mais importante o de disseminar a fé muçulmana. No Islã, o termo pode denotar a "luta interna de um indivíduo contra instintos básicos, o esforço para construir uma boa sociedade muçulmana ou uma guerra pela fé contra os infiéis." Como em todas as religiões, alguns querem cumprir seus deveres pela força, de acordo com as mais diversas interpretações. Os muçulmanos têm o objetivo de reordenar o governo e a sociedade de acordo com a lei islâmica, enquanto os jihadista são identificados como os muçulmanos sunitas que entendem a luta violenta como necessária para a restauração da lei de Deus na Terra e defender a comunidade muçulmana, entendendo a jihad como um dever individual, que deve ser cumprido por todos os muçulmanos capazes, assim como as preces rituais e o jejum durante o Ramadã. Os desejos dos diferentes grupos jihadistas podem variar. Alguns buscam Estados islâmicos em seus respectivos países de origem (Boko Haram na Nigéria e o Movimento Islâmico do Uzbequistão, são exemplos), enquanto outros grupos querem criar um "califado" (governado de acordo com a lei muçulmana pelo califa, que significa "substituto de Deus na Terra") que se espalhe por diversas regiões (a Al-Qaeda, por exemplo, quer restaurar o antigo califado que ia da Espanha e norte da África até China e Índia). Ainda existem as diferenças entre sunitas e xiitas (defensores de que a única liderança legítima para o Islã deveria vir da linhagem direta de Maomé), que em termos de lei, apesar de ambos seguirem a Sharia, possuem interpretações diferentes sobre as punições. O Estado Islâmico surgiu enraizado na rixa ente muçulmanos sunitas e xiitas quando, em 1989, o jordaniano Abu Musab as-Zaraqwi se dirigiu para o Afeganistão com o atrasado objetivo de lutar contra a União Soviética e, dez anos depois, fundou o grupo terrorista Al-Tawhid wa al-Jihad, com o objetivo principal de exterminar xiitas.   Em 2004, Osama Bin Laden relutantemente o aceitaria para comandar a Al Qaeda no Iraque, dando ao selvagem Zaraqwi dinheiro, armas e soldados para lutar contra os Estados Unidos. Foi nas prisões iraquianas que os jihadistas se comunicaram com antigos nomes do regime de Saddam Hussein, recém derrubado pelos americanos. Desta troca de ideias nasceu o Estado Islâmico, que ainda tem como um de seus objetivos perseguir os xiitas. Algumas informações da mídia ocidental diziam que Zaraqwi era a ligação entre Saddam Hussein e Osama Bin Laden, informação que se mostrou falsa. Todavia, o Estado Islâmico preencheu no Iraque um vácuo criado para apoiar o lado dos sunitas conta os xiitas. A invasão americana criou uma divisão tripartite cheia de tensão que foi dominada pelos xiitas. Estes, por sua vez, iniciaram sua perseguição aos sunitas, que viram no Estado Islâmico uma forma de proteção. Existem diversos Estados sunitas no Golfo que desejam apoiar o Estado Islâmico como uma força anti-xiita.  Em 2013, houve a primeira apresentação do Estado Islâmico no Iraque e na Síria (ISIS em inglês, ou DAESH em árabe), nome que foi resumido para Estado Islâmico ou Califado, como demostração do objetivo da expansão territorial. As diferenças básicas entre Estado Islâmico e Al Qaeda é que o primeiro já possui um território e um regime de governo baseado na lei islâmica.   Além disso, acreditam que o fim dos tempos é iminente, sendo de responsabilidade do EI forçar a conversão dos povos. Para isso, buscam a expansão do território do Islã como forma de preparação para o juízo final.   Entendendo o Estado Islâmico A primeira questão que nos aflige o raciocínio neste momento é qual seria a causa do EI ter estabelecido sua sede na Síria se nasceu no Iraque? A resposta é a guerra civil que se instalou na Síria a partir de 2011. Este conflitou causou buracos no poder do país, ocupados pelo Estado Islâmico com a conivência do ditador sírio Bashar Assad, que via no grupo uma ameaça menor que a dos rebeldes que enfrentava. A estratégia do Estado Islâmico foi criar uma estrutura mais governamental, com serviços padronizados, além dos relatos de que eles tem repartido os lucros do petróleo com alguns líderes tribais sunitas. Isso deixa clara a sagacidade do grupo, mostrando saber que não se pode construir uma nação sem o apoio popular. Tentam então criar boas relações com a população que se mostra submissa e com os líderes locais, dando a estes líderes o controle da água e terras cultiváveis, agindo como um Estado. Uma vez no poder, o Estado Islâmico mantém as instituições locais após um juramento de lealdade, alem de instituir a política de tribunais com base na lei islâmica e transformar as escolas em centros de estudos do Corão. Hoje, cerca de oito milhões de pessoas se encontram nas áreas controladas pelos terroristas, mantidos pelo medo das punições aplicadas naqueles que demonstrarem algum descontentamento. Um ponto que desperta questões interessantes seria o financiamento do grupo. O alicerce sobre o qual foi construído o Estado Islâmico ainda traz uma base econômica melhor trabalhada que os outro grupos jihadistas, explorando a extração de petróleo no Iraque e na Síria, sem nos esquecer do financiamento inicial de países como Arábia Saudita, Catar e Kweit nos primeiros tempos de luta armada na Síria. Além disso, os comerciantes e industriais locais são obrigados a entregar uma quinta parte de seus rendimentos ao Califado e um imposto de 50% sobre o salário do empregados públicos em Damasco e Bagdá é cobrado. O sequestro de reféns ocidentais é outra fonte de renda do Estado Islâmico e estima-se em 45 milhões de dólares anuais o lucro do grupo com esta prática. Ainda faturam com venda de antiguidades roubadas por contrabandistas internacionais, doações de apoiadores externos. Armamentos e fardamentos foram obtidos nos depósitos da era Hussein ou comprados de contrabandistas. Uma parcela destes fardamentos advém da China ou da Faixa de Gaza, em confecções controladas pelo Hamas. Todo este esquema é comandado por Abu Bakr al-Baghdadi, autoproclamado califa, ou seja, um representante de Maomé na Terra. Abaixo de seu poder no grupo estão sete ex-oficiais do exército iraquiano da era Saddam, sendo este grupo o responsável pela maior parte das decisões do Estado Islâmico, ficando a figura de Al-Baghdadi mais como ícone, um líder religioso e um guerreiro em clara referência ao Profeta, mas o Estado Islâmico é uma organização que não é comandada por um homem só. Uma análise final nos evidencia que o Estado Islâmico é uma organização muito maior e mais séria do que apenas fanáticos religiosos, como o Talibã, tendo demonstrado certo treinamento militar, além de um apelo de recrutamento gigantesco na Internet. As investidas internacionais são intensas e o contato com simpatizantes que ajudam a disseminar sua propaganda na rede mundial de computadores é contínuo, sendo que cerca de duzentos mil tuítes são publicados em apoio ao grupo, em média, diariamente. Muitas destas contas são bloqueadas, mas rapidamente substituídas por outras de fácil criação. Este fato só reforça as ambições globais do Estado Islâmico, sendo que quase trinta mil estrangeiros se dirigiram para a Síria com o intuito de se juntar ao grupo no Iraque. Além disso tudo, nunca é demais anotar entre as atividades do grupo o assassinato de civis cujo resgate não seja pago e das pessoas que decidam não se submeter à ideologia do Estado Islâmico: o extermínio de minorias como cristãos, Yazidis e xiitas; assassinato e estupro de homossexuais; escravidão sexual para mulheres pertencentes às minorias; tortura; destruição e saque de patrimônios históricos, principalmente relíquias de outras religiões e de civilizações antigas.   Cuidado Com a Consequente Islamofobia. Todo este panorama favorece para o alicerçamento da uma verdadeira fobia aos islamitas, associando sua religião e cultura com o terrorismo de modo irresponsável e inconsequente. Não se deve misturar grupos radicais com sociedades humanas complexas e as religiões que seus membros praticam. O mundo muçulmano vai além do que geralmente a maioria das pessoas entende geograficamente, englobando persas (Irã e curdos), turcos (Turquia e repúblicas do Sul da Rússia), indonésios, negros, indianos, malaios, árabes, norte-africanos e europeus situados nos Bálcãs. Os muçulmanos são as maiores vitimas das atrocidades cometidas em nome de Alá, sendo que os líderes das mesquitas tem condenado a radicalização. É uma minoria local que apoia as atitudes radicais, principalmente do Estado Islâmico. O que o mundo ocidental precisa ler além do que nos é apresentado pela mídia, é que tanto o cristianismo quanto o islamismo são religiões irmãs, advindas do judaísmo, sendo que o Jeová dos cristãos é o mesmo Alá dos islamitas. Nós ocidentais somos praticantes assíduos da intolerância religiosa dentro do próprio cristianismo, sendo a atual islamofobia que ferve no mundo apenas uma extensão de nosso preconceito contra os muçulmanos. Devemos repensar esta atitude de tomar todos os indivíduos de uma sociedade pelo que apenas alguns deles praticam efetivamente. Apesar das inúmeras declarações de repúdio aos atentados terroristas mais recentes por parte dos líderes religiosos, a demonização dos muçulmanos vem se fortalecendo dentro da política européia, embasado em frases como "... o EI é a pior ameaça do mundo civilizado" , sem se dar conta do problema em associar toda uma sociedade com um grupo extremista. Em contrapartida, não vemos muito esforço de grupos muçulmanos contrários às ações do EI se reunindo em um movimento de cooperação não militar em oposição a estes grupos jihadistas. …