ABBA FOREVER: A banda que era um retrato dos anos 1970

Por  Paulo Lopes Raramente versões musicais de canções que são sucessos, ou não, mundo afora me agradam. E o grupo sueco ABBA, teve no Brasil, uma divulgação enorme, via torta, justamente pela grande quantidade de suas musicas que receberam versões em português . É preciso lembrar, que versões na maioria das vezes aproveitam apenas a melodia e arranjos musicais, mudando totalmente a letra, dando um novo sentido a obra criada originalmente pelo artista compositor. Alguns artistas –ou seus herdeiros- exercem um controle rígido sobre essas versões e não deixam serem gravadas faixas que deturpem ou mudem o sentido da gravação original. Há alguns anos, Rita Lee gravou um disco-homenagem com versões de musicas dos Beatles, mas várias canções foram bloqueadas por Yoko Ono, que não gostou de algumas dessas versões; Rita conta isso em sua autobiografia. Parece que isso nunca aconteceu com as músicas do ABBA no Brasil. Infelizmente. Por aqui rolaram versões – que foram sucesso- mas tinham pouco a ver com as canções originais do grupo. Quem não se lembra da Perla, não é? Uma bela paraguaia, que nos anos 1970, com seu sotaque carregado fez sucesso enorme com versões de " Fernando" e "Chiquitita" (por aqui se chamou "Pequenina" ), sucessos internacionais do ABBA. Tendo como origem Estocolmo, Suécia, a banda foi formada em 1972 e começou a galgar o sucesso após vencerem o Eurovisão, o maior festival de canções da Europa, em 1974. O nome ABBA é um acrônimo dos quatro integrantes da banda, Agnetha, Bjorn , Benny e Anni-Frid (Frida). Agnetha e Bjorn eram casados, bem como Benny e Frida. A partir daí os sucessos do quarteto alcançaram o mundo todo e na década 70, sempre esteve entre os campeões em vendagem de discos e no topo das paradas de sucesso. Caracterizada por ritmos impregnantes, letras simples e pelas vozes harmoniosas de Agnetha e Frida, as musicas do ABBA cativaram multidões. O grupo caracterizado como pop ou europop , foi um retrato da década de 70, nas roupas, nos arranjos musicais e, também, aproveitou-se muito bem do boom dançante da discoteca , visto que suas musicas já pela própria concepção era um convite a dança. O mundo inteiro ouviu e amou ABBA. Seus videoclipes (alguns podem ser conferidos no fim do texto), com as roupas extravagantes e multicoloridas, se espalharam em TVs do mundo inteiro e até, o hoje aclamado diretor Lasse Hallstrom(QUERIDO JOHN, AS QUATRO VIDAS DE UM CACHORRO), fez um semi-documentário, ABBA-O GRANDE SHOW (ABBA-The Movie, 1977, que pode ser conferido neste link , infelizmente sem legendas), contando as peripécias de um jornalista para entrevistar o grupo durante uma turnê na Austrália. E ele também foi o diretor de quase todos os clips da banda. E as musicas? Opa!!! Temos aí um capitulo a parte. Em seus 10 anos de carreira, o quarteto sueco entrou em estúdio para gravar apenas oito discos; O restante ficou por conta de singles(compactos simples e duplos), hits , greatest hits , shows ao vivo, compilações, etc, etc... O primeiro disco foi “Ring Ring” (1973), lançado ainda fora da arrancada do grupo para o sucesso, mas posteriormente, graças a relançamentos, a musica título alcançou um relativo sucesso. Em 1974, foi a vez do álbum “Waterloo” ; E aí a coisa começou melhorar, porque canções como "Waterloo" , "Honey, Honey" e "My mamma said" , já se espalharam pela Europa. "Waterloo" , a canção, foi a vencedora do Eurovison, em 1974. O terceiro disco, de 1975, se chamou simplesmente “ABBA” , mas tinha hits do calibre de "Mamma Mia" , "SOS" e "I do, I do, I do, I do" ; Com esse álbum, a banda consolidou o sucesso. "Mamma Mia" chegou a ficar dez semanas no topo das paradas de quase todo o mundo. “Arrival” foi o quarto disco; Lançado em 1976 e pôs pelo menos mais quatro canções no topo de todas as listas. Olha só as musicas: "Dancing Queen" , "Knowing Me, Knowing You" , "Money, Money, Money" e "Fernando" . Foi, até então, o mais bem sucedido dos álbuns lançados pelo grupo. “The Album” foi lançado em 1977 e trouxe sucessos como "Take a chance on me ", "The Name of the game" e "Thank you for the music" . Em 1979, bem no meio da moda das discotecas, chegou as lojas “Voulez- Vous” , o sexto álbum. E, é claro, o ritmo que contagiava o mundo influenciou nitidamente a concepção do álbum. Mas isso não significou menos sucesso ou menos qualidade; As dançantes "Voulez-Vous", "Angeleyes" e "Does Your mother know" , tocaram nas pistas do mundo todo. "Summer Night City" é discoteca pura. E de quebra "I Have a Dream" e "Chiquitita", foram direto para o topo das paradas. Para se ter uma ideia do tamanho do sucesso, esse álbum vendeu, só no Brasil, um milhão e quinhentas mil cópias. Fecho de ouro pra uma década dourada. Discografia do ABBA entre 1973 e 1979... O ABBA estava no auge, vendia como nunca e era sucesso no mundo todo. Mas aí sobreveio uma daquelas mazelas do destino; Os dois casais, A+B e B+A , resolveram pela separação marido e mulher e essas mudanças pessoais refletiram em sua musica. Os dois últimos álbuns da banda, “Super Trouper” (1980) e “The Visitors” (1981) , não alcançaram o resultado comercial esperado. Mas cá entre nós, na opinião desse que vos fala –não sou crítico, sou apenas um fã – são os dois melhores trabalhos da banda. O que aconteceu foi uma leve mudança no estilo musical, agora mais elaborado e menos popular, optando por letras mais profundas e até algumas ousadias. O álbum “Super Trouper” - peço licença aos leitores que aqui vou falar como fã- é delicioso de se ouvir em todas suas faixas. Algumas tocaram muito no rádio, como "The Winner takes all" (que é cheia de referencias a separação dos casais) e "Andante, Andante" (melodiosa e cativante, foi prato cheio para mais uma versão, no Brasil, com Perla, é claro). "The Piper" tem uma batida com tons épicos. "On and on" é daquelas que a gente nunca escuta quieto, assim como "Me and I" . "Happy New Year ", "Our last Summer" e "Lay your love on me" , trazem implícita uma tristeza própria daqueles que se separam e mostram que as moças estavam afinadas como nunca. E finalmente, a belíssima "The Way Old friends do" , cantada quase acapela, ao vivo, é de uma sensibilidade enorme. Já em “The Visitors” (1981), fica mais evidente o novo caminho trilhado pelo grupo. Todo composto por canções fortes, muito voltadas para a realidade que o mundo vivia então. "One of Us" foi o maior sucesso de todo o disco e trazia reminiscências da separação de Agnetha e Bjorn, bem como "When all is said and done" , explorou a dor da separação de Benny e Frida. "The Visitors" e "Soldiers" são musicas contundentes pelo seu tom épico e pelo cunho politico.  “Soldiers write the songs that soldiers sing. The songs that you and I don’t sing...” iniciava o refrão. "Slliping through my fingers" (homenagem a Linda, filha de Bjorn e Agnetha) e "Like an angel passing through my room" (cantada e feita em homenagem a Frida), são mais intimistas, mas nem por isso menos intensas. Completam o álbum "Head over Heels", "I let the music speak" e "Two for the price of One" (entre poucas que trazem a voz dos rapazes em destaque). Pra muitos fãs esse é o melhor trabalho do grupo. Estou entre eles. Descontentes com o declinio comercial e desgastados pelos problemas pessoais e pelas longas e cansativas turnês o quarteto decidiu pelo fim do grupo em 1982. Não houve nenhum anuncio oficial ou coisa parecida. Acabou, acabando. Os rapazes Bjorn e Benny, continuaram trabalhando com musica; Eles produziram vários musicais, inclusive “Mamma Mia!” , que alcançou grande sucesso na Broadway, sendo posteriormente levado ao cinema em filme estrelado por Meryl Streep; O filme fez tanto sucesso que vem aí a continuação, “MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO”. Agnetha e Frida, ainda tiveram, relativamente, bem sucedidas carreiras solo; Frida gravou seu ultimo álbum em 2005 e Agnetha ainda se mantem em atividade até hoje. Alguns fãs ainda sonham com uma volta do grupo e ficaram exultantes quando a poucos dias se anunciou que eles iam se reunir de novo. Mas tudo não passou de boato. O projeto, pelo o que ficou entendido, é reuni-los em apresentações virtuais(?) e também a gravação de uma canção inédita chamada “I Still have Faith in You” , que vai ser apresentada ao publico apenas no final de ano, em um especial para a televisão. De qualquer maneira vai ser bom vê-los reunidos na produção de algo novo. Mas o que vale mesmo é o que eles foram e fizeram. Isso não vai se repetir e é para sempre.…

VOCÊ DEVIA OUVIR ISTO: Johnny Cash, “At Folsom Prision” (1968)

Confira a proposta desta seção  aqui … Dia Indicado Pra Ouvir:  Domingo; Hora do dia indicada para ouvir:  Sete da Noite; Definição em um poucas palavras:  Ao vivo, fora-da-lei, acústico, contra tudo isso que está aí, clássico; Estilo do Artista:   Country/Folk. Comentário Geral :  O ano de 1968 foi tão culturalmente produtivo quanto politicamente tumultuado nos Estados Unidos. Houve uma conturbada eleição presidencial, assassinatos que causaram clamor público (Martin Luther King e Robert Kennedy são os de maior destaque), protestos contra a Guerra do Vietnã e conflitos raciais. Para Johnny Cash foi o ano em que perderia seu amigo Luther Perkins, guitarrista que o ajudaria a gravar, naquele mesmo ano,   "At Folsom Prision",  o álbum ao vivo que ressuscitou sua carreia, e também ajudaria-o a ser respeitado no seio da  country   music norte americana. Registrado em dois shows na instituição penitenciária de segurança máxima de Folsom, na California, para duzentos detentos, em 13 de janeiro de 1968,   "At Folsom Prision"  marca o início dos álbuns ao vivo gravados em cadeias norte-americanas, além de reafirmar Johnny Cash como um artista  "fora-da-lei" . Mas, mesmo que as lendas digam o contrário, Cash nunca esteve em alguma instituição prisional. Em sua autobiografia ele escreve: "Essa ideia  [de que esteve preso]  começou porque escrevi  "Folsom Prision Blues"  do ponto de vista de uma assassino condenado que não se arrependia. Na verdade, nunca cumpri pena em nenhuma instituição. Durante meus anos de anfetamina, passei algumas noites na cadeia, mas só de um dia para outro; sete incidentes no total, datas diferentes, lugares diferentes." Todavia, é inegável que o repertório de   "At Folsom Prision"  investe em canções que dialogam com temas prisionais como os clássicos  "25 Minutes Ago"  (uma contagem regressiva de uma execução),  "Cocaine Blues"  (drogas e assassinatos),  "Green Green Grass of Home"  (também sobre uma execução) e  "I Got Stripes"  (auto-explicativa). Existia uma identificação dos detentos com algumas letras de Johnny Cash, que vivia à margem da sociedade em seus primeiros anos de carreira, e falava dos sofrimentos e  injustiças da vida de uma forma visceral e urgente. Cash já tinha uma postura contracultural  antes mesmo disso virar moda nos anos 1960 e o projeto de um disco ao vivo numa penitenciária só reforçou suas rebeldia e forma anti-convencional de levar sua carreira. Quem, além dele, levaria sua futura esposa, a cantora June Carter,  para uma gravação de um show numa penitenciária? Há uma tensão no ar que está bem impressa na captação, crescendo de acordo com as músicas, e mesmo que nunca tenha frequentado uma instituição deste porte, Johnny Cash adquiriu em suas poucas noites na cadeia um traquejo que o permitia se inserir como um deles durante o show. Na verdade, esse traquejo de Johnny Cash com a platéia de internos também advém de mais de uma década fazendo shows em penitenciárias, desde que a canção  "Folsom Prision Blues" chamou a atenção dos detentos da prisão de Huntsville, no Texas, em 1957. Em 1º de janeiro de 1958 tocou também na festa de ano novo na prisão de San Quentin. Inclusive foram destes shows que Cash se motivou a gravar seu primeiro álbum ao vivo numa penitenciária:  "os shows   [nas prisões] pegavam fogo, os presos ficavam muito excitados e isso me deixava mais empolgado, e daí pensei que se um dia fizesse um disco ao vivo, o lugar ideal pra isso seria uma prisão".  E colocando seu desejo em prática,  "At Folsom Prision",  seu primeiro lançamento ao vivo, disco que marcou o início de uma segunda carreira para Johnny Cash, foi registrado numa prisão, tendo  "Folsom Prision Blues" , seu grande sucesso de 1956,   como   abertura do álbum. Nada mais acertado, pois a performance desta canção viria ser primeiro lugar nos  charts da Billboard. Sem dúvidas, o ápice do  show  é na já citada  "25 Minutes Ago" ,  onde a interação de Cash com a platéia  se acentua e também onde as coisas quase ficam perigosas, de fato. Destaque também para  "Greystone Chapel" uma composição de um preso em homenagem à igreja de Folsom. "At Folsom Prision"  foi lançado em maio de 1968 e seu sucesso  foi tamanho (o primeiro êxito comercial em cinco anos) que no ano seguinte começou o  The Johnny Cash Show , programa semanal que ia ao ar pela rede de televisão ABC. A ideia se repetiria mais algumas vezes em sua carreira (com destaque ao ótimo  "At San Quentin" de 1969), e muito outro nomes da música investiriam em discos ao vivo registrados em cadeias. Um disco obrigatório e, obviamente, VOCÊ DEVIA OUVIR ISTO! Ano:  1968; Top 3:   “ Folsom Prision Blues ” ,  “I Got Stripes” , e  “25 Minutes to Go” . Formação: Johnny Cash (vocais, violão, harmonica), June Carter (vocal), Marshall Grant (baixo), W.S. Holland (bateria), Carl Perkins (guitarra e vocais), Luther Perkins (guitarra), The Statler Brothers (vocais) Disco Pai:  Hank Willians  -    “On Stage! Hank Williams Recorded Live”  (1962) Disco Irmão:   Johnny Cash   –  “At San Quentin”  (1969) Disco Filho:   B. B. King – “Live in Cook County Jail” (1971) Curiosidades :  A música  "Folsom Prision Blues" foi escrita após Johnny Cash assistir ao documentário de 1951,  "Inside the Walls of Folsom Prision",  enquanto prestava o serviço militar na base da Força Aérea americana na Alemanha Ocidental. Por causa desta canção ele perderia um processo de plágio para Gordon Jenkins, que o acusava de ter copiado sua composição  "Crescent City Blues" . O processo só veio em 1968 depois do lançamento do disco. Pra quem gosta de :  Quebrar regras, trovadores, ir contra o sistema, foras-da-lei, violão, gaita e camisas brancas com listras pretas! …