ATUALIZANDO A DISCOTECA:  Alabê KetuJazz, “Alabê KetuJazz” (2018)

Assinar blog por e-mail

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

Alabê KetuJazz, "Alabê KetuJazz" (2018)
Alabê KetuJazz – “Alabê KetuJazz” (2018, Independente) NOTA:10

O Afro-Cuban Jazz, quiçá, seja o formato mais popular de jazz da era pós-Swing, devido à sua exploração febril e “caliente” dos ritmos latino-americanos.

Todavia, o estilo evoluiu dentro de sua proposta ao longo dos anos, abarcando toda uma constelação de músicos sul e centro americanos, que se dedicavam a misturar o Jazz com suas influências musicais regionais.

É fato que a proposta melhor sucedida dentro deste caldeirão de jazz com influências africanas e latinas certamente é a Bossa Nova, que viria nos anos 1960, e logo, pelas mãos de artistas que circundavam Tom Jobim, a musicalidade da herança africana seria inserida na linguagem musical do jazz. 

Aliás, durante toda a audição deste primeiro álbum do Alabê KetuJazz, tinha na mente a saga folclórica impressa no livro “Matinta, o bruxo”, de Paulo César Pinheiro, parceiro de composição de Tom Jobim, Baden Powell e João de Aquino.

Aquele misticismo cultural sul americano do livro poderia muito bem ser harmonizado com a fusão de avant-garde jazz world music empregada pelo Alabê KetuJazz nestas dez composições,  com harmonias atonais e melodias irregulares, alicerçadas pelo ritmo hipnótico e cerimonial da percussão oriunda do candomblé.

Ao mesmo tempo, vemos reversões momentâneas, pontuais, da estética do avant-garde de inserir o ruído dentro de sua imagética, ao dar espaço para que o “silêncio” faça parte das canções.

As aspas se mostram necessárias pelo fato da cama feita pela percussão do candomblé da nação Ketu, quase tribal, ser onipresente.

O Alabê KetuJazz é um  quinteto fundado pelo percussionista francês radicado no Brasil, Antoine Olivier (aprendiz do mestre das percussões afro-brasileiras Dofono de Omulu), e pelo saxofonista e compositor brasileiro Glaucus Linx, que já trabalhou com Carlinhos Brown, Elza Soares, Isaac Hayes e muitos outros.

A destreza de Glaucus Linx em sua linhas instigantes se justifica pelo trabalho que ele já desenvolveu com nomes relevantes da música africana e oriental, colecionando em seu currículo parcerias com artistas como Salif Keita (Mali), Clément Masdongar (Tchad), Kiala (Nigéria/Togo), Jules N’Diaye (Senegal), e Orchestre Nationale de Barbès (Argélia).

A unicidade da proposta é, sem dúvidas, o principal elemento para cativar neste primeiro álbum do Alabê KetuJazz, onde o saxofone nos conta uma história com ritmo ditado pela percussão.

Uma curta cantiga de saudação abre, com fé e emoção em seu entoar, os trabalhos, dando espaço para “Vassi para Omolú em Si bemol menor” se apresentar com seus instrumentos de sopro ora ríspidos, ora melódicos, com harmonias que se escondem, reaparecem, se insinuam e enchem a mente com clima hipnótico.

Já nestes primeiros momentos percebemos um inteligente “estalo” da percussão que funciona quase como gatilho que nos retira do transe.

Esta faixa, “Vassi para Omolú em Si bemol menor”, já se destaca de saída pela ousadia no tempero oriental das melodias do sax tenor, que se desenrola em arabescos “pontudos”, assim como veremos na “groovada” “Ijexá Gnawa”.

Uma proposta ousada mesmo se vista como uma simples fusão de jazz com música africana, que se acelera em “Aguéré – A Caça de Odé”, com o sax dançando como numa capoeira musical, mostrando que o alto nível criativo seguirá, com “gritos viscerais” do sax que percorre todo o espectro de frequências possíveis em si mesmo.

Sem dúvidas, este primeiro trabalho Alabê KetuJazz, por sua personalidade forte e alto padrão de qualidade musical, não é indicado a todos os ouvidos.

Todavia, aqueles que se dedicarem a uma audição acurada poderão perceber a marca do verdadeiro amante da música, aquele desejo irresistível de se familiarizar com todas as manifestações da arte, antigas e modernas.

A música aqui segue suas peregrinações dentro das composições, até a metamorfose final da história contada pelo sax.

Por exemplo, “Opanijé Xaxará” “Aguéré – A Caça de Odé” narram uma fuga intensa de quem pedirá descanso em “Igbi Adijá”, uma parada na jornada, um longo e cadenciado respiro com destaque às peripécias da seção rítmica que brinca sutilmente com tempos e ritmos, enquanto assume certo protagonismo no desfecho ritualístico.

A retomada da jornada se dá em “Bravum Sete Cores” andando com rumo bem definido, mas sem seguir os limites pré-estabelecidos pelo caminho, oscilando em velocidade e intensidade, mas já carregando a felicidade da liberdade nos desdobramentos do sax, mais evidentes em “Savalú MotumbᔓBatá Nippon”, esta última já com certo onirismo provocado pelo êxtase da liberdade.

Existe uma organicidade no geral, e uma crueza que não deixam vazios na sonoridade cujo apelo é uma força primitiva e poderosa, dotada de complexidade nada presunçosa. Destaque ainda às vocalizações usadas com parcimônia dando um efeito interessante na sonoridade.

O disco foi produzido pela dupla Olivier e Linx, e a produção foi cuidadosa em manter a fidelidade aos timbres sagrados do candomblé. Inclusive a técnica de captação dos instrumentos de percussão fora inventada por Antoine Olivier.

Dentre as participações especiais temos Carlos Malta, Henrique Bunde, Tiago Magalhães e Gabriel Guenther; além de nomes do candomblé, como a Ekedy Nicinha, a Mãe Nildinha de Ogum, Raoul de Ogum (Ogã Alabê do axé Opo Afonjah), Ogã Eli (casa de Oxumaré), Alabê Lazinho, Ogã Licinho, Alabê Joilson São Pedro e muitos outros.

Sem medo de exagerar, posso afirmar que este primeiro álbum do  Alabê KetuJazz é um dos grandes momentos de originalidade do jazz nacional nos últimos anos, ao lado da Nômade Orquestra e do Bombay Groovy, em três propostas tão diferentes quanto deliciosas!

Procure este disco, pois vale muito a pena!

Ouça o disco na íntegra via Bandcamp, aqui. 

Comentários

Deixe uma resposta