ATUALIZANDO A DISCOTECA: Heretic, “λειτουργία” (2015)

Um álbum que já abre com guitarras pesadas permeando psicodélicos arabescos atonais que convergem para uma faixa de abertura flamejante,  evocando ritmos brasileiros através do uso de percussão e das seis cordas. É exatamente este padrão que seguirá em  "Leitourgia" (o que se obtém após converter os caracteres gregos para nosso alfabeto), segundo álbum lançado pela banda goiana Heretic, em 2015. Sua faixa de abertura,  "Rajasthan Ritual"  é uma verdadeira dança entre influências orientais e ocidentais da música moderna. Mas não pense que estaremos diante da brutalidade do Nile, mesmo que tenhamos esbarrões com o Metal Extremo, ou  tradicionalismo lírico e vocal do Orphaned Land, pois a proposta é mais exploratória, intrincada, e por que não, psicodélica (confira a onírica releitura para "Solitude" , do Black Sabbath). E poucos foram os nomes dentro da música brasileira que ousaram em investir em uma forma tão exótica de música (talvez apenas a banda Bombay Groovy, mas numa direção diferente - clique aqui para saber mais ). Ainda mais, poucos foram aqueles que tiverem capacidade técnica para unir movimentos de Heavy Metal intrincados, como os da faixa "Lamashtu" , ou de "Unleash the Kraken" , com arabescos e orientalismos musicais de modo tão exótico.   "Leitourgia" (o que se obtém após converter os caracteres gregos para nosso alfabeto), segundo álbum lançado pela banda goiana Heretic, em 2015, é uma verdadeira dança entre influências orientais e ocidentais da música moderna. Claro que fica perceptível a sensibilidade fervilhante necessária para expandir tal exotismo (confira a faixa  "Sonoro" ). A adição de instrumentação típica à formação básica do Heavy Metal já não é mais novidade, mas a banda investe na imprevisibilidade musical para engrandecer suas passagens cheias de arabescos misturadas a vocalizações, efeitos pertinentes (como na introdução de "Ghost of Ganheesha" ),   além de coros hipnotizantes entremeados por várias facetas do metal. Mesmo sendo um álbum de música instrumental, a variabilidade dos arranjos e das passagens torna as canções dinâmicas.  "I Am Shankar" traz uma riqueza de detalhes que gera a girar o farol do Folk Metal para uma direção quase diametralmente oposta, buscando a música folk de um hemisfério diferente, afinal, existem passagens mais tradicionais e progressivas do Metal, mas também temos flertes fortes com as sonoridades do Black Metal e do Death Metal. A proposta é concretizada de modo fluido e explorativo dentro da abordagem progressiva e até mesmo jazzística (confira o desfecho com  "The Hedonist" ), de tempero musical indiano, e dando o mesmo espaço para o Heavy Metal que é concedido a suas incursões orientais, tirando do segundo apenas o caráter climático. Confira a faixa "Rajasthan Ritual" ...   Imprevisibilidade aqui é a palavra de ordem! As guitarras estão vibrantes e bem desenvolvidas, assim como as linhas de baixo e bateria, e quando a banda se dedica apenas ao Heavy Metal, é impressionante a versatilidade de seus integrantes ao transitar por diversos estilos diferentes. Não existem regras musicais. As composições soam livres, e quando tudo parece caminhar para a normalidade, de repente, emerge um riff  sinuoso em meio a uma geometria inspirada pelo Death Metal (como em  "Sensual Sickness" ) que, por sua vez, se esparrama em difusos e lascivos efeitos dedilhados de tempero brasileiro. Em meio a esta caleidoscópica viagem musical, emerge um álbum flamejante, onde as excentricidades e os exotismos são parte da obra e não simples adornos jogados com o objetivo de soar diferente. Eu daria somente um pouco mais de limpidez à produção. Pense o que seria de uma peça como a acachapante  "Solaris" com um pouco mais de brilho! E, talvez, por isso tudo, junto a falta dos vocais, tão valorizados num gênero como o Heavy Metal, o resultado final seja tão artisticamente belo quanto de difícil digestão. Mas se você já está habituada à música instrumental e possui a mente aberta, certamente vai encarar este trabalho como deve ser: o Heavy Metal transformado ainda mais em arte musical! Confira, via Bandcamp, o álbum na íntegra...    …

ERNEST HEMINGWAY: O Escritor no Campo dos Espiões

No mundo da espionagem existiu uma classe especial de espiões, conhecidos como amadores, que eram homens ou mulheres sem nenhum treinamento formal sobre espionagem e cujos esforços eram conduzidos apenas pelo patriotismo. O termo espião amador denota pessoas que voluntariamente prestam serviços a seu país como espiões ou que concordavam em servir como ativos sem remuneração, simplesmente por ter algum tipo de acesso à importante inteligência estrangeira. Um dos mais famosos espiões amadores americanos foi o escritor Ernest Hemingway que, agindo contra a corrente comum, permaneceu ativo durante os tempos de guerra, período em que a necessidade dos amadores era reduzida. Enerst Hemingway sempre fora uma figura pitoresca, dentro ou fora da literatura. Seu círculo de amigos ia de graçons, prostitutas, e artistas, a escritores, caçadores, marinheiros, e até mesmo alguns oficiais do governo. Conta a história, que um mês depois de os Estados Unidos mergulharem no segundo conflito Global, o presidente Roosevelt ordenou à marinha que recrutasse um grande grupo de civis que pudessem usar suas embarcações numa patrulha atrás do U-Boat, um submarino alemão utilizado no conflito. Dentre os voluntários, um dos mais empolgados era Ernerst Hemingway, em seu próprio Iate, e de arma no coldre. Documentos comprovam que durante a Segunda Guerra Mundial, o escritor destinou seus esforços para além da literatura. Hemingway teve relações com a seção de inteligência americana na embaixada em Havana, com ao menos três agências, sendo uma delas o FBI. No mesmo período, contactou a inteligência soviética, a NKVD, uma predecessora da KGB. Spencer Tracy, Ernest e Mary Hemingway, e outros no bar La Florida, em Havana. Historicamente, foi um dedicado anti-facista. Em 1942, Hemingway usava seus contatos em Havana para ficar de olho nos espiões das Potências do Eixo, especialmente nas cidades com grandes comunidades espanholas. E neste período em Havana, mesmo não encontrando nenhum espião do Eixo, produziu inúmeros relatórios. Conta-se que o único espião nazista na cidade foi desmascarado pela inteligência britânica, inferindo-se que ele frequentava os mesmo ambientes que Hemingway. Esta operação em Havana nasceu de uma ideia ao lado do embaixador Spruille Braden, com o intuito de que Hemingway organizasse o "serviço de inteligência" que vigiasse facistas na capital cubana. Braden tinha em mente, na verdade, um serviço de contra-inteligência. A operação foi batizadas pela embaixada americana de "The Crook Factory" , que adicionou, por causa de Braden e seu subordinado, Robert P. Joyce, à lista de problemas, os comunistas que já se avizinhavam no México. Todavia, a relação entre o escritor espião e o FBI não era das melhores, com desgaste advindo de críticas duras e severas, baseadas em acusações de conflito de interesses de ambas as partes. Edgar Hoover, diretor do FBI, baseado  nos antecedentes alcoólicos de Hemingway, teria declarado que o escritor seria "o último homem, em minha consideração, a ser usado em qualquer competência. Seu juízo não é dos melhores". Muitos nomes importantes do alto escalão político-militar dos EUA tinham reservas expressas sobre o temperamento e as tendências esquerdistas de Hemingway. Hemingway era um correspondente de guerra na França, que foi atirado ao campo de batalha com o intuito de coletar informações táticas e de inteligência que pudessem auxiliar os Aliados na liberação de Paris do poder alemão. Na verdade, o detalhes da participação na II Guerra Mundial de Ernest são obscuros. Em 1941, antes do EUA adentrarem ao conflito, o escritor e sua terceira esposa viajaram para a China. Em julho de 2009, o The Guardian noticiava que o livro  "Spies: The Rise and Fall of the KGB in America" listava o nome de Hemingway dentre os agentes da KGB em solo americano. O livro é baseado em anotações que um oficial da agência fizera quando teve acesso a arquivos de inteligência soviética em Moscou. Segundo as informações, ele teria sido recrutado em 1941, antes de sua viagem à China, e se encontrado com agentes da KGB em Londres e Havana. Todavia, os mesmos registros alegam que ele nunca fornecera informações políticas úteis e nem foi testado em trabalhos práticos. Mesmo assim, sua real intenção não é certa. Conta-se que em março de 1942, enquanto "participava" da operação em Havana, Ernest viajou ao México, onde teria encontros secretos com Gustav Regler, amigo dos tempos de Guerra Civil espanhola, e comunista desiludido. Ernest Hemingway ao lado de Gustav Regler O próprio Ernest admitiu ter visitado Regler no México, mas que o amigo já havia abandonado o comunismo por causa do pacto Hitler-Stalin. Todavia, em suas memórias, Regler declara que o escritor tinha uma paixão pelo argumento comunista, por achar ser a melhor esperança para bater os nazistas. Os registros da NKVD também sugerem que a agência tinha planos para ele, que incluia-o como principal agente influenciador cultural, responsável pela escrita de artigos para eles. Além disso, sua posição social podia estender a influência comunista aos meios políticos e intelectuais da sociedade norte-americana. Sabe-se que Hemingway se encontrou com a NKVD em cinco ocasiões entre 1943 e 1945, e a agência o define como um espião soviético. Entretanto, considerando a época, é difícil reconhecer que Hemingway fosse um espião da NKVD, por causa de seu longo repúdio aos facistas e em 1941, quando supostamente foi recrutado pela agência, o acordo entre Hitler e Stalin ainda estava em voga. Apesar do autor assumir que admirava alguns comunistas e a forma como eles defendiam seus ideais, mas não se declarava adepto da ideologia. Contra esta tese temos uma carta escrita de próprio punho por Heminway, datada de 13 de fevereiro de 1947, onde ele parece defender para si mesmo a União Soviética e seu trabalho na Espanha, numa análise lógica e um pouco apaixonada. Em 1944, Hemingway decidiu se mudar para a França com o objetivo de se tornar um correspondente de guerra. Neste período, se envolveu com um grupo de comunistas do FTPF (Francs-Tireurs et Partisans Français), "Fuzileiros e Apoiadores Franceses", onde o escritor exerceria uma influência quase patriarcal. Hemingway (ao centro) e o coronel David K. E. Bruce (à esquerda) com membros do French Underground, fora de Paris. O passo seguinte foi estabelecer um pequeno quartel general de inteligência que, ao longo de quase uma semana, liderou ao lado de outros dois nomes, operações paramilitares em Paris, com o objetivo de coletar informações que eram repassadas aos americanos. Mesmo sendo dedicado e disponível para o serviço de espionagem, seus esforços só ofereceram ganho para suas obras literárias. Sua marca maior no "serviço de inteligência" americana se encontra da libertação de Paris durante a II Guerra Mundial. Confira nossa lista de três livros para conhecer a literatura de Ernest Hemingway, aqui ...    REFERÊNCIAS Nicholas Reynolds.  "Ernest Hemingway, Wartime Spy: A Spy Who Made His Own Way"  - Junho de 2012; Ernest Volkman.  "A História da Espionagem" . Editora Escala, 2013. …

ATUALIZANDO A DISCOTECA: Sinsaenum, “Echoes of the Tortured” (2016)

Eis um supergrupo que chama a atenção dentro do Metal Extremo atual por trazer membros das bandas Dragonforce, Mayhem, e Slipknot. Quiçá, junto ao Memoriam, são os dois projetos mais interessantes do atual Metal Extremo. O Sinsaenum é um agressivo, e extremamente técnico, projeto de Fréderic Leclerq, baixista do Dragonforce, que aqui se apresenta como guitarrista, em uma proposta bem mais sombria, com influências de Thrash Metal, aliadas à frieza crua do Black Metal, em meio a uma contundente base Death Metal. "Echoes of Torture" , primeiro full lenght, tem um time de peso, completado por Stéphane Buriez (guitarra),  Sean Zatorsky (vocais), Attila Csihar (vocais, do Mayhem), Heimoth (baixo) e Joey Jordison (bateria, Slipnkot e Murderdolls), sendo mixado por Jens Bogren, conhecido por trabalhos com Amorphis, Katatonia e Kreator, e traz uma coleção de músicas brutais, técnicas, virulentas, e obscuras, que não busca reinventar o gênero, mas praticá-lo com empolgação e esmero. Confira o clipe para a faixa "Army of Chaos"...  Como destaque inicial, temos a aclimatação soturna através de introduções instrumentais ( "March" é arrepiante) para cada composição, dando uma ambientação lúdica (como em "Lullaby" ), mas atemorizante (como na infernal "Torment" ), às onze composições, sendo um artifício inteligente e que acrescenta ainda mais sombras ao trabalho como um todo, mas por uma via que remete às trilhas sonoras. E acredite, o efeito causado por estas aberturas é real, amplificando o poderio de cada composição, como se saídas de um filme de terror. Apesar do batismo do projeto ser responsabilidade de Jordison, que aqui se mostra um exímio baterista de Death Metal, as primeiras ideias para estas composições datam dos anos finais da década de 1990, quando Leclercq planejou criar uma banda de Death Metal, mas que só ganhou vida em 2010 quando Stéphane Buriez e Joey Jordison se juntaram a ele. Confira o clipe de "Splendor And Agony"...  Por aí já percebemos que Leclercq, responsável por compor todas as músicas e escrever metade das letras, não é um aventureiro no gênero, que declarara, inclusive, serem as formas mais extremas do Metal suas favoritas, e que o Power Metal do Dragonforce não seria exatamente o que ele gostaria de tocar. No geral, as faixas são construídas sobre os tradicionalismo  do Death Metal técnico, ora veloz, com direito a blast beasts,  ora groovado, mas sempre brutal e com guitarras tempestuosas, bem trabalhadas (como na fenomenal  "Echoes of Tortured) , clima pantanoso, sombrio, e primitivo, esboçando influências de Morbid Angel, Deicide, Behemoth, e Satyricon. Confira o lyric video para a faixa "Anfang des Albtraumes"...  Além disso, o contraste vocal instigante é o grande diferencial entre os atuais pares de gênero, pois a precisão de Zatorsky se entrelaçou muito bem com a caótica linha de Attila. Temos ainda intrincadas mudanças de andamentos, solos catárticos, e muito peso advindo da sustentação baixo-bateria. Aliás, a desenvoltura dos arranjos e a imprevisibilidade dos detalhes tornam as composições envolventes, mesmo nos momentos mais caóticos, onde se destacam, além da já citada faixa-título, composições como  "Splendor of Agony" ,  "Army of Chaos"  (cadência Death N' Roll , refrão marcante, mas de intensidade alta),  "Dead Souls"  (com groove matador), e  "Anfang des Albtraumes". O Sinsaenum é um supergrupo que chama a atenção dentro do Metal Extremo atual por trazer membros das bandas Dragonforce, Mayhem, e Slipknot, e "Echoes of Torture", primeiro full lenght, traz uma coleção de músicas brutais, técnicas, virulentas, e obscuras, que não busca reinventar o gênero, mas praticá-lo com empolgação e esmero, esboçando influências de Morbid Angel, Deicide, Behemoth, e Satyricon... Um trabalho que consegue fugir da modernidade estéril, por uma ofensiva sonora com variação de andamentos envolventes, extraindo o conteúdo latente nas influências multifacetadas de cada membro, usando-o como ponto de partida para novas composições, sem recusar a violência ou as perversões musicais, soando como um apelo Death Metal para a nova geração. …