FILME: “Logan” (2017)

Por Ricardo Leite Costa “Logan” marca a aposentadoria de Hugh Jackman no papel que o consagrou. Foram nove filmes no total, estabelecendo um recorde: o personagem interpretado mais vezes no cinema pelo mesmo ator. Realmente, quando falamos em Logan, automaticamente lembramos de sua personalidade mais inflamada, selvagem, no caso, o Wolverine. O mutante mais querido e carismático do universo Marvel teve boas incursões cinematográficas, graças em boa parte ao talento de Jackman na entrega ao papel, porém, em todas elas faltava aquela explosão de fúria e intensidade tão peculiar ao baixinho cascudo. Era um Wolverine cavalheiro, que mal proferia palavrões e que jamais arrancaria a cabeça de um malfeitor. A extremidade do caráter do personagem nunca havia sido exposta de fato. Muito se falava de um longa onde pudéssemos vivenciar o real Wolverine. Aquele que aprendemos a amar e a odiar em igual proporção, e esse dia chegou... Confira o trailer oficial...  “Logan” é um filme de extremos. Primeiramente, se você for assisti-lo com a ideia pré-concebida de se tratar de um filme de herói, vai cair do cavalo. O filme não trata do X man Wolverine e de como, juntamente com sua equipe de mutantes evoluídos e poderosos, ele vai salvar o mundo da ameaça mais tenebrosa. “Logan”, como o próprio nome diz, foca no homem, que tem fraquezas, dúvidas, erra e, principalmente, sucumbe como qualquer outro. O filme é baseado (ainda que sutilmente) nos quadrinhos “O Velho Logan” (The Old Man Logan, de 2008), onde a ação se passa em 2029, num futuro em que a espécie mutante foi praticamente extinta. Nesse cenário quase pós-apocalíptico, temos um envelhecido Logan (Hugh Jackman) que vive como motorista de limousine, tentando levar uma vida aparentemente normal. Além de seus afazeres triviais, ele ainda cuida de um debilitado e atormentado Charles Xavier (Patrick Stuart), que é portador de Alzheimer. Ambos vivem refugiados em uma antiga siderúrgica abandonada na fronteira do México com os Estados Unidos, juntamente com Caliban (Stephen Merchant), um mutante albino com poder de rastrear outros mutantes, e que ajuda Logan a cuidar de Xavier. Confira o segundo trailer oficial...  Nesse ambiente de total desolação, vivendo uma angústia e um conflito interno implacáveis, nosso herói se mete em uma enrascada quando uma misteriosa mulher, Gabriela (Elizabeth Rodriguez), pede sua ajuda. Fisicamente e emocionalmente esgotado, Logan não tem interesse algum em voltar à ativa, mas involuntariamente acaba envolvido em algo que não imaginava. A narrativa, apesar de ser um filme de quase duas horas e meia de duração, é bem dinâmica, sem perder muito tempo em desenvolvimentos desnecessários e focando primordialmente no conceito da trama, que não tem também muitas “mirabolâncias”, indo direto ao foco. A partir do momento que surge Laura (Dafne Keen), pivô central de toda a história, o ritmo torna-se intenso e violento, mas muito violento. Laura é uma mutante criada em laboratório a partir do DNA de Logan, portanto, possuidora dos mesmos poderes, porém, enquanto Logan está com seu fator de cura seriamente comprometido, o de Laura é avançadíssimo. A garota está sendo caçada por um grupo de mercenários (os Carniceiros), e cabe a Logan a tarefa de ajudá-la a escapar em segurança. Dafne Keen, em seu primeiro papel no cinema, se mostrou a escolha perfeita no papel de uma Laura perturbada, agressiva e próxima da selvageria absoluta. Uma autêntica “besta” recolhida em um frágil corpo de criança. Durante o desenrolar da trama, é visível a decadência crescente de Logan. Além dos poderes que já não são mais os mesmos, Logan é um sujeito sem esperanças, que perdeu há muito tempo a fé na humanidade (ainda mais sendo ele uma vítima de experimentos tão traumáticos); em contrapartida, todo esse esgotamento físico e mental, por assim dizer, é convertido em ódio, e aquela fera enclausurada é posta em liberdade e, meus amigos, o banho de sangue é abundante. Tudo aquilo que você não viu nos filmes anteriores é visto aqui. James Mangold (diretor) não teve medo de expor a dura realidade dos personagens na tela. As cenas de combate e as coreografias de lutas são impecáveis e gráficas. A sonoplastia faz você sentir as garras rasgando a sua carne. Os efeitos especiais não abusam da computação gráfica, tornando tudo muito mais verossímil. Em “Logan” você vai presenciar decapitações, amputações, eviscerações, e vai achar sensacional, claro, se for um real fã do personagem. Do contrário, vai sentir algum desconforto gástrico e não vai ver muito sentido nisso tudo. O roteiro foi muito bem construído e toda a “liberdade poética” que temos aqui não atrapalha e nem descaracteriza sumariamente a história original. “Logan” tem sequências de ação eletrizantes, porém, trata-se muito mais de um drama misturado com faroeste moderno. A trajetória dos personagens é muito sofrida, dificultada pela ambientação inóspita, desértica (pelo menos em boa parte da trama), que não raro fará o espectador se solidarizar com eles. Hugh Jackman mais uma vez encarna com perfeição Wolverine, e deu o sangue no encerramento de sua saga. O desafio de criar uma história baseada em uma “grafic novel” conceituada, e sem temer críticas por causa das discrepâncias e da bagunça cronológica dá ainda mais mérito ao diretor James Mangold e sua obra. Hugh Jackman mais uma vez encarna com perfeição Wolverine, e deu o sangue no encerramento de sua saga. Em entrevista recente, Jackman disse que, para dar mais veracidade a sua aparência de velho e cansado, ele utilizou lentes de contato próprias, que deixavam seu olhar com aspecto sofrido, além de usar uma pedra no sapato para tornar a claudicação muito mais convincente. Dafne Keen, em seu primeiro papel no cinema, se mostrou a escolha perfeita no papel de uma Laura perturbada, agressiva e próxima da selvageria absoluta. Uma autêntica “besta” recolhida em um frágil corpo de criança. “Logan” é um encerramento digno, o descanso merecido (pelo menos por enquanto) de um dos personagens mais emblemáticos das HQ’s. Resta saber se algum outro autor o interpretará com tamanha propriedade em uma outra série de filmes, ou ainda: se teremos um filme solo da Laura/X-23. Bom, só nos resta esperar. …

ATUALIZANDO A DISCOTECA: Jacintho, “Jacintho” (EP, 2017)

O talentoso cantor e compositor paulista Murilo Henrique Jacintho, "rebatizado" simplesmente como Jacintho, se apresenta, em seu primeiro EP, auto-intitulado, como uma entidade romântica, um cronista das aventuras e desventuras do amor através de quatro composições que desfilam guitarras inflamadas, sensuais elementos latinos, e viris momentos melódicos alternados por aveludadas interseções climáticas. Murilo não é novato dentro do cenário musical, tendo trabalhado como editor de cultura e apresentador de rádio, editor de blog voltado à música independente nacional, e liderado a banda post punk Ironias, onde fez diversos shows pelo país e lançou dois EPs. Com esta bagagem, Murilo encarna Jacintho para desfilar uma costura quente, poética e destemida de Rock, MPB, e Jazz, com muita identidade. Confira a faixa "Edredom"...  Sem preocupações com normas ou regras,  "Edredom" abre o trabalho de forma pujante e dinâmica, enquanto  "Sobre Flores na Cama" é a mais bela composição do quadrilátero de canções, com detalhes preciosos, e tempero soul salpicado em sua estrutura ousada. Por estas duas faixas iniciais fica nítida a forma particular, febril e agênera com que Jacintho renova certos classicismos da música nacional. Confira uma performance para "Sobre Flores na Cama"...  Seguindo pelo trabalho, temos  "Caça-Quente"  (composição de brasilidades sinuosas) completando o trio de composições que se abdicam do gênero para o eu-lírico, dando o protagonismo das ações às flores, que são parte da estética artística livre e moderna de Jacintho, investindo na miscigenação de ritmos latinos, ciganos, brasileiros, roqueiros e jazzísticos, numa engenharia musical muito bem desenvolvida e pensada nos mínimos detalhes para ser versátil e original. Confira a faixa "Caça-Quente"...  A produção crua, perspicaz, incisiva e inquisidora é claro reflexo da forma como foram registradas estas músicas: ao vivo no Bodeguita Bar, em Pirassununga (SP), com uma banda formada por Alyne Suesique, Zica (voz), Marcos Godoy (guitarra), Marcos Zaniboni (contrabaixo), Lucas Gilli (bateria), Estevam Petrocchi (percussão e sonoplastia acústica), Bruno Miranda (saxofone), Adonias Fonseca (trompete) e Joni dos Santos (trombone), além da voz do próprio Jacintho. Confira a faixa "Óculos"...   Obviamente essa forma de registro resulta numa organicidade cheia de alma, e com clima de "live session",  o que acarreta em prós e contras. A timbragem das guitarras e as pinceladas dos naipes de metais (em alguns momentos chegam a lembrar os arranjos da banda Cake) estão brilhantes, sendo parte preciosa das composições. Em contrapartida, a mixagem colocou a voz de Jacintho "atrás" de algumas partes da instrumentação nos arranjos, escondendo a densa e entregue interpretação do artista. Escute Jacintho nas principais plataformas digitais: Spotify , Deezer . "Óculos" , faixa mais rocker do EP, fecha este preludio da carreira de Jacintho com força e energia que empolgam e emocionam, transpirando paixão pela sua obra, cumprindo a missão de apresentar sua alma musical e gerar expectativa pelo trabalho sucessor, já prometido como um segundo EP, encaminhado com a seleção do projeto LABMIS, do Museu da Imagem e Som. Redes Sociais Facebook Youtube …

ATUALIZANDO A DISCOTECA: Vorgok, “Assorted Evils” (2016)

Vorgok é um neologismo criado para definir a coleção de todos os males praticados pela humanidade, passados, presentes e futuros, e que batiza uma banda oriunda do Rio de Janeiro que veio pintar a cidade maravilhosa pelas cores obscuras e brutais do Thrash Metal oitentista, com pinceladas do Death Metal americano. Fundada em 2014, já em 2016 apresentou “Assorted Evils”,  seu primeiro álbum, que se destaca pela produção impecável e extrema destreza no estilo que decidiram praticar, enegrecendo certos tradicionalismos pelo feeling atemorizante onipresente ao longo do álbum, que emerge das letras versando sobre temas como a intolerância, a manipulação, a opressão, o extermínio das espécies, os direitos dos povos do Terceiro Mundo, ou seja, os demônios reais com os quais convivemos todos os dias. Confira o webclipe para a faixa "Hunger"...  Formada por Edu Lopez (guitarra e voz; Anschluss, ex-Necromancer, ex-Explicit Hate), João Wilson (baixo), Bruno Tavares (guitarra; Demolishment) e o incansável Jean Falcão (bateria; Absolem, Dark Tower), a banda Vorgok impressiona pelas mudanças clínicas de andamentos, as precisas evoluções instrumentais, e as linhas vocais certeiras que empolgam como os antigos clássicos do Thrash Metal faziam, seja pela velocidade, pela brutalidade, ou pelo classicismo. Ao longo das dez faixas, impiedosamente dispostas ao longo de trinta e seis minutos, são óbvias as remissões a Slayer, principalmente em faixas como  "Deception in Disguise", "Antagonistic Hostility",  e  "Headless Children"   que têm uma geometria impossível de não ser associada aos deuses norte-americanos do Thrash Metal, principalmente pelas linhas vocais angustiantes, mas cuja timbragem e produção não permitem que soem como um cópia, pois usam o conteúdo latente dos clássicos como ponto de partida para suas composições. Confira o lyric video para a faixa "Kill Them Dead"...  Sem dúvidas, estes caras são fãs de Slayer, mas não fiam apenas pela cartilha do lendário quarteto norte-americano, pois experimentamos detalhes de Dark Angel, Kreator, Destruction, Sodom e Sepultura, ao lado de Death, Autopsy, e Massacre, mas a banda não se restringe a um Frankenstein de mimetismos, inserindo molduras modernas para o panorama de sua obra, com personalidade e voz própria, eloquentes pelos arranjos e andamentos dinâmicos, de solos e riffs viscerais, e altíssima técnica instrumental. Neste contexto, se destacam a iracunda e rápida  "Hunger" , a trabalhada  "Kill Them Dead" que provoca um verdadeiro amálgama de suas influências,  "Last Nail In Our Coffin", "Mass Funeral At Sea",  e "Hell's Portrait"  com os dois pés no Death Metal, além de  "Man Wolf To Man"  e sua variação de andamentos, que não recusam a violência ou as perversões musicais. Confira o álbum na íntegra, via Youtube...  Em resumo, musicalmente temos a técnica e precisão do Thrash Metal, com a agressividade e dinamismo do Death Metal norte-americano, forjados sobre o fogo da modernidade, num resultado perturbador. Quando se escolhe um gênero para se trabalhar dentro do Heavy Metal tem-se dois caminhos à disposição: reinventá-lo, ou praticá-lo com empenho, empolgação e energia. E o Vorgok se orgulha de caminhar na segunda opção com a eficiência de poucos hoje em dia, compondo Thrash Metal, para fãs de Thrash Metal! …